
E de que maneira! Ainda recordo e, para matar saudades vou de vez em
quando ao baú das minhas recordações, reler cartas, aerogramas, um ou outro
jornal antigo, ver os álbuns de fotografias que ali guardo, com várias, a
perder o preto e branco - coloridas eram caras - dando um aspecto de arruçadas.
Que prazer! Ali está parte da minha vida.
Para se escrever uma carta ou aerograma os rascunhos que se deitavam
fora porque não estavam como pretendíamos. Geralmente eram enviadas para
pessoas que estimávamos muito: pais, esposa, namorada, amigos, ou uma madrinha
de guerra, que nos ajudavam a passar o tempo, nesse tempo, difícil e longínquo
que eram as ex-províncias ultramarinas.
O quanto nos aprimorávamos para ir tirar um “retrato”. Vestíamos a
melhor indumentária e não podia faltar a gravata porque fotografia sem gravata
não era fotografia. Havia fotógrafos que tinham uma de reserva para os
incautos. Passado dias íamos levantá-las e, com carinho, com os dedos da mão
bem limpos, lá a tirávamos da carteirinha. Parecíamos que estávamos a lidar com
bebés tal o cuidado que usávamos.
Hoje tudo é fácil. Não faltam máquinas fotográficas com cartão ou disco
que elabora toda a fotografia. Até os telemóveis estão preparados para essa
finalidade. Depois é só enviá-la para o computador e, com papel próprio
trata-se logo dela. Não são precisos químicos e estúdio escuro para a revelar.
As cartas e selos estão em decadência. Só se enviam as comerciais. As
mensagens e emails ocupam esse lugar. Até nos carteiros se perdeu a amabilidade
de como se anunciava e entregavam as cartas.
Ainda recordo os carteiros de Freamunde - Maximino “Cebola” e Gomes “de
Carvalhosa” - em cima das suas bicicletas a pedal e com a buzina a anunciar a sua
chegada. As raparigas vinham a toda a pressa perguntar se havia carta para ela.
Esta pressa devia-se à ansiedade de carta do namorado. Se sim, ficavam
radiantes mesmo antes de saber qual o conteúdo da escrita. Se não, era tal a
frustração que o dia ficava logo ali estragado. Eram os ciúmes a funcionar.
Na era da tecnologia está-se a um toque de telemóvel ou de uma pesquisa
no facebook. Tudo é fácil! Não se dá o devido valor que se dava a uma carta ou
aerograma. O valor da caligrafia e como era desenhada! O cheiro a papel e o
perfume que alguma namorada lhe acrescentava para cair na admiração do seu
príncipe encantado! O carinho com que se guardavam no porta jóias ou a avidez
com que se rasgavam em caso de zanga!
Sabe bem recordar as cartas, os aerogramas e os carteiros com as suas
bicicletas a pedal tocando na sua buzina. Tudo isto está tão distante.
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