Ao ler a carta aberta que o Movimento Sem Emprego - que a seguir publico -, enviou a Isabel Jonet, não posso deixar passar em claro, «fazer um intróito» às referências a ela
atribuídas, das quais concordo, porque é fácil falar da fome com a barriga cheia.
Se não fosse assim, sentia um vazio muito grande no estômago e, não falava durante
seis minutos e vinte e dois segundos, tempo de duração do vídeo, porque essa mesma fome não o consentia.
Acusa os pais de não saberem educar os filhos para que não vivam acima das suas
possibilidades. Acha que quem neste momento está a passar fome alguma vez viveu
acima das suas possibilidades, salvo um caso ou outro? De certeza, mas mesmo de
certeza, alguma vez teve de se pôr a pé às sete e meia da manhã, ir descalço, ao sol ou à chuva, coberto num saco de serapilheira, os guardas-chuva eram artigos de luxo, a pé cerca
de um quilómetro para tomar o pequeno-almoço na Cantina Escolar que consistia
numa malga de leite em pó; - as vacas portuguesas só produziam leite para
os ricos, os que nunca viveram acima das suas possibilidades - um pão com queijo
amarelo vindo das terras do tio Sam; voltar para casa para ao meio-dia voltar lá para comer a sopa dos pobres porque só tinha aula da
parte da tarde!
Se teve estes infortúnios não falava da forma como fala. Sentia vergonha e escondia o seu passado como muitos o fazem. Mas, nessa altura não era só a minha família! Eram milhares delas. Mesmo assim tínhamos alguma sorte porque a minha mãe foi criada de servir de uma família abastada e de vez em quando ia buscar as sobras aos seus ex-patrões como refere António Lobo Antunes. Não refiro isto em tom depreciativo. Não sou pessoa de cuspir no prato em que comi. A minha mãe aos dez anos foi para ali servir e saiu dali para se casar. Além de serem patrões foram seus segundos pais.
Se teve estes infortúnios não falava da forma como fala. Sentia vergonha e escondia o seu passado como muitos o fazem. Mas, nessa altura não era só a minha família! Eram milhares delas. Mesmo assim tínhamos alguma sorte porque a minha mãe foi criada de servir de uma família abastada e de vez em quando ia buscar as sobras aos seus ex-patrões como refere António Lobo Antunes. Não refiro isto em tom depreciativo. Não sou pessoa de cuspir no prato em que comi. A minha mãe aos dez anos foi para ali servir e saiu dali para se casar. Além de serem patrões foram seus segundos pais.
Qual o pai que tenha passado por estas dificuldades gostaria de
ver os seus filhos irem pelo mesmo caminho? A não ser por puro sadismo.
Fiz mal? Fiz bem? Só os meus filhos me podem culpar. Não reconheço autoridade moral e cívica à senhora para me censurar. Já me bastaram os vinte e seis anos do Deus, Pátria e Família.
Fiz mal? Fiz bem? Só os meus filhos me podem culpar. Não reconheço autoridade moral e cívica à senhora para me censurar. Já me bastaram os vinte e seis anos do Deus, Pátria e Família.
CARTA ABERTA
“Uma canja para a Jonet,
Caríssima Isabel Jonet, gostaríamos de lhe dizer frontalmente, com o
mínimo de mediações, que o nível das suas declarações é aviltante, sobretudo
para aqueles com quem se diz preocupar e em nome dos quais desfruta o brunch da
beneficência.
Queremos dizer-lhe, antes de lhe devolver cada um dos insultos para
citar nas vernissages, que o movimento que lhe escreve luta sobretudo para que
ninguém se habitue ao empobrecimento. O nosso combate, todos os dias, é pelo
pleno emprego e pela justa distribuição do trabalho, única via que identificamos
para não ter que contar com o seu negócio a cada vez que falta capital ao mês.
Fala-lhe um grupo de pessoas, jovens e menos jovens, desempregados, precários,
sub-empregados, gente que se empenha quotidianamente para derrotar quem, como a
senhora e a Merkel, insiste em mascarar de caridade o saque que estão a fazer
às nossas vidas.
Sabemos que preside à Federação Europeia dos Bancos Alimentares Contra
a Fome, posição que ocupa desde Maio de 2012, e que a sua influência aumenta na
proporção da miséria nos vai impondo. Sabemos que é rica e privilegiada e nunca
falou da fome com a boca vazia. Sabemos que sabe que não falta miséria para
alimentar de matéria-prima a sua fábrica. Sabemos que olha para os pobres com
desdenho, nojo, pena. Sabemos que na hora de fazer a contabilidade aquilo que a
move é a sua canja, o seu ceviche, não o caldo dos outros.
Afirma que vamos ter que "reaprender a viver mais pobres",
quando a senhora só sabe o que é viver mais rica, que "vivíamos muito
acima nas nossas possibilidades" quando é sua excelência que tem vivido às
nossas custas, que "há necessidade permanente de consumo, de necessidade
permanente de bens para a satisfação das pessoas" quando em nenhum momento
da sua vida a falta de verba lhe deu tempo para ganhar água na boca. Atira-nos
à cara, com a lata da Chanceler, que os seus filhos "lavam os dentes com a
torneira a correr" e que se nós "não temos dinheiro para comer bifes
todos os dias, não podemos comer bifes todos os dias", quando cada vez
mais o problema das pessoas é ter casa onde os filhos possam lavar os dentes e
onde os bifes nunca ganharam a tradição dos que são fritos no conforto das
Arcádias. Em tempos sombrios, poucos provaram o lombinho do seu talho
predilecto, aquele que sempre visita com generosidade, antes dos fins-de-semana
que costuma fazer com requinte, no crepúsculo alentejano.
Deixe-nos explicar que enquanto pensava que à sua volta "estava
tudo garantido, alguém havia de pagar", éramos nós, os nossos pais e avós,
que lhe aviavam a mesada. Perceba que a cada momento em que delira com a
cegueira de que "cá em Portugal podemos estar mais pobres, mas não há
miséria", abastece-se à confiança do nosso fiado e das nossas dores de
barriga. Entenda, que o tamanho dos seus disparates não abafa os murmúrios da
pobreza e a miséria. Deixe-nos dizer que um milhão e meio de desempregados, com
a fome e a subnutrição visível das urgências dos hospitais às cantinas das
escolas públicas, a cólera já sobra às páginas dos jornais do dia. Deixe-nos
dizer-lhe que o tempo não é de substituir o "Estado Social" pelo
"Estado de Caridade", mas de pelo menos ter tanto cuidado com os pobres
como com aquilo que se diz.
Pode caluniar os nossos pais, que nem o histerismo fútil com que os
brinda não a torna capaz de encontrar exemplo de quem troque a bucha pela ida
ao Super-Rock. Pode gritar, sem sequer dar ao luxo do fôlego, que eles
"não souberam educar os filhos", que a cada desabafo nos permite
desvendar um pouco mais o véu das suas intenções, da origem do seu soldo.
O seu mundo, caríssimo Jonet, é um decalque da propaganda do Governo,
um corpo torpe atirado à máfia de capatazes e dos carcereiros, aqueles que lhes
têm ajudado a arranjar mais e mais margem de lucro no plano financeiro da sua
pérfida empresa.
O mundo de Jonet é o mundo da classe dominante, do privilégio, da
riqueza, do poder desmesurado, dos estereótipos que ajudam a lavar o sangue que
lhe escorre das unhas. No mundo de Jonet, as PPPs, os submarinos, a exploração,
o assalto dos governantes, são propaganda subversiva ao serviço de gente
acomodada, inútil, descartável. No mundo de Jonet "não existe
miséria" como "em Portugal", não é assim? Em suma, no mundo de
Jonet não se vive o que é preciso para se ganhar um pingo de vergonha.
Se estiver disponível, teríamos todo o gosto em entregar-lhe esta carta
em mãos.
Sem cordialidade mas com muito mais educação,
Seus detractores,
O Movimento Sem Emprego.”
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