Senhora Presidente, Senhor Primeiro Ministro, Senhoras e Senhores
Membros do Governo, Senhoras e Senhores Deputados:
Terminada a discussão do Orçamento de Estado para 2013, estamos em
condições de avaliar como evoluiu o país após quase um ano e meio desta
governação. Decorrido que está um terço da presente legislatura, a situação é
clara:
O desemprego cresceu muito acima do previsto pelo Governo. Os mais jovens e qualificados emigram a um ritmo sem paralelo nos últimos 50 anos. O crédito malparado das famílias e a insolvência de empresas aumenta todos os dias. A recessão económica não apenas se prolonga como se agrava.
O desemprego cresceu muito acima do previsto pelo Governo. Os mais jovens e qualificados emigram a um ritmo sem paralelo nos últimos 50 anos. O crédito malparado das famílias e a insolvência de empresas aumenta todos os dias. A recessão económica não apenas se prolonga como se agrava.
Da invenção colossal que foi o suposto desvio que se tentou
imputar à execução orçamental de 2011, passámos à cruel realidade de um
colossal e efetivo desvio na execução orçamental de 2012. Um desvio provocado,
em larga medida, exatamente pelas medidas recessivas que foram tomadas.
No défice, através da violência do esforço acrescido que foi
exigido, não só não está a ser cumprida a meta traçada como não houve
consolidação real das contas públicas. Na dívida, tanto a pública como as
privadas, não há desalavancagem na economia, porque em percentagem do PIB em
vez de diminuírem, aumentam e significativamente.
O resultado não podia ser mais preocupante e devastador. A
situação económica agrava-se. O desespero toma conta de muitas famílias. E
ouvir o Governo garantir aos portugueses que estamos muito melhor do que há um
ano atrás não pode ser motivo de regozijo. Só de extrema preocupação. É uma
afirmação mais típica de aprendizes de feiticeiro, que de estadistas.
Na verdade, os sucessos que têm sido apregoados no esforço
de ajustamento não passam de falsos êxitos.
Um exemplo:
O défice da balança comercial. Mas como é que se pode falar
em sucesso se as exportações embora melhorando quotas estão a evoluir menos bem
do que em anos anteriores? Se o que permite o equilíbrio é, na verdade, o
completo colapso das importações, em linha com o poder de compra das famílias,
que foi dizimado? Como é que se pode falar em sucesso, se as importações que
deixaram de se fazer incluem bens de equipamento, tecnologia, matérias-primas
essenciais para as empresas criarem valor na economia portuguesa? Que futuro,
que sustentabilidade tem este suposto equilíbrio comercial?
Outro exemplo:
O suposto e propagandeado grande êxito que seria o renovado
acesso aos mercados. Como é que se pode falar em sucesso quando aquilo que se
sabe hoje é que houve uma enorme conversão de dívida pública externa para
dívida interna, através dos bancos portugueses, alguns deles intervencionados.
Em suma, como é que se pode falar de sucessos quando estes
são apenas retórica falaciosa, propaganda e camuflagem. A única coisa que é
cada vez mais clara é que em vez de estarmos a avançar na direção pretendida,
em vez do ajustamento e consolidação que foram prometidas, estamos a ser
empurrados por esta maioria em direção ao abismo.
Senhora Presidente, Senhor Primeiro Ministro, Senhoras e
Senhores Membros do Governo, Senhoras e Senhores Deputados
A 5a avaliação da troika foi uma oportunidade perdida.
Beneficiámos das decisões europeias sobre maior intervenção
futura do BCE. Mas, mesmo com melhores perspetivas para os juros do
financiamento, a troika impôs a Portugal novas medidas de austeridade porque
estamos longe, de todas as metas, e o Governo português não tirou partido das
novas posições do FMI sobre os efeitos perversos da austeridade.
Na verdade, Senhoras e Senhores Deputados, quando se exigia
objetividade, frontalidade e verdade, o Governo ficou-se por um acordo de
falhados com a Troika. Um acordo fabricado com base em falsas premissas, falsos
êxitos e mistificação da nossa real situação.
E a nossa real situação já é clara para o país: um ano
depois de uma receita de troikismo radical, era altura de refletir e de mudar.
Mas em vez de admitir os fracassos, o Governo escolhe o caminho mais fácil:
para sobreviver politicamente, insiste num caminho que já provou ser
suicidário.
A desorientação do Governo numa altura tão crucial é da
maior gravidade. A preparação caótica do Orçamento que aqui foi apresentado é
disso prova.
Os avanços e constantes recuos. As contradições. As
incoerências. O desistir de governar de acordo com o programa que apresentaram
aos portugueses. A rutura de todos os consensos sociais e políticos, afrontando
os parceiros sociais.
A pantomima lamentável que foi todo o episódio da TSU.
Senhoras e Senhores deputados, um ano e meio depois, o que
temos é um governo dividido e sem credibilidade. Um governo que alienou os
consensos políticos e sociais. Que faz exatamente o contrário do que prometeu
fazer. Que falha previsões atrás de previsões, metas atrás de metas. Que
compromete não apenas os padrões mínimos de bem-estar social mas também a
própria economia. E que se prepara para fazer ainda pior: repetir uma receita
que já fracassou. E que portanto só pode fracassar ainda mais, com mais força,
com consequências mais graves.
O PS tem avisado: este Orçamento de Estado para 2013, se por
cegueira e teimosia for executado vai ter consequências terríveis durante
muitos anos. O Governo tem de ouvir os portugueses. Tem que ouvir os parceiros
sociais. Tem de arrepiar caminho, antes que seja tarde.
Senhora Presidente, Senhor Primeiro Ministro, Senhoras e Senhores Membros do Governo, Senhoras e Senhores Deputados
Já foi denunciado, por pessoas de todos os partidos incluindo muitas dos partidos que suportam a maioria, que este Orçamento é um verdadeiro bombardeamento fiscal às classes médias e aos trabalhadores já tão depauperados. O Governo anuncia também um novo ataque ao Estado social, diminuindo os mínimos sociais.
O governo não o diz, mas é uma nova fase, ainda mais
radical, da austeridade. É o fim de qualquer ilusão de “equidade nos
sacrifícios”, ou de ética na austeridade, que o Governo tanto apregoou. Quando
se atacam os mais pobres dos pobres é toda a miséria de uma politica que fica à
vista.
Enquanto se atacam as classes médias e os trabalhadores, com
tabelas de IRS mais onerosas, menos progressivas, e com protecção e mínimos
sociais cada vez mais exíguos, mantêm-se benefícios fiscais para grandes
interesses.
O resultado não é difícil de adivinhar.
Primeiro, que as consequências sociais deste Orçamento vão
ser ainda mais devastadoras que o anterior. Segundo, que a recessão vai ser
muito mais grave que as previsões do Governo. Não é só o PS que o diz, são
todas as instituições. Só o Governo quer negar esta realidade.
Mas há uma pergunta que se impõe: o que vai o Governo fazer
quando finalmente for forçado a reconhecer que o Orçamento para 2013 é afinal
um buraco negro para 2014? Quando for forçado pelos dados, pela realidade, que
se tornará inegável e incontornável, a reconhecer perante os portugueses que
falhou mais uma vez? A reconhecer que este orçamento afinal era inexequível e
impossível de cumprir, porque assentou desde o primeiro dia em pressupostos
falsos e em metas completamente irrealistas?
De facto este é um orçamento de negação e de desespero
político.
Senhoras e Senhores Deputados, além de uma razia fiscal e de
um vendaval de iniquidades, o documento que aqui nos foi apresentado é uma
caricatura tosca, ideológica e experimentalista.
Vem aí um novo conjunto de metas que são incumpríveis,
porque foram traçadas com base em pressupostos falsos, em cenários irreais e em
projeções fantasiosas. E isso já se começa a ver. O apelo a uma misteriosa
“refundação” do acordo com a troika anuncia o que aí vem. Depois de esgotada a
margem para os aumentos de impostos, anuncia-se uma tentativa de ataque final
às funções sociais do Estado. No fundo, recuperando aquilo que o PSD tentou
lançar numa célebre proposta de Revisão Constitucional que foi obrigado a
fechar numa gaveta, muito antes de qualquer troika. É essa a gaveta que agora
se abre de novo. O Governo quer sim refundar a unidade da direita, tentar pôr a
classe média contra o estado social, remeter á marginalização os sociais
democratas que ainda resistem.
E o Governo já mostrou ao que vem: quer arrastar o PS para
essa descida ao abismo. Mas já tiveram a resposta: o que é preciso é refundar a
política do Governo e reformular esta austeridade sem saída. O que é preciso é
tirar partido das posições mais flexíveis das instituições europeias e
internacionais, em vez de as rejeitar. O que é preciso é lutar por explorar as
margens de alteração de prazos, de juros, de metas. Com coragem, com
frontalidade, com verdade, em nome do interesse nacional. Em vez de aceitar
como uma fatalidade muito conveniente o caminho para que nos estão a empurrar.
Senhora Presidente, Senhor Primeiro Ministro, Senhoras e
Senhores Membros do Governo, Senhoras e Senhores Deputados
Os partidos da coligação do governo juram que nada têm a ver
com esta austeridade e com o acordo com a troika. E que a culpa é toda do
governo anterior. Pura ilusão, que talvez sirva de auto-convencimento mas que
cada vez engana menos portugueses.
A crise das dívidas soberanas como noutros países, foi
sobretudo ditada por uma crise financeira internacional e pelas insuficiências
do euro. O PS sempre o disse. Os partidos da atual maioria preferiram o caminho
que lhes pareceu mais fácil na altura, e hoje vêem, também por isso minada a
sua credibilidade. Porque os partidos que hoje suportam o governo fingem que
nada tiveram a ver com o resgate. Mas na verdade fomentaram, instigaram,
exigiram, co-negociaram, co-assinaram e muitos dos seus comemoraram o memorando
de entendimento.
Antes das eleições prometeram soluções fáceis e rápidas;
tinham as respostas. Depois foi o que se viu.
Foram de desastre em desastre até chegar a este momento de
absoluto desnorte.
Perante o caminho que tem sido seguido, a campanha da
coligação, tentando a todo o custo fugir da realidade, tem um só resultado:
alimentar a descrença crescente das pessoas nas instituições democráticas.
Para além de justas manifestações de protesto e indignação,
há uma ameaça populista através de alguns, na rua, na comunicação social, na
internet. É nestas circunstâncias que se vê quem são os verdadeiros democratas.
Não podemos neste parlamento permitir que se degradem ainda mais as condições
da vida democrática em Portugal.
Perante este Orçamento, é preciso que fique claro, pelo
trabalho aqui desenvolvido, pelos debates que aqui são travados, mas também
pelo voto, de que lado se situa cada um de nós. Este é um Orçamento que
violenta, ainda mais, o contrato em que os portugueses votaram; um Orçamento
irrealista, inexequível, incompetente; um Orçamento que ataca os fundamentos da
nossa sociedade e da nossa economia.
A democracia tem de ser defendida por todos os democratas. E
é nestes momentos decisivos que os democratas se afirmam e que o Parlamento se
prestigia. Em consciência, pela arma da democracia, o voto.
Senhora Presidente, Senhor Primeiro Ministro, Senhoras e
Senhores Membros do Governo, Senhoras e Senhores Deputados
No voto que se segue, sabemos (porque é claro e público) que
não apenas muitas figuras cimeiras dos partidos da coligação, mas também muitos
deputados sentados nas bancadas desta maioria discordam profundamente deste
Orçamento. Das opções que o norteiam. Das falsidades de que enferma. Do seu
irrealismo. Das suas consequências terríveis.
Quanto mais não seja porque este é um Orçamento que é contra
o programa desta maioria. Contra o que convenceu os portugueses a confiar
nestes partidos. Como é possível votar favoravelmente um Orçamento que é
contrário ao programa dos partidos que o suportam?
Na bancada do PS, o nosso programa é claro e o nosso voto
também é claro. Vamos votar de acordo com o nosso programa. Com uma posição
firme nas questões europeias e com uma visão clara do que deveria ser feito de
diferente nas políticas internas.
Dar luz verde a este Orçamento de Estado é gravíssimo. Temos
todos, de ser dignos do mandato que recebemos dos portugueses.
Segue-se o debate na especialidade. Mas desenganem-se
aqueles que pensam que este Orçamento é transformável na especialidade. Este
Orçamento é irreformável.
Tem, todo ele, na base e nas opções principais, a marca de
um troikismo radical, alheado da realidade e sem qualquer capacidade de
auto-crítica.
O que é preciso é combater ainda maiores desvarios nas
políticas sociais e fiscais. Combater as tentativas que aí vêm de impor mais
cortes sociais. Com o pretexto de compromissos assumidos com a troika por este
governo. O que é preciso é trabalhar em alternativas que substituam a matriz espoliadora
deste orçamento por uma matriz de equilíbrio, de credibilidade, de adesão à
realidade.
O PS apresentou propostas alternativas. Ainda ontem, através
do Secretário-Geral António José Seguro, que até agora, a maioria
governamental, com uma arrogância crescente, se tem recusado a ouvir.
Como o Secretário-Geral do PS tem incansavelmente repetido o
que é preciso é criar as condições em Portugal e na União Europeia para
voltarmos ao crescimento e à criação de emprego.
Mas para que as boas propostas possam fazer o seu caminho
tem de haver uma discussão num quadro diferente. Porque por mais medidas que
apresentemos, por mais alternativas que discutamos, este é um Orçamento cuja
credibilidade está ferida de morte por aqueles que escolheram concebê-lo desta maneira,
com estes pressupostos, com estas metas; e assim o apresentaram aos
portugueses. Vale a pena discutir no quadro constitucional tudo o que possa
melhorar o futuro do País. Mas com base em confiança politica, crescimento
económico e equidade social que hoje infelizmente não existem.
É por isso que, em nome do futuro do país e pela
credibilidade da democracia portuguesa, o PS votará, em consciência, contra
este Orçamento.
Contra o definhamento da democracia que tem de ser travado.
A favor dos superiores interesses de Portugal e dos portugueses.
31 Out. 2012

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