Rádio Freamunde

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domingo, 20 de janeiro de 2013

Álvaro Cunhal:


Ainda me lembro do seu regresso a Portugal. Parece que o estou a ver e a ouvir a discursar na sua chegada ao aeroporto de Lisboa. Antes uns dias, salvo erro, dia vinte e sete de Abril, fui até ao Porto para me inteirar das manifestações. Era um sábado, via-se muita gente na rua e alguns carros com panos vermelhos a desfraldar pelas principais ruas do Porto, avenida dos Aliados, Praça D. João I, Batalha e outras mais. Lembro-me que na sua passagem eram presenteados com assobios como forma de protesto.
Havia dois dias de liberdade e as coisas estavam confusas. Percebia pouco de política e estava indeciso para que lado me virar. Mas bastaram poucos dias para tomar uma decisão. Com o discurso na chegada de Cunhal optei logo pela minha ideologia política. Ouvia e devorava os seus discursos e dizia, para comigo: isto sim! Vale a pena o tempo despendido. Esteve por duas vezes em Freamunde e recordo a multidão de gente à sua espera.
Numa dessas vezes chovia a bom chover mas o povo não arredava pé. A Freamunde veio gente de toda a parte. O seu discurso ficou na mente dos presentes. Todos o aclamaram e queriam tocar-lhe. Estava um pouco distante e pensava com os meus botões: como é possível um país tão pobre e com falta de intelectuais abdicar destas inteligências. Mas era assim.
Ainda hoje recordo os seus discursos e a frase que ficou célebre: olhe que não! De pessoas assim dá prazer falar. Levou uma vida atribulada mas honrou sempre a sua Portugalidade. 
Não era como estes políticos de “plástico. Havia confronto mas respeito. Nunca usava frases ofensivas para com os seus opositores. Debates com ele nas televisões era sinónimo de forte audiência. O Partido Comunista Português ficou a perder com a sua morte mas Portugal perdeu muito mais.

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