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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O céu deles, o nosso inferno.


Quem anda pela Internet à procura de notícias encontra de tudo. Mesmo assim são mais as que uma pessoa aprende algo do que as de péssima escrita. Até porque hoje quem ali escreve, quer em blogues ou artigos, a maioria são jornalistas que nos jornais não podem ter um sentido de escrita mais lato, aproveitam esta maravilha que é a Internet, para fazer jus ao que lhe vai na alma. Depois aparecem textos que nos enchem de coragem porque ainda existem homens que dizem verdades contando histórias e dão-nos uma certa esperança de não nos encontrarmos sozinhos. Foi o que aconteceu hoje comigo ao ler o blogue Cinco Dias e tomei a ousadia de publicar no meu.
"Primeiro despediram-no. Depois expulsaram-no de casa. É que nos bolsos vazios já não havia dinheiro para patrocinar os juros do empréstimo bancário. Entre as caixas de cartão e os plásticos, debateu-se até ao fim para agarrar as últimas sobras de dignidade. Não se sabe para onde foi ou mesmo se se suicidou. O que se sabe é que ela nunca mais o viu. Parecia-lhe impossível que aquele homem de gestos educados fosse obrigado a viver naquela pocilga urbana. Para ela, que para alimentar os dois filhos fora obrigada a prostituir-se, aquilo não era nada. Antes, sim.
Meses depois da morte do marido num acidente de trabalho na construção de um prédio para os lados de Oeiras viu-se sem emprego e sem recursos. O emprego era ilegal e ele não foi notícia nos jornais. Mas ela foi. Anos mais tarde, saiu numa coluna do Correio da Manhã esventrada numa valeta. Um dos filhos dedicou-se ao tráfico de drogas. Não sobreviveu e alguns dos clientes também não. Mas alguém na Quinta da Marinha ficou ainda mais rico. Já o irmão alistou-se nas forças armadas e acabou a combater no Iraque. Voltou à pátria num caixão de madeira.
No país em que o desemprego e a emigração é uma oportunidade tudo pode acontecer. Portanto, isto não é um relato verídico. Mas também não é fictício. Em Portugal, a única ficção é a que vivem os fantoches da troika. A tragédia social em que vivemos também existe para que as velhas de Cascais possam discutir nos salões de chá para quantas obras de beneficência contribuem. É assim que se compram as passagens para o céu dos ricos. Para nós, sobra o inferno. Mas no dia em que se decidir deixarmos de ser nós a pôr os mortos a verdade falará. E na Terra, o inferno será deles."
Bruno Carvalho 
Blogue Cinco Dias

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