sábado, 24 de novembro de 2012

Assim fosse Cavaco Silva:


Sempre tive um fraco por anedotas e por quem as sabe contar. Ainda me lembro na fábrica Albino de Matos Pereira & Barros (Fábrica Grande) o senhor António Rego, colchoeiro e costureiro, na secção de colchoaria e de estofos, nos contar certas anedotas. Nessa altura entre vários empregados naquela secção, trabalhava como aprendizes (moços), eu, Joaquim Marques (Quim Lucas) e Teotónio (Mirra). Vezes sem conta tínhamos de ir para a secção de colchoaria ripar folhelho ou sumaúma para a elaboração de colchões para camas de dormir. 
Este trabalho era aborrecido porque o folhelho de já ser velho deitava um cheiro nauseabundo, a sumaúma um pó e partículas que se entranhavam nos nossos olhos o que nos obrigava a estar constantemente a esfregá-los o que nos provocava noites sem dormir. Mesmo com estes contratempos gostávamos de para ali ir. O senhor António Rego era um exímio contador de histórias e anedotas. Recordo algumas:
Um dia três amigos encontraram um lobo morto há vários dias mas ainda em bom estado de conservação, resolveram fazer uma quadra cada um, a melhor obrigava os outros dois a pagar a confecção do repasto do lobo. Para isso precisavam de um júri. Eis que se junta a eles o Bocage. Depois de ditas as formalidades ao Bocage cada um foi dizendo a sua frase.
O primeiro concorrente disse:  
Este lobo / enquanto vivo / tudo crú comeu / e nada cozido. Diz o Bocage: muito bem!
O segundo concorrente:
Este lobo / à sua sesta / nunca dormiu / tanta como esta. Voltou a dizer o Bocage: muito bem!
O terceiro:
Este lobo / enquanto pelo mundo andou / tudo comeu / e nada pagou. O Bocage reafirmou: muito bem! Mas que estava num dilema. Todas as quadras estavam bem construídas e verdadeiras pelo que lhe era difícil escolher um vencedor. O melhor seria entre os três pagarem o repasto e ele ser convidado.
Estas histórias levavam a nós três a ter ainda mais consideração pelo senhor António Rego. Pedíamos para contar outras e ele acedia ao nosso pedido. De estar saturado de tantas histórias que nos contava lá vinha a última: 
Um pastor tinha um rebanho. Logo que começava com esta nós os três dizíamos: - oh não! Mas ele continuava... - e para o alimentar tinha de passar por uma ponte em que só passava uma ovelha de cada vez para o prado. Como o rebanho era constituído por quinhentas ovelhas e a ponte tinha um comprimento de mil metros. Chegado aqui parava de contar a história. Nós se lhe disséssemos para continuar já sabíamos a resposta: - deixai passar todas as ovelhas para eu acabar a anedota. O que demorava uma eternidade. Era uma forma subtil de dizer por hoje já basta e o que é de mais é como o que não chega. 

Assim tivesse Cavaco Silva o dom de contar histórias ou anedotas. Mas não nasceu para isso e quase que podemos dizer para nada, ou seja, só para favorecer os seus amigos. 
Conheci algarvios bons contadores de anedotas. Havia um que várias vezes vinha à minha terra, trabalhava no Instituto Nacional de Estatística (INE), era um regalo ouvi-lo. Tinha um grande reportório anedótico. 
Passávamos horas e horas da noite, à porta do Café Malheiro, era ali que estava hospedado, com muita atenção às várias anedotas que contava. Em quase tudo se parecia com o senhor António Rego. Nas pausas, nas exclamações e nos enredos. 
Só que ao findar não vinha com um rebanho de ovelhas a passar aquela ponte de mil metros: era um até amanhã.
Assim fosse Cavaco Silva.  

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