Miguel Sousa Tavares,
[hoje no Expresso]:
‘(…) Olhem o que isso deu com Passos Coelho: ganhou as eleições
agitando uma paleolítica cartilha liberal que lhe inocularam na cabeça alguns
gurus da economia financeira e, segundo a qual, bastava desmantelar o Estado, privatizar
tudo e libertar os recursos da sociedade civil para os pôr ao serviço da
economia... (…) E, ao menos, em troca desta insanidade irresponsável,
conseguiram melhorar as contas públicas? Não, nem isso. Nesta semana histórica,
em que vimos um ministro das Finanças entregue ao desnorte a que a sua
incompetência o conduziu e ao país, o mais extraordinário de tudo foi ouvi-lo
confessar, em reunião fechada com a maioria que o apoia, que, depois da TSU,
ainda é preciso mais outro grandioso assalto fiscal porque, mais uma vez, o
“sucesso” do processo de ajustamento também aqui produziu um dano colateral:
outro “colossal” desvio no défice previsto para este ano, que, afinal, não será
nem de 4,5%, nem de 5%, mas sim de 6,6%, “pelo menos”. (…)
Para a história ficará também o em que Vítor Gaspar apelou aos
“movimentos cívicos” e à opinião pública para forçarem a EDP, ou a Galp, ou a
PT, a descerem os seus preços de monopólio, pois que ele, por si só, não se
atreve a tal. Há liberais e liberais — a nós calhou-nos uma espécie até hoje
desconhecida e que se tem revelado a pior de todas: liberais fanáticos por
impostos, que privatizam monopólios de serviços essenciais e que deixam para a
opinião pública a tarefa de promover a concorrência.
Para a história têm de ficar também, para memória futura, alguns
momentos menores desta semana, mas que revelam a natureza deste poder. Como o
oráculo que passava por baixo da emissão da SIC-Notícias, transmitindo a
conferência de imprensa do ministro das Finanças, e que nos dava conta de que
“Prossegue a viagem do ministro Miguel Relvas ao Rio de Janeiro”. Pois que,
enquanto o seu primeiro-ministro se suicidava à vista do país e o ministro de
Estado e dos Estrangeiros prosseguia a sua infatigável diplomacia económica em
S. Paulo e Brasília, o ministro Relvas, o “cérebro político” do Go-verno,
prosseguia a sua viagem de oito dias ao Rio, que depois achou por bem disfarçar
igualmente de diplomacia económica paralela — actividade a que também se
dedica, no Brasil e em Angola. Ou o momento em que o ministro da Defesa
confundiu um acto público com uma actividade partidária, e resolveu explicar o
desfalque de 7% nos salários de todos os trabalhadores, desancando em José
Sócrates à frente de militares e tudo. Ou o momento em que o militante do PSD
Nogueira Leite (por essa via feito administrador da CGD), desabafou no Facebook
que, se o governo do seu partido lhe subisse mais os impostos, jurava por sua
honra “pirar-se daqui” (acontecimento ainda não confirmado até ao fecho desta
edição).
(…)
Quanto a Sua Excelência, que outrora, por um décimo disto, apelava à
revolta popular contra o governo eleito que ele próprio empossara, suponho que
o melhor agora seja seguir o conselho do professor Marcelo: tudo fazer
discretamente. (…) Os nossos insubstituíveis constitucionalistas saberão melhor
do que eu se existe alguma escapatória constitucional que autorize a demissão
de um governo por manifesta loucura superveniente de alguns dos seus membros
determinantes. Mesmo que Coimbra não concorde com Lisboa e Lisboa discorde do
Porto, mesmo que Bacelar diga que não, Miranda diga que sim e Canotilho diga
que talvez, sempre será uma hipótese a considerar. As outras são piores.’

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