VIRIATO SOROMENHO MARQUES
O primeiro-ministro (PM) no mais recente debate parlamentar afirmou:
"Eu pertenço a uma raça de homens que honra os compromissos do país."
E continuou num registo onde se identificava a conduta do indivíduo singular
com a acção do governante. O que o PM não parece compreender é que as dívidas
de um Estado não são as dívidas de uma família ao merceeiro da rua. O lema de
conduta do estadista é o "salus populi" (o bem público). A
responsabilidade do PM é para com o povo português. Para com a sua segurança e
liberdade. A honra do homem e a prudência do estadista não se contradizem
necessariamente, mas também não se confundem. Quando o rei de Leão, Afonso VII,
cercou Guimarães para quebrar a vontade independentista do jovem Afonso
Henriques, foi a palavra de honra do seu aio, Egas Moniz, que fez levantar o
cerco. Contudo, o fundador do reino de Portugal seguiu o seu rumo. Mudou a
capital para Coimbra e invadiu a Galiza. A honra de Egas Moniz foi salva com a
coragem moral e física que o levou a Toledo, colocando a sua vida e a da sua
família nas mãos do rei a quem tinha prometido o impossível. Afonso VII perdoou
ao homem, comovido pela sua dignidade, e foi obrigado a reconhecer a grandeza
do seu primo, o nosso primeiro rei. Invocar a honra para justificar uma austeridade
suicidária, em vez de arriscar uma estratégia que permita, em diálogo firme com
os nossos aliados e adversários na Zona Euro e na troika, um novo caminho
nacional e europeu que salve a esperança, é o erro imperdoável do PM. Se
tivesse a grandeza do estadista, teria o país a apoiá-lo, nos sacrifícios
internos e na coragem externa. Assim, sem a grandeza do rei, nem a honra do
aio, o PM corre o risco de se confundir com a teimosia servil que, na Idade
Média, era o atributo dos lacaios. «DN»

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