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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Há coisas que a nossa memória nunca esquece:


Ao publicar esta fotografia faço-o com o intuito de relembrar aos que não passaram por esta realidade para ver como eram os tempos da minha meninice. Fui-a buscar à Internet porque nesse tempo a minha classe – a dos pobres –, não tinha dinheiro para gastar em retractos como era usual apelidar a fotografia. As comparações são idênticas. Mal vestidos, roupa que não servia em tamanho a um irmão, que se tornou mais velho, ficava para o que lhe sucedia, sacolas da escola e ardósias também fruto da sobra, uns calçados e outros descalços. Cabelo rapado para não dar guarida aos parasitas, ranhosos como apelidavam os que não tinham um lenço para assoar o nariz. Íamos para a escola, uma grande parte das crianças, com o estômago vazio ou enganado, pela escassez dos géneros de alimentação ou falta de dinheiro.
Tudo isto foi passando com a emigração para França, esta, por via legal ou a salto, e Alemanha. A guerra ultramarina também teve contributo porque quer em Angola, Moçambique, Guiné e outras províncias ultramarinas absorviam muitos jovens que passaram a escassear no mundo laboral. Os emigrantes, uma maioria, a vida começou a correr-lhes bem e com o pé-de-meia que todos os meses conseguiam fazer começaram a investi-lo na sua terra. A construir a sua casa – finalidade que os levou a emigrar – comprar móveis e utensílios domésticos.
As chamadas oficinas de móveis começaram a proliferar e assim a procura de novos empregados. Como não os havia, fruto da emigração e da guerra do ultramar, começaram os salários a subir e trabalhar-se horas extraordinárias. Para quem cá estava o pecúlio semanal, a maioria recebia à semana, começou a aumentar e com isso a investir-se um pouco mais quer num frigorífico, num rádio ou numa televisão.
Até que veio o vinte e cinco de Abril. Aqui a revolução foi a nível de tudo: nas leis, elaborou-se a Constituição da República Portuguesa, o código de Trabalho e Civil foram revistos, criaram-se mais benefícios aos trabalhadores, assim como, aumento nos ordenados, pagamento do subsídio de Férias e Natal – os funcionários públicos já o recebiam. A partir daí a indústria e a economia começou a singrar.
Os filhos dos operários começaram a poder frequentar o ensino universitário e daí começarem a haver mais engenheiros e doutores contribuindo por isso para o avanço da tecnologia e economia portuguesa. Emigrantes portugueses bem-sucedidos vieram novamente para o País e criaram as suas empresas a maioria delas no comércio.
Com a entrada na Comunidade Económica Europeia (C.E.E.) começaram a surgir incentivos e tudo ia de vento, em popa. Só que houve alguém que resolveu acabar com as pescas, agricultura e indústria. O dinheiro que devia ser investido no progresso do País começou a ser dado aos amigos para comprarem jipes, vivendas e quintas. Começaram os amigos de Cavaco Silva a investir na bolsa e nos bancos. Criaram bancos sem possuir um tostão. Era o que podia mais roubar. Saíram da sua terra com uma mão à frente e outra atrás e quando lá voltaram foi ao volante de porches e jaguares.
Hoje quando olho para a realidade do País faz-me recordar os tempos da minha meninice. Penso nas crianças que nascem agora o que vai ser o seu futuro. Vai-lhes acontecer o mesmo que às exibidas na fotografia. Descalças, cabelo rapado por causa dos parasitas e com o nariz cheio de ranho por não terem um lenço para o limpar.     

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