Nessa década Freamunde tinha carências de uma associação para os jovens
se reunir. Um grupo de cerca de trinta resolveram meter mãos à obra, fizeram
reuniões, e decidiram avançar com um clube a que deram o nome "Centro Cultural
Freamundense". Deu muito trabalho e chatices. Sem elas nada se cria ou nada se
transforma.
Criou-se uma direcção, avançou-se com a escolha de um local. O mais
indicado e melhor localizado era o espaço que estava desocupado por cima da
garagem – oficina – de motorizadas e bicicletas do Sr. Albino Quintela, junto à
capela de Santo António, hoje serve de Lar da Terceira Idade.
Na parte debaixo do edifício era a mecânica de motorizadas e bicicletas de pedal de Albino Quintela e na de cima o Centro Cultural Freamundense
O dono deste espaço morava em S. Martinho do Campo, no concelho de S. Tirso, e para ali se deslocou um grupo de jovens, mandatado pela direcção, para tentar convencer o proprietário a alugar esse espaço.
Não foi difícil. O dono do espaço, não me lembro o nome, sei que era familiar do Sr. Bessa (Queco), era simpatizante destas iniciativas e não fez delongas no arredamento. O que necessitava era de um responsável, pessoa idónea, para ser o fiador, dada a nossa juventude. Pensou-se em vários nomes e chegou-se à conclusão que quem melhor nos representava era o Pároco de Freamunde. Nesse tempo os padres tinham muita influência e assim nos dirigimos ao padre José Augusto a fazer-lhe tão nobre convite o que veio a aceitar por que sabia que em Freamunde havia poucos lugares onde os jovens se podiam reunir e passar o seu tempo convivendo uns com os outros. Passado pouco tempo foi criada em Portugal a (J.O.C.) Juventude Operária Católica.
Conseguido este dilema era necessário fixar uma quotização para pagar a renda e que desse para um fundo de maneio para comprar certos utensílios: máquina de café, televisor, cadeiras, mesas e sofás. Assim como para fazer obras, dado que esse espaço tinha servido de arrecadação da fábrica do Calvário. Estava todo degradado: paredes e soalho.
Aproveitando a profissão de cada membro deu-se início às obras. Entre trolhas, carpinteiros, marceneiros, envernizadores e outras profissões similares, estudantes havia poucos, todos contribuíram. Todos os dias depois do horário laboral, embora a maioria não tivesse idade mínima para poder trabalhar, tinha de o fazer, derivado às dificuldades familiares e era a melhor maneira de ocupar os jovens, género (O.T.L.), Ocupação de Tempos Livres, como hoje é usual.
Entre muito trabalho e chatices lá se conseguiu pôr em pé o nosso sonho. No meio de muitos jovens havia muitas ideias mas teve-se de aproveitar as mais valiosas. Criou-se um Estatuto com as normas que se deviam aplicar. Assim, a partir da data em vigor do referido estatuto, qualquer novo sócio tinha de ser aprovado pelos elementos que compunham a direcção; boa moral, pertencer ao sexo masculino, aqui faço um reparo, para que não digam que éramos um grupo de machistas, naquele tempo havia a separação de sexos; a escola portuguesa era um exemplo disso, nos quatro anos que a frequentei, só tive companheiros do sexo masculino. Logo que algum sócio casasse tinha de deixar de ser associado e não frequentar o Centro Cultural a não ser em dias festivos e a convite de um associado.
Todas estas normas existiam pelo facto de naquele tempo ser difícil criar um Centro Cultural para jovens. A situação política era rígida (ditadura), tínhamos de mostrar que ele – Centro – existia simplesmente para ocupação de tempos livres. Naquela altura e dada a nossa juventude, a maioria eram jovens de doze aos dezasseis anos, o perceber de política era uma nulidade, não quero dizer que não houvesse um ou outro com vocação. Também tinha-se que salvaguardar a figura do padre José Augusto que prontamente se responsabilizou por nós. Aliás, passados uns tempos fomos visitados por uma figura relevante de Freamunde a pôr objeções sobre a funcionalidade do Centro e lá nos tivéssemos de socorrer do padre que prontamente se responsabilizou, dizendo que amiúde fazia ali reuniões connosco.
Não posso dizer qual o dia da inauguração. Em Freamunde existe um problema. Há vários eventos que não constam e não há arquivos a que nos possamos socorrer. Em tempos fiz ver isso a quem de direito mas julgo que o problema subsiste. A não ser de há uns tempos para cá com o nascimento da Blogosfera é que alguns acontecimentos são arquivados ou dados a conhecer nos textos de alguns blogues existentes em Freamunde.
Sei que foi um sucesso, desde a camaradagem, ali juntava-se o operariado e estudantes. Não havia separação. Naquele tempo qualquer habitante do lugar da Gandarela, era visto com desdém. Mas, no Centro Cultural havia vários sócios que moravam naquele lugar. Refiro isto sem qualquer problema, nasci naquele lugar, o que muito me orgulha e tenho honra nisso.
Começou naquela década – sessenta - os grupos que cantavam e dançavam o twist e o Yé-yé, - músicas Pops e Rock´n Roll e mais algum género. Essa década está referenciada como a rainha da música Pop. No Centro Cultural a maioria dos jovens ali aprenderam a dançar. Ao som de músicas dos Beatles, Roberto Carlos, The Shadows e dos conjuntos portugueses, Conjunto Académico João Paulo, Mil Cento e Onze, dos nossos vizinhos Lacraus, da Vila das Aves e Sheiks, tudo servia para
dar ao pé e abanar a cabeça.
A música e dança de bailes - Dança de Salão - muitos jovens ali a aprenderam. Alguns deles pareciam autênticos bailarinos. Nunca fui de me dispor com essas danças, coitada da minha parceira, pisava-lhe os pés todos, mas invejava os meus colegas. Quando se organizavam esses bailes convidavam-se algumas moças da nossa idade a tomar parte. Alguns sócios levavam as irmãs e assim passava-se uma boa tarde de domingo. Nesse tempo era o único dia de descanso semanal. Não se sonhava com a “semana-inglesa” muito menos com a “americana”, hoje institucionalizada em Portugal.
Sei que foi um sucesso, desde a camaradagem, ali juntava-se o operariado e estudantes. Não havia separação. Naquele tempo qualquer habitante do lugar da Gandarela, era visto com desdém. Mas, no Centro Cultural havia vários sócios que moravam naquele lugar. Refiro isto sem qualquer problema, nasci naquele lugar, o que muito me orgulha e tenho honra nisso.
Assim se andou vários anos. Com a proliferação de Cafés em Freamunde, começou a haver menos frequência e talvez por isso o Centro Cultural foi-se definhando. Quando só existiam os Cafés, Teles, novo e velho e Popular, era difícil a concentração de jovens, dada a dificuldade de meios materiais para os frequentar.
Por esse motivo e alguns outros, algumas instituições que tanto custaram aos seus obreiros criar foram desaparecendo. Custa a muitos Freamundenses vê-las desaparecer. Somos rotulados de um povo bastante associativo e bairrista mas derivado a muitas dificuldades e falta de homens com iniciativas, assim como, as organizações autárquicas, Câmara Municipal e Junta de Freguesia estão-se a desleixar, cada vez aproxima-se mais a sua morte.
Quando olho para o edifício que suportou o Centro Cultural lembro-me do punhado de jovens que o idealizaram e deram-lhe corpo. Hoje na casa dos sessenta anos a maioria deles ainda se devem recordar desse evento. Mas, para que não se esqueçam resolvi escrever este texto por que recordar é viver e dar conhecimento à maioria dos jovens de hoje, de Freamunde, como eram os de ontem. Olhem vocês pelas instituições carismáticas de Freamunde e não as deixem morrer. Ao deixá-las morrer estão a matar a história de Freamunde.

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