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quinta-feira, 10 de maio de 2012

A Manuela:

Era bem dotada fisicamente. Ela sabia isso e fazia jus aos atributos que Deus lhe deu. Tinha um senão: era a primeira filha de uma família numerosa e pobre. Mesmo com os trajes modestos e remendados sobressaia toda a sua formosura. Não lhe faltavam pretendentes. Mas nenhum correspondia ao seu príncipe encantado. Sim! Todas as raparigas têm o seu.
Fez a instrução primária sem problemas. Como acontece com quase todos os filhos de gente pobre só há um caminho a seguir: o trabalho. Assim aconteceu e passados dias de fazer o exame da quarta classe o pai arranjou-lhe emprego numa fábrica têxtil.
Nos primeiros dias custou-lhe a habituar à nova tarefa. Nada se comparava com a escola primária. Tinha de dar o máximo - assim como tinha acontecido no ensino primário para não reprovar nenhum ano lectivo - para angariar a simpatia do patrão e encarregado-geral. Dos colegas de trabalho já o tinha conseguido, embora, a rivalidade reinasse entre os seus colegas operários.
Os funcionários da fábrica têxtil eram de ambos os sexos. Os masculinos eram mais cordiais com a Manuela do que com as restantes. Diz o provérbio: “mais vale cair em graça do que ser engraçado”. Era o que acontecia. Não só por ser engraçada como também simpática. Antes quem gozava desta primazia era a Georgina. Os ciúmes começaram a aparecer. 
No final do dia de trabalho era usual virem todas em grupo. Agora não. Havia o grupo da Georgina e da Manuela. Na passagem pelo centro da vila o grupo da Manuela recebia mais piropos dos rapazes. Ficavam todas embebecidas mas sabiam que esses piropos eram dirigidos à Manuela.
Nesse vai e vêm o tempo ia passando. Esperava o seu príncipe encantado. Não havia maneira de ele despontar no horizonte. Seria porque o seu cavalo estivesse doente? Não! Não acreditava nisso. Príncipe que se preze tem mais que um cavalo. Pensava e repensava.
Entretanto as suas amigas arranjaram namoro. Na vinda da fábrica chegou a acompanhar a Elisa e o seu namorado. Diziam-lhe que não lhe faltava pretendentes e não percebiam como podia rejeitar rapazes como o Albino do senhor Marques. Além de boa figura e de andar sempre bem vestido, tinha um bom emprego, era filho único e os pais tinham uma pequena fortuna. Respondia-lhes: - No coração não se manda. Davam-lhe exemplos de outras raparigas formosas e que ficaram para tias. Se a mim me acontecer isso não me importa. Antes tia do que casar por casar. – Dizia-lhes a Manuela.
Os dias, meses e anos foram passando. A Manuela de outrora foi desaparecendo. Também ia carregando esses dias, meses e anos no seu semblante. Sim, que por muito que disfarçamos, quando nos pomos em frente ao espelho, conseguimos notar as marcas da vida. De risonha passou a carrancuda.
Os seus irmãos casaram e deram-lhe sobrinhos. Quando a tratavam por tia lembrava-se do que lhe dizia a Elisa e o seu namorado, hoje seu marido. Às vezes aborrecia-se com o tratamento que os seus sobrinhos lhe endereçavam. Outras vezes pensava que faziam de propósito. De qualquer maneira há que enfrentar a vida e o ficar solteira não é nenhuma fatalidade.

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