"O País não voltará a ser o mesmo. Mas precisa de reagrupar esforços,
recuperar propósito, dialogar. A reconstrução tem de começar no local da
destruição: no Governo. A crise política não está resolvida. E o
primeiro-ministro ou remodela ou será remodelado.
A questão política é simples: o Governo tem de aguentar-se e nós temos
de aguentar o Governo. Foi para isso que foi eleito e sem equívocos, com papel
da troika passado. O PSD tem de governar, o PP coligar, o PS fazer oposição,
todos com esmero. Não é um desejo, é a sua obrigação. Mas o Governo parece
bloqueado, entre a inércia da máquina do Estado, a descoordenação política e a
desmobilização de um primeiro-ministro que se tornou ele mesmo no problema.
Não é possível recuperar a estabilidade social e política anterior a 7
de Setembro, mas é possível reatar pontos de contacto. A primeira coisa a fazer
é esquecer a medida da TSU. Tal como ela foi apresentada, ela está morta e as
três intervenções feitas na última semana (Moedas, Passos e Borges) mostram ressentimento
e mau perder. É possível mexer na TSU - há anos que há políticas activas de
criação de emprego com descontos da TSU, por exemplo - sem lançar uma luta de
classes.
A segunda coisa a fazer é largar Passos Coelho num templo budista para
que ele reencontre a humildade de outros tempos. O primeiro-ministro fechou-se
numa torre de marfim, vitimiza-se na sua incompreensão, só ouve quem quer e não
ouve quem critica. É um perigo habitual, o dos yes-men, os homens-sim. E Passos
cismou. Cismou tanto que já não se percebe: Passos rodeou-se de homens-sim ou é
ele próprio o homem-sim dos que o rodeiam?
A terceira necessidade é de coordenação política. O Governo falha
quando não se relaciona internamente, quando deixa que outros falem por si (e
contra si), quando expõe o primeiro-ministro a recuos humilhantes.
O fim da linha é uma remodelação.
Mas uma remodelação feita a pensar na gestão interna, não a pensar no
equilíbrio entre o PSD e o PP, no equilíbrio entre barões do PSD, nem na imagem
externa. A imagem externa vai ser medida por uma singeleza: se Miguel Relvas fica
ou sai. Mas internamente, é preciso liderança e coordenação que têm falhado.
Não pode haver um "lá dentro" e um "cá fora". É a partir de
uma equipa forte e coesa que se faz política.
É revelador que tenha de ser uma secretária de Estado do Tesouro, um
lugar de tecnocrata, a falar de esperança. "Precisamos de esperança",
afirmou ontem Maria Luís Albuquerque. "Vai ser difícil, não vamos poder
voltar ao Portugal [de antes] mas, no final deste duro caminho, teremos lançado
bases sólidas para a prosperidade futura de Portugal." Devia ser o primeiro-ministro
a dizer isto, demonstrando porquê e assumindo erros em vez de culpar o País. O
que ameaça hoje o futuro do País não é a mobilização de desempregados é a
desmobilização de empregados. Por causa dos impostos, das injustiças, da falta
de crença. O mais terrível comentário às declarações de António Borges foi
a de Fortunato Frederico, o maior dos empresários do calçado, a quem o País
deve elogio: "Apetece desistir".
É agonizante. Se as forças vivas começam a desistir não há futuro. É
por isso que é preciso política. Para saber o quê e o porquê das nossas
misérias. Para resistir. Para lutar.
Para lutar é preciso justiça e equidade nos esforços. Não há. É preciso
que o corte na despesa do Estado seja mais do que salários e pensões. Com a
notável e dolorosa excepção da saúde, não é. É preciso desempregar clientelas
partidárias e políticas. Não se faz. É preciso palavra e consistência política.
Desapareceram.
O Governo sofre da paralisia política e orgânica. Uma remodelação pode
não resolver nada, mas é melhor lancetar o que apodrece. Este bloqueio inerte
sitiou o Governo numa contagem decrescente penosa para o Orçamento do Estado. E
ou há governo a sério ou ele cairá. Não pode. Não deve. Não é aceitável.
O ministro mais fragilizado não é o das Finanças, o da Economia, o dos Assuntos Parlamentares nem a da Agricultura. É o primeiro-ministro. Alguém tem de ter coragem para lhe dizer. E ele tem de ter coragem para ouvir, limpar a garganta, cerrar os punhos e dar o exemplo ao País: lutar."
O ministro mais fragilizado não é o das Finanças, o da Economia, o dos Assuntos Parlamentares nem a da Agricultura. É o primeiro-ministro. Alguém tem de ter coragem para lhe dizer. E ele tem de ter coragem para ouvir, limpar a garganta, cerrar os punhos e dar o exemplo ao País: lutar."
01 Outubro 2012 - 23:30

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