Quando se cria qualquer evento deve-se pensar nos prós e contras. Não é
preparar tudo e não pensar nas causas. O povo anda faminto e por qualquer
promoção não pensa no seu semelhante. “Quando a barriga tem fome a cabeça não
pensa”. Aliás, é como ver um qualquer náufrago deitar mão ao que lhe aparece.
Se lhe aparecesse à frente lanças com dois gumes era a elas que ele se agarrava
mesmo sabendo que se ia cortar. É como diz o provérbio: “enquanto o pau vai e
vem folgam as costas”.
Ouço os comentadores da nossa praça, cada um, com sua opinião. Uns
dizem que não está em causa o dia mas, sim a intenção. Outros que tudo correu bem
a não ser uns pequenos empurrões e bofetadas. Ninguém vai ao fundo da questão
ou faz prognósticos sobre uma possível calamidade.
Suponhamos que a coisa debandava para o pior e que em vez de uns
empurrões e bofetadas havia mortes? Umas por que as pessoas sofriam do coração
e devido ao aglomerado de pessoas não conseguiam resistir! Outras, porque ao
levar uma bofetada se sentiam ofendidas na sua honra e lhe respondesse com
qualquer pistola ou arma branca – o que hoje é apanágio qualquer português usar
– e pusesse termo á vida do agressor! Quem responderia por estes danos? O
senhor Alexandre Soares dos Santos não podia ser. Ele que até desconhecia o
invento!
Em mil novecentos e trinta e oito o Mundo não era o que é hoje. A
tecnologia estava a anos-luz da que hoje somos presenteados. Portugal era ainda
pior. Qualquer notícia que surgisse nos poucos jornais diários do país era
motivo de admiração! Por isso quando surgisse qualquer notícia os ardinas
apregoavam-na como: quem quer saber a “nova”.
Certas aldeias estavam famintas de bens alimentares e da tecnologia existente. Freamunde não era excepção. Mas, tinha entre os seus filhos algum Alexandre Soares dos Santos.
Certas aldeias estavam famintas de bens alimentares e da tecnologia existente. Freamunde não era excepção. Mas, tinha entre os seus filhos algum Alexandre Soares dos Santos.
Assim, para saciar a fome no que diz respeito à tecnologia, no dia
vinte e oito de Novembro de mil novecentos e trinta e oito, foi exibido um
filme - não sei o título - no Salão Pereira da Costa. Tinha sido divulgado por
todos os lugares que compunham a vila de Freamunde e nas missas dominicais, um
evento género Pingo Doce, só que em lugar de ter cinquenta por cento de
desconto, era gratuito. Como era de esperar compareceu uma multidão de gente.
As crónicas da época – vulgo voz do povo – não referem se houve
bofetadas mas, empurrões houve. Nestes eventos, na forma como são feitos, –
baixo custo ou gratuitos - são propícios ao ajuntamento de multidões. Quando
assim acontece e como a fome de qualquer coisa não nos faz raciocinar e prevalece
a lei do mais ladino ou mais forte. Quem estava a dar entrada não conseguia
segurar na multidão.
O parco primeiro andar onde era exibido o filme não suportava tanta
gente. O soalho - naquela época o cimento era pouco utilizado - não resistia a
tanto público e por isso cedeu. Assim como na entrada em que se desenrascava o
que melhor podia, na tragédia era pior. Uns por cima de outros, era o que melhor
podia sobreviver. Tocavam sinos a rebate, sirenes de bombeiros, voluntários a
ajudar no que podiam mas não se evitou de haver vários feridos, alguns com
anomalias para toda a vida e um morto.
Não sei se foram assacadas culpas jurídicas ao promotor de tal evento.
Só sei que muitos dos eventos que são realizados não são pensados no que de
pior pode resultar. As estâncias públicas deviam fiscalizar estes
eventos e quando não oferecessem segurança proibi-los. Porque qualquer evento
que seja feito, público ou privado, deve ter a chancela da Policia ou do
Ministério Público.
As piores acções praticadas são: quando a barriga tem fome a cabeça não
pensa.


Sem comentários:
Enviar um comentário