Rádio Freamunde

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domingo, 23 de setembro de 2012

Eles comem tudo:

Nunca nos tinha calhado em sorte tal governo e Presidente da República. Um Primeiro-ministro tão mentiroso, um ministro das Finanças tão lento, quer na forma como comunica, quer na de raciocinar. Não têm sensibilidade para ver que estão a matar os portugueses aos poucos. Os portugueses contestam-os na rua com grandes manifestações mas, mesmo assim, não se apercebem do aviso que lhes está a ser feito.
Alguns Conselheiros de Estado mais preocupados com o seu bem-estar e sem decoro algum para quem está horas e horas a manifestar-se por decisões para as suas vidas e vê-os sair da reunião do conselho de estado a rir a bom rir uns com os outros. Querem que nos calemos e que nos aconteça como o dono do porco quer que aconteça ao porco. Mas se julgam isso estão enganados. O povo não lhes vai dar esse prazer.
QUEIXUMES DO PORCO

(Versão da ilha da Madeira)

Fui chamado à cidade
No mês do Natal um dia,
Para eu feitorizar
Grande casa morgadia:
E levei, p'ra meu negócio,
Uma cabra, sua cria,
Um porco e um carneiro,
Comigo de companhia.

Vai o porco vagaroso,
Arrastado bem par'cia;
Todos os mais vão calados,
Só o porco se carpia;
Os gemidos que ele dava
A cabra não os sofria:

– Cal'-te porco. Porque choras?
(A cabra ao porco dizia)
Vês o carneiro calado,
Eu calada também ia;
O filho que vai comigo
Nem de mamar me pedia.
Pára tu já de grunhir,
Que ninguém te sofreria
Por tão longa caminhada
Tão seguida gritaria.

O porco, sem se calar,
Estas razões respondia:

– Cada qual conta da festa
Como na festa lhe iria.
Vocês vão viver no pasto
Com farta comedoria,
O carneiro, p’ra dar lã,
E tu, leite cada dia:
Mas cá eu, só dou toicinhos,
Só minhas carnes daria;
Tenho meus dias contados,
Só me espera a agonia.

Tinha o porco razão.
Quem também não chiaria?
Pela festa do Natal
O triste porco morria.


(Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Português.)

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