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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O senhor Joaquim:


Caminhava cabisbaixo e com passo lento. Avistei-o ao longe e a minha estranheza foi satisfeita quando nos cruzamos. Então senhor Joaquim o que se passa consigo? Onde está a força anímica que sempre tinha para os outros! Sabe menino - Hernâni - respondi e já não sou nenhum menino nem saudades de o ser derivado ao mundo em que vivemos. Eu sei que se chama Hernâni - respondeu-me - quando a infelicidade nos bate à porta é que compreendemos como são vãs as palavras que pretendemos dar aos outros. Mas o que se passa para esse abatimento moral e físico! - Perguntei. O que acontece -continuou o senhor Joaquim - é que hoje não se pode confiar em ninguém. Há poucas pessoas íntegras. Olhe! Convivi com o senhor seu pai e ainda recordo os conselhos que me dava. Que o dinheiro não era tudo. E por vezes a abundância tudo estraga. Tornamos-nos egoístas e o egoísmo leva-nos aos disparates. Sábias palavras. Agora não podemos fazer previsões a longo prazo porque logo a seguir a conta sai-nos furada - não o interrompi - deixei-o falar porque sabia que era um bom comunicador e que precisava desabafar. A minha raiva - continuou - deve-se a que tudo o que me foi pedido pela Pátria e aqui sublinho “Pátria”, porque País, o significado é diferente, contribuí com tudo. Durante a segunda guerra mundial comi pão que o diabo amassou. Ia para escola descalço e cheio de fome e Salazar enviava géneros alimentícios para auxiliar outros povos e nós cheios de fome. Em casa dos meus pais o caldo era de saramagos. Não havia dinheiro para cultivar os campos e quintais por isso o recorrer a outros tubérculos bravios que cresciam com abundância. Esse caldo não tinha sabor porque não havia azeite e sal para o temperar. Tempos muito difíceis menino.  Senhor Joaquim trate-me por Hernâni, não é que me sinta ofendido, aliás, até lisonjeado, mas sabe esse tratamento é para quem é filho de pais ricos - disse-lhe eu - e os meus sabe a dificuldade porque passaram. Se não sei! - Voltou à conversa. Ainda me lembro da senhora sua mãe ser criada de servir numa casa abastada e quando ia para escola passava à beira dessa casa e a sua mãe dar-me um pedaço de broa. Que tempos! E olhe Hernâni que estamos a voltar a eles. E é isso que me indispõe. Trabalhei como um mouro para contribuir para a riqueza da minha querida Pátria. Dei o corpo ao manifesto para defender o que diziam que nos pertencia e agora o que nos faz esta cambada de imberbes. Parecem invertebrados. Não têm sabedoria nem moral para governar e cumprir com o que prometeram ao povo. Não estão lá com o meu contributo. Se assim fosse o meu abatimento físico e moral era ainda maior. Assim posso-lhes chamar ladrões com quantas letras têm a palavra. Roubarem-me na reforma, nos subsídios, encarecerem o nível de vida para pagar as asneiras que fizeram! E agora que estamos próximo do Natal nem dinheiro tenho para as batatas e bacalhau. Não falando nas guloseimas que se usam nesta época. Acho que fazem isto para não nos engasgar com as espinhas e assim não recorrermos às urgências dos hospitais - acrescentei eu. Quais urgências e hospitais - continuou o senhor Joaquim. Quem pode lá chegar! Já reparou que fica tão caro ali uma consulta como nos hospitais privados! Querem destruir o que custou muitos anos e esforço a construir. Não temos quem nos defenda. Até esta espécie de Presidente da República que temos não serve para nada. Promulgar um Orçamento de Estado que vai onerar mais os pobres! É de quem é desprovido de sentimentos. Nunca confiei neste gajo. E sabe Hernâni que sou bastante educado e não gosto de usar adjectivos. Mas este merece assim como quem nos governa. E não é só isso senhor Joaquim - interrompi - não é que denunciou o sogro na Pide por viver em segundas núpcias com outra mulher. De pessoas destas o que se pode esperar! - Sabe Hernâni foi bom cruzar consigo. Não sabe o bem que me fez esta conversa. Andava com fracas ideias mas a vida é um bem que nos deram e que devemos preservá-la. Mais a mais nesta época que comemoramos o nascimento. Por isso desejo-lhe um santo Natal e se não nos voltarmos a encontrar um melhor Ano Novo que o prevejo ainda pior que este que está a terminar. - Não tem de agradecer, aliás, quem agradece sou eu por este momento de sã comunicação. Não é todos os dias que nos cruzamos com tão eloquência. Um bom Natal para o senhor e se nesse dia não tiver com quem privar apareça lá por casa que é bem recebido e caso não o faça desde já um bom Ano Novo. - Olhe Hernâni, esse convite que me faz, lembra-me os bocados de broa que a senhora sua mãe que Deus tenha em bom lugar, me dava para matar a fome. É como diz o ditado. “Quem sai aos seus não degenera”.           

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