Acossados pelo descontentamento na rua, alguns comentadores políticos
têm elaborado sobre a posição dos militares no momento actual. De um modo
geral, desagradam-lhes as posições das associações do sector - que vão passando
aos olhos de muitos por representantes de todos os militares e como rosto do
corporativismo militar, mesmo que algumas das suas afirmações sejam da mais
elementar justiça - consideram-nas uma pressão inadmissível por parte de quem
tem armas e são unânimes em considerar impossível um golpe de estado.
Lembrando que quem tem armas é a instituição e não as associações e que
os prejuízos efectivos para o País decorrem das medidas erradas de sucessivos
governos e de acções reivindicativas em sectores que nunca os militares,
lamento contrariar essas vozes autorizadas, mas fazer um golpe de Estado é
coisa tecnicamente fácil e exequível. Qualquer "exército" (Marinha,
Exército e Força Aérea) em qualquer parte do mundo o pode fazer, talvez com
excepção de algumas ditaduras que dispõem de fortes aparelhos repressivos
não-militares.
Aqui a questão não é a capacidade militar para tomar o poder, essa
existe hoje maior até do que em 1974. Temos quadros e soldados bem formados,
treinados, rotinados nas operações em ambiente urbano, coisa que não acontecia
no tempo da guerra em África. Não se iludam: para ocupar uma dúzia de
edifícios, proteger da ira popular um punhado de governantes e políticos e
deslocá-los por via aérea para um dos arquipélagos, o aparelho militar
português chega e sobra. Acresce que hoje não há polícia política nem milícia
armada para defesa do Governo. Não é preciso ser um génio da estratégia para
perceber que as três brigadas do Exército, ou nem tanto, ocupavam o poder em
poucas horas, tanto mais que o estado de espírito das forças de segurança seria
nessa altura semelhante ao da generalidade da população e dos militares. Bem
sei que isto vai chocar uns e fazer rir outros, mas é a realidade.
O click para um golpe não seria a insatisfação de alguns militares como
em 1974 - essa fase já foi ultrapassada sem drama nem tanques na rua, o
mal-estar nos quartéis é o mesmo que se verifica em outro qualquer lugar do
País. Só que hoje os militares, democratas que são na sua esmagadora maioria -
o que não acontecia em 1974 ou em 1926 -, continuam a fazer o seu trabalho como
qualquer outro cidadão e a seguir a hierarquia. Nem podia ser de outra forma.
Embora com mais obrigações, vivem as mesmas dificuldades que a generalidade dos
seus compatriotas. Também não há a probabilidade de haver por aí algum candidato
fardado a ditador - os militares nunca o seguiriam. Nem sequer será uma questão
da importância dos militares na vida pública, ou a falta dela; como qualquer
outro cidadão, querem apenas ter uma vida minimamente digna, o que para os
postos mais baixos e médios começa a ser um quebra-cabeças.
É muito mais simples mas perigoso: podemos chegar ao dia em que o povo
prescinde da alternância democrática e procura na rua saídas para a situação.
Todos concordamos que a solução deverá aparecer no quadro político vigente, e
não penso que esteja perto, mas para onde se poderia a população virar se a
situação social descambar?
O factor decisivo seria assim, a dois tempos e com igual importância, a
vontade popular e a dos militares. Se na primeira vertente as coisas podem
evoluir com uma rapidez imprevisível ou, pelo contrário, normalizar, a segunda
depende desta evolução e da liderança militar.
Decisivo, no passo seguinte, poderia ser a unidade dos militares, se
bem que em 1974, mesmo com muitas divergências e com a maioria a combater na
África, o golpe deu-se.
E o dia seguinte?
Este é o problema maior destas soluções radicais, como o é das soluções
miraculosas para a crise. Mas, em boa verdade, se a situação social se
degradasse a ponto de um golpe ver a luz do dia, não me parece que esta
incerteza o travasse.
MIGUEL SILVA MACHADO, TENENTE-CORONEL PARA-QUEDISTA (RESERVA)

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