Não há como negar: temos o primeiro-ministro mais aldrabão,
incompetente, irresponsável e perigoso de sempre (desde que há eleições livres,
bem entendido).
Vejamos as suas últimas declarações sobre as pensões: um chorrilho de
inexatidões, mentiras e acinte. Diz Passos que a denominada "contribuição
especial de solidariedade" (CES) é pedida aos que recebem "pensões
muito altas". Exime-se, desde logo, de explicitar que para ele as
"pensões muito altas" começam nos 1350 euros - primeira aldrabice. E
prossegue: esse "contributo especial" é devido por quem recebe essas
pensões "por não ter descontado na proporção", quando "hoje os
que estão a fazer os seus descontos terão a sua reforma como se esta fosse
capitalizada - tendo em conta todos os descontos". Refere-se ao facto de
as regras de cálculo terem mudado em 2007, com o primeiro Governo Sócrates (e
uma lei aprovada apenas com votos do PS), quando antes se referiam aos melhores
dez dos últimos 15 anos ou mesmo ao derradeiro ordenado.
Sucede que, ao contrário do que esta conversa dá a entender, a dita
"solidariedade" imposta às pensões a partir de 1350 euros vai
direitinha, como aliás esta semana o insuspeito Bagão Félix frisou no Público,
para o buraco do défice. Não vai para a Segurança Social e portanto não serve
para "ajudar" nas pensões futuras - segunda aldrabice. E se as
pensões "mais altas" não foram calculadas com base na totalidade dos
descontos, as mais baixas também não - aliás, as pensões ditas
"mínimas" referem-se a carreiras contributivas diminutas. Pela ordem
de ideias de Passos os seus beneficiários têm o que merecem: pensões baixas por
terem descontado pouco. Mas faz questão de repetir que lhas aumentou em 1,1%,
dando a entender que a CES serve para tal (terceira aldrabice), enquanto a
verdade é que o faz com o corte do Complemento Solidário para Idosos. Ora se
nem todos os que recebem pensões mínimas são pobres, o CSI, fulcral na
diminuição da pobreza dos idosos nos últimos anos, foi criado para somar às
pensões muito baixas de quem não tem outros meios de subsistência. E é aí que
Passos tira, com o desplante de afirmar que é tudo "em nome da justiça
social" (esta aldrabice vale por cem).
Mas a maior aldrabice, implícita em todo este discurso, é de que a
Segurança Social é já deficitária e urgem medidas hoje. Citando de novo Bagão,
"o Regime Previdencial da SS, além de constitucionalmente autónomo, até é
superavitário (mais receita da TSU do que as pensões e outras prestações de
base contributiva)! E tem sido este regime a esbater o défice do Estado e não o
inverso, como, incrivelmente, se tem querido passar para a opinião
pública".
Sim, Bagão está a falar do seu camarada de partido, Mota Soares, e a chamar-lhe
mentiroso. Incrivelmente? Não: devíamos estar todos a repetir o mesmo, todos os
dias, em todo o lado, até que este pesadelo acabe. E possamos, finalmente,
discutir estas coisas tão sérias com seriedade.
Fernanda Câncio no DN às sextas-feiras

Sem comentários:
Enviar um comentário