quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Do Cronica do Rochedo. É de ler:

Um sinal de esperança: exportações portuguesas disparam.

Vários membros do governo têm apontado o aumento das exportações como solução para a crise. Pequenas, médias e grandes empresas esforçam-se por encontrar a porta de saída, mas esbarram com a falta de acesso ao crédito e a estagnação dos mercados de escoamento tradicionais, também eles em recessão ou com fraco crescimento.
Perante as dificuldades, Paulo Portas entrou em cena. Há que procurar novos mercados- pensou esquecendo a redundância “socrática”. E lá partiu rumo aos países outrora “dirigidos por ditadores” apregoando a excelência da produção nacional.
Num passe de mágica, apenas ao alcance de ilusionistas de alto gabarito, Chavez ou Eduardo dos Santos deixaram de ser ditadores; Venezuela ou Angola passaram a ser democracias; o Magalhães passou de produto de contrafacção a exemplo da nossa capacidade inovadora. O milagre da multiplicação das exportações, porém, não se concretizou...
Do quarto dos fundos, ecoou então a voz de uma figura apagada. “Tenho uma ideia! Vamos exportar pessoas” Fascinado com a ideia de Mestre, Relvas aplaudiu e acrescentou “ Muito bem!”
Um canal de televisão segue a pista. Entrevista jovens dispostos a emigrar. Vai a uma feira de compra de talentos, organizada por vários países estrangeiros que se propõem recrutar médicos e enfermeiros portugueses. Desloca-se ao aeroporto . Há jovens que partem. Já não vão a salto como no tempo do Estado Novo. Vão de avião, legalizados, com o incentivo e alto patrocínio do governo português.
Ainda há poucos anos, no tempo em que era governado por um bandido suspeito de todos os crimes inscritos no rol do processo penal, à excepção de homicídio, Portugal investia fortemente na formação de talentos, em quem depositava a esperança de desenvolvimento do país. Agora, que o país é dirigido por gente séria, preocupada com os portugueses e o seu futuro, a vocação do governo é delapidar o investimento feito nas pessoas e exportá-las. Talvez veja neste novo segmento de mercado uma nova oportunidade.
Vítor Gaspar já estará até a fazer contas às remessas destes novos emigrantes. Tem sobre os joelhos um i-pad último modelo, como mostram as imagens da televisão. Evolução tecnológica notável, a deste ministro. Salazar colocava sobre os joelhos uma simples manta...
Uma jovem entrevistada pela televisão diz que não espera voltar a Portugal, porque aqui não tem futuro. Outra evolução. No tempo do Estado Novo eram os mancebos que emigravam, desiludidos e cansados da guerra. Não foi em vão que a democracia portuguesa pariu uma Comissão para a Cidadania e Igualdade do Género. Agora há oportunidades de emigração para todos.
Em frente ao televisor, uma mulher ainda jovem, licenciada em Biologia, a quem o desemprego bateu à porta há menos de um mês, porque o Estado deixou de financiar alguns projectos de investigação, exaspera-se quando ouve a notícia de que o governo vai agravar a taxa de IRS sobre… os subsídios de refeição! “ Estes gajos são uns ladrões!”- grita. 

O marido, que estava a ver o Benfica noutra sala mas ainda tinha na memória a reportagem sobre a emigração de jovens, alheou-se do jogo por momentos e respondeu-lhe:
“ Não são ladrões, não! São uma agência legalizada de tráfico de carne humana. Infelizmente, nunca serão julgados por nenhum Tribunal Penal Internacional. Em Haia só se preocupam com os ditadores que matam à força das balas. Aqueles que matam as pessoas, privando-as de uma vida digna e recusando-lhes o direito ao sonho, são aplaudidos como bons alunos e grandes democratas”.
Ela olhou-o fixamente e sugeriu:
“Vamos inscrever-nos? "

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