Sempre gostei de filmes que nos contam histórias que podiam ser
verdadeiras. Com guiões longos e que nos levam a imaginar o seu final mas, de
episódio em episódio, vai-se alterando. Foi o que aconteceu com o filme “Homem
sem Passado”. Relatava-nos o espancamento de um homem e seu abandono. Foi
encontrado por dois jovens e levado para o hospital onde lhe trataram das
escoriações mas quanto à memória nada puderam fazer: tinha-a perdido. Andou de
terra em terra a ver se a conseguia mas cada vez as dúvidas eram maiores.
Gosto de falar disto porque um dia também me sucedeu o mesmo. No fim de
um treino de futebol e quando o treinador treinava os guarda-redes de tão
cansado que estava, numa defesa em golpe de rins, caí mal, bati com a nuca da
cabeça no chão. Passado pouco tempo comecei a perder a visibilidade e perda de
memória o que me levou a queixar-me ao treinador. Deu por terminado o treino.
Dirigi-me para o balneário mas não me lembrava do meu passado. De onde
era e de quem era. Relatei este facto à guarda do campo que esperava que me
aprontasse para se ir embora porque os treinos eram nocturnos. Foi dar
conhecimento a um director. Fui levado ao hospital onde me foi receitado um
medicamento para tomar, aconselhado a repouso, e que não me contrariassem.
No regresso o director ia-me deixar no centro de Freamunde. Disse-lhe
que não sabia para onde me dirigir porque não sabia quem era e onde morava. Fui
levado a casa e a partir daí começou a fazer-se luz na minha memória. Por isso
compreendo o sofrimento do “homem sem passado”. Sei tratar-se de um filme mas
vivi essa realidade.
E chego à conclusão que não somos ninguém sem passado.
Este intróito, que vai longo, tem por finalidade fazer compreender o
que estão a fazer a muitas das freguesias portuguesas que vão ser agregadas ou
desaparecer. Os seus habitantes vão passar a ser pessoas sem passado. Como no
filme, ou na história que relato sobre mim, não há coisa mais deplorante que é
não ter passado. Os entendidos que propuseram esta medida deviam perder o seu
para saberem o que isso é.
Quando nascíamos tínhamos um pai, uma mãe, um País, um lugar e uma
terra. Isto era noutros tempos em que diziam que éramos atrasados. Hoje em
pleno século XXI vem uns iluminados contrariar isso tudo. Querem modernices e
não vêem que estão a dar cabo de Portugal. Lamento o que estão a fazer. E, mais
lamento o silêncio de muitos autarcas, assim como as populações que vão estar
sujeitas a agregações ou ao seu desaparecimento.
No concelho de Paços de Ferreira há umas quantas. Modelos deixa de
existir. Os seus habitantes que tem um passado de trezentos e tal anos vão
passar à estaca zero que é o mesmo que dizer ao sem passado. Sanfins de
Ferreira, Codeços e Lamoso vão ser aglutinadas e passam a ser
Sanfins-Codeços-Lamoso. O mesmo acontecendo a Frazão-Arreigada. Quando for
preciso dirigir-se à junta de freguesia tem de se dizer: junta de freguesia de
Sanfins-Codeços-Lamoso ou Frazão-Arreigada. Vai-se tornar chique.
Ao que chegamos. Tiram-nos tudo. Até o nosso passado.

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