O inalienável direito à garganta funda
Não é um qualquer. Foi reeleito presidente do maior grupo parlamentar
europeu, o Partido Popular Europeu, e é dos mais influentes a preparar a
substituição de Durão Barroso. Joseph Daul, de 67 anos, é um conservador
francês, deputado europeu pela direita. Ontem deu uma entrevista a um jornal da
sua região, Dernières Nouvelles d"Alsace, isto é, falou com cuidado, para
quem o elege. Perguntaram-lhe como motivar os jovens sobre a Europa. Respondeu:
"Digo-lhes que quando tinha a idade deles e ia a Khel, na Alemanha, a
poucos quilómetros de minha casa, para ver um filme pornográfico, proibido em
França, perdia horas na alfândega e chegava atrasado. Quando digo isto aos
jovens eles percebem o que a Europa quer dizer." Joseph Daul não respondeu
ao lado, falou certo. No ano passado, escrevendo sobre o 25 de Abril,
lembrei-me do Sr. Glória, dono de uma papelaria na Alameda, frente ao Instituto
Superior Técnico. Por aqueles dias de 1974, antes do grande dia, era comum
haver manifestações. O comerciante, que servia uma cliente, não levantou a
cabeça quando disse: "Ontem lá houve mais bordoada entre estudantes e
polícias." Fez mal em não levantar a cabeça, não reparou num desconhecido.
Este era um guarda da PSP que "logo lhe deu voz de prisão" (relatou o
Diário de Lisboa, 1-2-74). O Sr. Glória foi a tribunal por "propagação de
boatos". A liberdade é sagrada. Incluindo ver filmes pornográficos e não
levantar a cabeça quando se fala.
FERREIRA FERNANDES
Hoje no DN
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