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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Sem passado:


Sempre gostei de filmes que nos contam histórias que podiam ser verdadeiras. Com guiões longos e que nos levam a imaginar o seu final mas, de episódio em episódio, vai-se alterando. Foi o que aconteceu com o filme “Homem sem Passado”. Relatava-nos o espancamento de um homem e seu abandono. Foi encontrado por dois jovens e levado para o hospital onde lhe trataram das escoriações mas quanto à memória nada puderam fazer: tinha-a perdido. Andou de terra em terra a ver se a conseguia mas cada vez as dúvidas eram maiores.
Gosto de falar disto porque um dia também me sucedeu o mesmo. No fim de um treino de futebol e quando o treinador treinava os guarda-redes de tão cansado que estava, numa defesa em golpe de rins, caí mal, bati com a nuca da cabeça no chão. Passado pouco tempo comecei a perder a visibilidade e perda de memória o que me levou a queixar-me ao treinador. Deu por terminado o treino.
Dirigi-me para o balneário mas não me lembrava do meu passado. De onde era e de quem era. Relatei este facto à guarda do campo que esperava que me aprontasse para se ir embora porque os treinos eram nocturnos. Foi dar conhecimento a um director. Fui levado ao hospital onde me foi receitado um medicamento para tomar, aconselhado a repouso, e que não me contrariassem.
No regresso o director ia-me deixar no centro de Freamunde. Disse-lhe que não sabia para onde me dirigir porque não sabia quem era e onde morava. Fui levado a casa e a partir daí começou a fazer-se luz na minha memória. Por isso compreendo o sofrimento do “homem sem passado”. Sei tratar-se de um filme mas vivi essa realidade.
E chego à conclusão que não somos ninguém sem passado.
Este intróito, que vai longo, tem por finalidade fazer compreender o que estão a fazer a muitas das freguesias portuguesas que vão ser agregadas ou desaparecer. Os seus habitantes vão passar a ser pessoas sem passado. Como no filme, ou na história que relato sobre mim, não há coisa mais deplorante que é não ter passado. Os entendidos que propuseram esta medida deviam perder o seu para saberem o que isso é.
Quando nascíamos tínhamos um pai, uma mãe, um País, um lugar e uma terra. Isto era noutros tempos em que diziam que éramos atrasados. Hoje em pleno século XXI vem uns iluminados contrariar isso tudo. Querem modernices e não vêem que estão a dar cabo de Portugal. Lamento o que estão a fazer. E, mais lamento o silêncio de muitos autarcas, assim como as populações que vão estar sujeitas a agregações ou ao seu desaparecimento.
No concelho de Paços de Ferreira há umas quantas. Modelos deixa de existir. Os seus habitantes que tem um passado de trezentos e tal anos vão passar à estaca zero que é o mesmo que dizer ao sem passado. Sanfins de Ferreira, Codeços e Lamoso vão ser aglutinadas e passam a ser Sanfins-Codeços-Lamoso. O mesmo acontecendo a Frazão-Arreigada. Quando for preciso dirigir-se à junta de freguesia tem de se dizer: junta de freguesia de Sanfins-Codeços-Lamoso ou Frazão-Arreigada. Vai-se tornar chique.  
Ao que chegamos. Tiram-nos tudo. Até o nosso passado. 

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