Faz-me lembrar tempos idos. Era criança e naquele tempo tudo faltava.
Os mais carenciados, como eu, aproveitavam a solidariedade dos mais abastados
para provar coisas desconhecidas para eles. Um pão com manteiga, um bocado de
queijo ou uma malga de leite com café, coisas que em minha casa só entrava em
dias de festa ou de aniversário.
Ainda me lembro que no dia de Páscoa, depois de recebermos a visita do
Compasso, ir atrás dele, com a finalidade de recebermos algo: uma fatia de
pão-de-ló, umas amêndoas ou confeitos, guloseimas que quando as adquiríamos
saboreávamos com tal apetência que até nos engasgávamos.
Nalgumas casas,
dada a avalanche de miúdos, em vez de ser dada em mão a oferenda, amêndoas e
confeitos, o chefe da casa optava por as atirar ao ar e nós miúdos, lutávamos
uns com os outros para apanhar alguma. Éramos todos colegas de brincadeiras. Naquele momento, tornávamos rivais uns dos outros por que tinham mais valor as
guloseimas que pairavam pelo chão. Hoje, ao lembrar-me disso, ainda recordo a
cara sorridente dos que assistiam a essas cenas. Não quero dizer que usavam
isso para gozo da miséria que alastrava pelo País.
Por isso ao
ver as imagens e notícias através das televisões e jornais fez-me lembrar esses tempos. Só que
hoje os tempos são outros e os empresários dessas superfícies comerciais são
mais evoluídos e deviam estar prevenidos para esses eventos. É triste e
desumano. Estas superfícies comerciais têm nos seus quadros gente capaz de
prever acontecimentos de ruptura como a de ontem e deixar que acontecesse é
caso para lamentar e de polícia.
As imagens
não só passaram nas televisões portuguesas. Devemos de nos envergonhar. Não se
devia gozar com a miséria humana. Porque não fazer esses eventos todos os dias
e em dias uteis? Quando se quer praticar a solidariedade deve-se olhar para os
prós e os contras. E, os contras foram mais que os prós. Na minha opinião.


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