Ao publicar esta fotografia faço-o com o intuito de relembrar aos que
não passaram por esta realidade para ver como eram os tempos da minha meninice.
Fui-a buscar à Internet porque nesse tempo a minha classe – a dos pobres –, não
tinha dinheiro para gastar em retractos como era usual apelidar a fotografia.
As comparações são idênticas. Mal vestidos, roupa que não servia em tamanho a
um irmão, que se tornou mais velho, ficava para o que lhe sucedia, sacolas da
escola e ardósias também fruto da sobra, uns calçados e outros descalços.
Cabelo rapado para não dar guarida aos parasitas, ranhosos como apelidavam os
que não tinham um lenço para assoar o nariz. Íamos para a escola, uma grande parte
das crianças, com o estômago vazio ou enganado, pela escassez dos géneros de
alimentação ou falta de dinheiro.
Tudo isto foi passando com a emigração para França, esta, por via legal
ou a salto, e Alemanha. A guerra ultramarina também teve contributo porque quer
em Angola, Moçambique, Guiné e outras províncias ultramarinas absorviam muitos
jovens que passaram a escassear no mundo laboral. Os emigrantes, uma maioria, a
vida começou a correr-lhes bem e com o pé-de-meia que todos os meses conseguiam
fazer começaram a investi-lo na sua terra. A construir a sua casa – finalidade
que os levou a emigrar – comprar móveis e utensílios domésticos.
As chamadas oficinas de móveis começaram a proliferar e assim a procura
de novos empregados. Como não os havia, fruto da emigração e da guerra do
ultramar, começaram os salários a subir e trabalhar-se horas extraordinárias.
Para quem cá estava o pecúlio semanal, a maioria recebia à semana, começou a
aumentar e com isso a investir-se um pouco mais quer num frigorífico, num rádio
ou numa televisão.
Até que veio o vinte e cinco de Abril. Aqui a revolução foi a nível de
tudo: nas leis, elaborou-se a Constituição da República Portuguesa, o código de
Trabalho e Civil foram revistos, criaram-se mais benefícios aos trabalhadores,
assim como, aumento nos ordenados, pagamento do subsídio de Férias e Natal – os
funcionários públicos já o recebiam. A partir daí a indústria e a economia
começou a singrar.
Os filhos dos operários começaram a poder frequentar o ensino
universitário e daí começarem a haver mais engenheiros e doutores contribuindo
por isso para o avanço da tecnologia e economia portuguesa. Emigrantes portugueses
bem-sucedidos vieram novamente para o País e criaram as suas empresas a maioria
delas no comércio.
Com a entrada na Comunidade Económica Europeia (C.E.E.) começaram a
surgir incentivos e tudo ia de vento, em popa. Só que houve alguém que resolveu
acabar com as pescas, agricultura e indústria. O dinheiro que devia ser
investido no progresso do País começou a ser dado aos amigos para comprarem
jipes, vivendas e quintas. Começaram os amigos de Cavaco Silva a investir na
bolsa e nos bancos. Criaram bancos sem possuir um tostão. Era o que podia mais
roubar. Saíram da sua terra com uma mão à frente e outra atrás e quando lá
voltaram foi ao volante de porches e jaguares.
Hoje quando olho para a realidade do País faz-me recordar os tempos da
minha meninice. Penso nas crianças que nascem agora o que vai ser o seu futuro.
Vai-lhes acontecer o mesmo que às exibidas na fotografia. Descalças, cabelo
rapado por causa dos parasitas e com o nariz cheio de ranho por não terem um
lenço para o limpar.



Sem comentários:
Enviar um comentário