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sábado, 15 de dezembro de 2012

Cavaco diz que é preciso "não perder a esperança":


O quanto é bom ter frases destas. Ainda não há muito tempo se escandalizava e retorquia nos órgãos de comunicação social que estavam a entrar no bolso dele. Dizia com grande descaramento que não conseguia viver com tão pouca reforma. E, a isso juntava a da esposa. Há pessoas que não têm um mínimo de dignidade. Quando um País, no caso Portugal, está a ferro e fogo, vem o que me mais contribuiu para esta nossa desgraça pedir-nos para não perder a esperança.
Deus tenha piedade de nós e dê a este cavalheiro um Natal igual à maioria dos Portugueses. Que a árvore de Natal que tem em Belém em lugar de ser um pinheiro que seja um eucalipto. E, que este ao secar, como é norma dos eucaliptos, que seque quem se encontre à sua volta. Que os grupos das janeiras ensaiem trechos que lhe faça ver o que é ter esperança.
Que não sejam só palavras saídas da boca para fora como é timbre em Cavaco Silva. Elas têm de ser sentidas e para isso proponho-lhe que se disfarce e na véspera de Natal dê uma volta pelos bairros mais pobres de Lisboa para ter uma noção da realidade do País que dirige e transformou. Se depois de isso voltar a dizer que é preciso ter esperança, não tomar outras soluções, aconselho-o a uma consulta de psiquiatria ou que os grupos das "janeiras" lhe cantem este poema.

 "A morte do camponês"

Sentindo o camponês a morte já no peito
os filhos reuniu em volta do seu leito
e em tom grave lhes diz: Meus filhos vou morrer…
Os anos que vivi, vivi-os sem viver,
pois desde que nasci que outra coisa não faço
do que amanhar a terra e ao esforço do meu braço
qual a compensação?... se pela vida fora
só canseiras ganhei, as que vos deixo agora!

Sabeis o que é a vida? Eu sei que não sabeis…
Porque a vida não é isto que vós viveis.
Fiz de vós cavadores, honrados e leais,
também fui cavador e o foram já meus pais.
Vós que nunca saístes aqui da nossa terra
ignorais o que há p’ra além daquela serra!
Existe um mundo imenso onde vai lado a lado
o que é bom e o que é mau pois é de braço dado
que a luz e a escuridão, a vileza e a bondade,
o honrado e o ladrão, a mentira e a verdade,
e que muito produz e aquele que explora,
unidos como um só vão pela vida fora,
mas quem se verga e sofre a mais cruenta lida
é quem semeia o pão que é quem não vive a vida!

Mal desponta a manhã e já lá vai a gente
a terra revolver lançando-lhe semente,
sob o frio e o calor e com canseira tanta,
num desumano afã… quanta amargura, quanta?
E tudo para quê? Se não foge à pobreza
enquanto que o patrão multiplica a riqueza
pois quem nada produz é quem tudo amealha
e olha como um cão aquele que trabalha
e o pobre cavador sem reforma, sem nada…
Ou morre a trabalhar ao peso da enxada
ou quando mais não possa, irá, que triste sorte!
Esmolar de porta em porta e encontrará a morte
na valeta da estrada onde apodrece o pó!
e quem o explorou não tem remorso ou dó
porque já tem no peito a alma corrompida!
Isto é verdade meus filhos e isto não é vida.

Mas mesmo para além da Serra que ali está
p’ro pobre que trabalha a existência é má…
Muitos pedem trabalho e como não lhe o dão
têm que mendigar porque não tem pão!
De um homem para o outro a vida se contrasta,
a terra é p’ra uns mãe e p´ra outros madrasta!
Uns esbanjam na orgia o dinheiro à mão cheia
e outros que nada tem vão-se deitar sem ceia!
Enquanto um deita fora aquilo que não come,
outro que não tem pão agoniza de fome!
E a corrupção que grassa pelo mundo
faz desta vida bela um chavascal imundo!
Gente que mata até por ódio e por cobiça
e a força espezinhando a razão e a justiça!
Órfãos de pai e mãe chorando os seus pesares,
mulheres de pouca sorte enchendo os lupanares,
mães solteiras sem lar, velhinhos sem guarida…
Tudo isto existe sim, mas não é isto a vida!

O mundo é vasto e bom, fecundo e tem beleza,
a sua vastidão é a maior riqueza
e o pão que a terra dá dividido por todos
chegava a toda a gente e sobraria a rodos…
Porém esta riqueza está mal dividida
e a terra, bem comum, por uns quantos repartida
tem vastas vedações de muros e valados,
uns herdam quase o mundo, outros são deserdados,
são poucos que produzem e muitos os que comem
e a exploração do homem pela homem
gera a ira, a revolta e todo o mal da terra
por isso o mundo vive em permanente guerra!
Que belo não será este mundo que amamos
quando um dia afinal não existirem amos!
Assim se faz do homem a fera fratícida…
O mundo é isto sim, não é isto a vida!

Por vezes me quedei, quando nascia o Sol
e ia de enxada ao ombro em busca de trabalho,
a fitar encantado as pérolas de orvalho
que às pétalas oferece à tarde o arrebol,
a campina em flor tão linda a despertar,
a água no regato alegre a murmurar…
Num êxtase escutava a doce sinfonia
dum alado a saudar o dealbar do dia.
Corria p’los trigais prenhes de trigo loiro,
 como se o campo fosse um vasto manto de oiro
e à tarde ao regressar enfim a nossa casa
fitando o pôr-do-sol, como uma enorme brasa,
que aos poucos se apagava ao longe no poente,
eu de novo vivia, eu voltava a ser gente…
Sentia então em mim a revolta incontida
porque o nosso viver é tudo menos vida!

Porém o mundo é vosso e está na vossa mão,
uni-vos como um só e filhos tereis pão!
Encerrai as prisões e abri muitas escolas,
a luz também é pão e acabam-se as esmolas.
Aos amos esteriões dai-lhes feroz batalha,
que a terra sempre foi e é de quem a trabalha,
num mundo sem patrões não há exploração,
dividindo-se os bens acaba-se a ambição,
fazei um mundo igual e acabarão as guerras
e fecundem depois os campos e as serras,
porque o progresso está no ventre das campinas,
nas fábricas, nos mares, nos campos e nas minas…
Depois filhos vereis toda a beleza infinda!
Do pão, da liberdade e desta vida linda!
E a voz do camponês, já muito enfraquecida,
a morrer ainda diz… - Sim… Isto é que é a vida!

Dezembro de 1952
Poemas da madrugada
José Rosa Figueiredo   

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