Ainda me lembro do seu regresso a Portugal. Parece que o estou a ver e a
ouvir a discursar na sua chegada ao aeroporto de Lisboa. Antes uns dias, salvo
erro, dia vinte e sete de Abril, fui até ao Porto para me inteirar das
manifestações. Era um sábado, via-se muita gente na rua e alguns carros com
panos vermelhos a desfraldar pelas principais ruas do Porto, avenida dos
Aliados, Praça D. João I, Batalha e outras mais. Lembro-me que na sua passagem
eram presenteados com assobios como forma de protesto.
Havia dois dias de liberdade e as coisas estavam confusas. Percebia
pouco de política e estava indeciso para que lado me virar. Mas bastaram poucos
dias para tomar uma decisão. Com o discurso na chegada de Cunhal optei logo
pela minha ideologia política. Ouvia e devorava os seus discursos e dizia, para
comigo: isto sim! Vale a pena o tempo despendido. Esteve por duas vezes em
Freamunde e recordo a multidão de gente à sua espera.
Numa dessas vezes chovia a bom chover mas o povo não arredava pé. A
Freamunde veio gente de toda a parte. O seu discurso ficou na mente dos
presentes. Todos o aclamaram e queriam tocar-lhe. Estava um pouco distante e
pensava com os meus botões: como é possível um país tão pobre e com falta de
intelectuais abdicar destas inteligências. Mas era assim.
Ainda hoje recordo os seus discursos e a frase que ficou célebre: olhe
que não! De pessoas assim dá prazer falar. Levou uma vida atribulada
mas honrou sempre a sua Portugalidade.
Não era como estes políticos de “plástico.
Havia confronto mas respeito. Nunca usava frases ofensivas para com os seus
opositores. Debates com ele nas televisões era sinónimo de forte audiência. O Partido
Comunista Português ficou a perder com a sua morte mas Portugal perdeu muito
mais.

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