Caminhava cabisbaixo e com passo lento. Avistei-o ao longe e a minha
estranheza foi satisfeita quando nos cruzamos. Então senhor Joaquim o que se
passa consigo? Onde está a força anímica que sempre tinha para os outros! Sabe
menino - Hernâni - respondi e já não sou nenhum menino nem saudades de o ser
derivado ao mundo em que vivemos. Eu sei que se chama Hernâni - respondeu-me - quando
a infelicidade nos bate à porta é que compreendemos como são vãs as palavras
que pretendemos dar aos outros. Mas o que se passa para esse abatimento moral e
físico! - Perguntei. O que acontece -continuou o senhor Joaquim - é que hoje
não se pode confiar em ninguém. Há poucas pessoas íntegras. Olhe! Convivi com o
senhor seu pai e ainda recordo os conselhos que me dava. Que o dinheiro não era
tudo. E por vezes a abundância tudo estraga. Tornamos-nos egoístas e o egoísmo
leva-nos aos disparates. Sábias palavras. Agora não podemos fazer previsões a
longo prazo porque logo a seguir a conta sai-nos furada - não o interrompi -
deixei-o falar porque sabia que era um bom comunicador e que precisava desabafar.
A minha raiva - continuou - deve-se a que tudo o que me foi pedido pela Pátria
e aqui sublinho “Pátria”, porque País, o significado é diferente, contribuí com
tudo. Durante a segunda guerra mundial comi pão que o diabo amassou. Ia para
escola descalço e cheio de fome e Salazar enviava géneros alimentícios para
auxiliar outros povos e nós cheios de fome. Em casa dos meus pais o caldo era
de saramagos. Não havia dinheiro para cultivar os campos e quintais por isso o
recorrer a outros tubérculos bravios que cresciam com abundância. Esse caldo
não tinha sabor porque não havia azeite e sal para o temperar. Tempos muito
difíceis menino. Senhor Joaquim trate-me por Hernâni, não é que me sinta
ofendido, aliás, até lisonjeado, mas sabe esse tratamento é para quem é filho
de pais ricos - disse-lhe eu - e os meus sabe a dificuldade porque passaram. Se
não sei! - Voltou à conversa. Ainda me lembro da senhora sua mãe ser criada de
servir numa casa abastada e quando ia para escola passava à beira dessa casa e
a sua mãe dar-me um pedaço de broa. Que tempos! E olhe Hernâni que estamos a
voltar a eles. E é isso que me indispõe. Trabalhei como um mouro para
contribuir para a riqueza da minha querida Pátria. Dei o corpo ao manifesto
para defender o que diziam que nos pertencia e agora o que nos faz esta
cambada de imberbes. Parecem invertebrados. Não têm sabedoria nem moral para
governar e cumprir com o que prometeram ao povo. Não estão lá com o meu
contributo. Se assim fosse o meu abatimento físico e moral era ainda maior. Assim
posso-lhes chamar ladrões com quantas letras têm a palavra. Roubarem-me na
reforma, nos subsídios, encarecerem o nível de vida para pagar as asneiras que
fizeram! E agora que estamos próximo do Natal nem dinheiro tenho para as
batatas e bacalhau. Não falando nas guloseimas que se usam nesta época. Acho
que fazem isto para não nos engasgar com as espinhas e assim não recorrermos às urgências dos hospitais - acrescentei eu. Quais urgências e hospitais -
continuou o senhor Joaquim. Quem pode lá chegar! Já reparou que fica tão caro
ali uma consulta como nos hospitais privados! Querem destruir o que custou
muitos anos e esforço a construir. Não temos quem nos defenda. Até esta espécie
de Presidente da República que temos não serve para nada. Promulgar um
Orçamento de Estado que vai onerar mais os pobres! É de quem é desprovido de
sentimentos. Nunca confiei neste gajo. E sabe Hernâni que sou bastante educado
e não gosto de usar adjectivos. Mas este merece assim como quem nos governa. E
não é só isso senhor Joaquim - interrompi - não é que denunciou o sogro na
Pide por viver em segundas núpcias com outra mulher. De pessoas destas o que se
pode esperar! - Sabe Hernâni foi bom cruzar consigo. Não sabe o bem que me fez
esta conversa. Andava com fracas ideias mas a vida é um bem que nos deram e que
devemos preservá-la. Mais a mais nesta época que comemoramos o nascimento. Por
isso desejo-lhe um santo Natal e se não nos voltarmos a encontrar um melhor Ano
Novo que o prevejo ainda pior que este que está a terminar. - Não tem de
agradecer, aliás, quem agradece sou eu por este momento de sã comunicação. Não
é todos os dias que nos cruzamos com tão eloquência. Um bom Natal para o senhor
e se nesse dia não tiver com quem privar apareça lá por casa que é bem recebido
e caso não o faça desde já um bom Ano Novo. - Olhe Hernâni, esse convite que me
faz, lembra-me os bocados de broa que a senhora sua mãe que Deus tenha em bom
lugar, me dava para matar a fome. É como diz o ditado. “Quem sai aos seus não
degenera”.
Umas de maior importância que outras. Outrora assim acontecia. É por isso que gosto de as relatar para os mais novos saberem o que fizeram os seus antepassados. Conseguiram fazer de uma coutada, uma aldeia, depois uma vila e, hoje uma cidade, que em tempos primórdios se chamou Fredemundus. «(Frieden, Paz) (Munde, Protecção).» Mais tarde Freamunde. "Acarinhem-na. Ela vem dos pedregulhos e das lutas tribais, cansada do percurso e dos homens. Ela vem do tempo para vencer o Tempo."
Rádio Freamunde
https://radiofreamunde.pt/

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