Rádio Freamunde

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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Não percebo:

Há uma onda de solidariedade a favor de Ronaldo. E a desfavor de Jorge Jesus.
E qual foi o "pecado" de Jesus?
Pôr os que achou mais válidos a jogar?
Por que se foi buscar outro selecionador!
Não foi porque a maioria de quem gosta da Seleção não concordava com as escolhas de Martinez?
Se fosse para continuar tudo na mesma, não se ia contratar Jesus. Sabe-se de antemão que Jesus tem o seu ideário e dele não abdica. Quem manda e decide é ele.
Em caso de desaire não é ele o responsável?
Então para que vem a Mídia livre e outros canais em socorro de Ronaldo!
É com receio de lhes faltar o "granel"!
Que triste País que está servido por gente desta espécie.
Deixem Jorge Jesus e a Seleção fazer o seu trabalho.
No fim peçam-lhe contas.
Agora defender um "foragido" porque Jesus pôs outro jogador que lhe dava mais garantias a jogar, é motivo para fazer o que lhes estão a fazer?
Se por ventura Ronaldo voltar á Seleção nunca mais desejo sucesso para ela.

Força Jesus. Neste universo há muitos portugueses a torcer por si.

Manuel Pacheco 

Greve a la CR7:

(Raquel Varela, in Blog raquelcardeiravarela.wordpress.com, 01/10/2026)

A única coisa interessante na novela Cristiano Ronaldo é que entrou em greve. Talvez agora possamos todos seguir o seu exemplo e sobretudo o dos bombeiros e professores em França, estes, perante a ameaça da polícia de choque para os estudantes desocuparem os liceus, que ocuparam contra os cortes orçamentais, fizeram um cordão humano, de professores, a proteger os alunos! Há mais – muito mais. A greve de Madrid da educação, por tempo indeterminando, com plenários e assembleias diários nas escolas e nas ruas, marcada por todos os sindicatos, leram bem – todos -, com o apoio das associações de estudantes e tudo com uma exigência – redução da jornada de trabalho em escola para 17 horas, o resto do tempo é para com calma preparar aulas! Ou os mais de 50 mil estudantes alemães que, pela terceira vez este ano, fazem greve e saem às ruas contra o serviço militar obrigatório e os gastos de guerra. Ou as acampadas – já são dezenas em toda a Espanha – que não aceitam as medidas paliativas de Sanchez, mostrando a geração Z e o alfabeto inteiro a erguer-se.

Esta droga paralisante que é Ronaldo e o futebol em Portugal, aspergidos por televisões e rádios, financiadas pelos mesmo que financiam os Bancos e os fundos para hipnotizar a população, já fede, há muito. Uma coisa é o jogo e que se divirtam e muito, outra é manipular, esconder e asfixiar a esfera pública que vê o SNS, as Universidades, as escolas, todos os serviços, colapsarem sem financiamento, e procura fazer esquecer que ontem o partido fascista Chega, a extrema direita da IL e o PSD deram a mão para resolver o lucro dos fundos, que eles chamam “crise de habitação”. O que foi aprovado permite aos accionistas bancários que já têm 20% das casas para arrendar entrarem com subsídios (do Governo, até 2300 euros) no mercado de arrendamento, acelerando os despejos dos trabalhadores e famílias. Ou seja, estes subsídio dependentes são ajudados pelo Chega, pela IL e pelo PSD. E o PS ainda vai aprovar orçamentos? E nós, fazemos como em Espanha, mobilizamos-nos ou ficamos à espera do PS?

Sai hoje, como sempre à quinta, quentinho, o www.jornalmaio.org – leiam, se puderem, o nosso artigo de editorial onde analisamos as medidas em Espanha, e onde demonstramos porque o preço dos combustíveis pode descer drasticamente, mesmo com guerra e sem mexer nos impostos. Deve-se descer impostos e parar já investimentos em guerra mas pode-se descer drasticamente o preço dos combustíveis mexendo nos obscenos lucros da Galp, cujos poucos accionistas concentram milhões em lucro por uma magia que publicamos neste número.

Um povo que conhece pode libertar-se, mas na ignorância nos querem. Façamos greve à ignorância e, como Ronaldo, mas sobretudo como em França, Alemanha, Espanha lutemos a sério pelo nosso futuro. Até pelo direito a ter tempo livre e jogar à bola.

Do blogue Estátua de Sal 

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Cristiano Ronaldo: COMO BOM PORTUGUÊS FAÇO-ME DE PARVO:

Se ninguém pode imaginar o que é ser Cristiano Ronaldo e, nesse sentido, o seu julgamento pode ser uma tarefa hercúlea e injusta, por outro lado o abandono do estágio da seleção após conferência de imprensa do selecionador apenas tem uma palavra: inconcebível.

Pergunta direta: será que Cristiano Ronaldo pensava que fazia a Jorge Jesus o mesmo que fazia a Roberto Martinez? Será que Cristiano Ronaldo acha mesmo que Jorge Jesus é o tipo de treinador que engole sapos e se deixar levar por este ou aquele frete? Será que Cristiano Ronaldo é parvo? Não, não é.
Se amuar sem razão acontece a todos e ninguém tem legitimidade para atirar a primeira pedra não sabendo o que é ser Cristiano Ronaldo no dia-a-dia, há limites para tudo. É que a reação de CR7 tem tudo de impulsiva e nada de premeditada. Tem tudo de birra e nada de critério. Tem tudo de disparatada e nada de harmoniosa, até pelo respeito que se deve ter em relação a alguém cuja dimensão desportiva, humana e social é inquestionável.
Porque tudo isto é verdade. Mas dá-se razão a Miguel Sousa Tavares. O Cristiano Ronaldo tem um ego imenso, que ultrapassa os próprios limites de uma seleção cujos intervenientes – selecionador e Rúben Dias – apareceram publicamente a defendê-lo minutos antes da irracional debandada. Sendo que também não se percebe parte da questão: então a célebre conversa entre Jorge Jesus; Pedro Proença e o próprio CR7 deixou de parte a mensagem principal: de que Cristiano Ronaldo não entraria de início diante da Dinamarca?
E, verdade seja dita, nada pode ser apontado a Jorge Jesus. Ao seu jeito gramaticalmente desleixado mas genuíno, o selecionador foi sempre coerente na descrição exata daquele que seria o papel de CR7 durante o seu legado: se tiver rendimento, joga; se não tiver, não joga. Ponto final. E se CR7 não aceita, azar. Não há exceções para ninguém, nem legados colocam este ou aquele a jogar. E até esteve bem no reconhecimento de um estatuto que lhe confere um determinado número der mordomias. Mas nenhuma mordomia pode ultrapassar o mais alto desígnio que representa vestir a camisola da seleção.
O impulso de Cristiano Ronaldo faz com que dificilmente volte à equipa nacional e, diga-se, o melhor mesmo é não voltar. O impulso de Cristiano Ronaldo ratifica que a melhor decisão teria sido o abandono após o final do mundial, obedecendo à premissa de que o tempo passa por todos e, desportivamente falando, o craque já não tem condições para ser titular, até porque as valências de Gonçalo Ramos – sobretudo pressão alta e reação à perda – são essenciais nesta altura de transição, em que o talento do miolo tem de ser potenciado e a equipa nacional ajustada à exponenciação do potencial que deverá ter a breve trecho.
E Cristiano não fica bem na fotografia também na mensagem publicada nas redes sociais: a seu tempo tudo se saberá. É certo que as reações a quente saem sempre enviesadas. Devem ser evitadas. O pensamento a frio é amigo da sensatez. Mas o comunicado foi o pior possível: agigantou ainda mais a nuvem de dúvidas existente, num conjunto de frases politicamente corretas, vazias, e com o único intuito de servirem de tampão muito giro enquanto não se encontra um argumento mais racional e que possa colocar a opinião pública do lado do craque. Se isso for possível. O que não parece.
A opinião pública, essa, fica refém da tal nuvem que se adensou. Que se agigantou. Se a gratidão e o reconhecimento são infindáveis, as atitudes birrentas tolhem tudo o que está para trás e mancham uma saída que deveria ser airosa e repleta de entusiasmo. É que a atitude de Cristiano Ronaldo colocou o povo numa situação complicada. Numa barricada onde ambos os lados têm razão e, ao mesmo, também não têm. Ou a razão não existe. E o melhor mesmo é fazermo-nos todos de parvos e fingir que nada vimos. Que nada sentimos. Lembrarmo-nos do CR7 de outrora, que sozinho eliminou a Suécia e nos levou ao Brasil. Ou que foi o astro-mor na conquista do europeu. Naquele 30 de setembro todos os portugueses foram inteligentemente parvos. Nada viram. Nada sentiram. Apenas aplaudiram o melhor jogador português de sempre enquanto este regressou á sua saudita carapaça milionária. Onde o seu ego dita leis.
nunes.gil@gmail.com
@gilmoreiranunes

QUANDO O EGO É MAIOR QUE A RAZÃO, A FAMA TORNA-SE UMA DESILUSÃO:

Cristiano Ronaldo construiu uma carreira extraordinária ao serviço do futebol português. É precisamente por isso que uma saída da Seleção, motivada pela irritação de não ter jogado, acaba por ser particularmente difícil de compreender.

A camisola da Seleção não pertence a um jogador. Pertence a todos os portugueses que estão dentro e fora do campo.
O passado de CR7 merece respeito. Mas o passado não dá a ninguém o direito de colocar o próprio ego acima da equipa.
Se decidiu sair, saiu pela porta que escolheu.
Agora, o que importa é quem ficou. É apoiar os jogadores que continuam a vestir a camisola de Portugal, porque a Seleção é muito maior do que qualquer nome, por mais famoso que seja. E talvez seja esta a parte mais triste desta história: uma carreira construída durante tantos anos com a grandeza de quem parecia estar acima de todos pode acabar, num determinado momento, diminuída por uma decisão tomada por um só homem.
Quando o ego é maior que a razão, a fama pode transformar-se numa desilusão.
Bom dia!

terça-feira, 29 de setembro de 2026

O fim do petrodólar não é apenas uma manchete passageira nos cadernos de economia:

É o som ensurdecedor das fundações do império norte-americano a ruir em tempo real. Para compreenderes a magnitude sísmica do que está a acontecer hoje, tens de recuar aos anos setenta e olhar para a maior jogada de mestre, e também o maior sequestro global, da história da hegemonia ocidental: o pacto de 1974 entre Washington e Riade. Naquela época, os Estados Unidos tinham acabado de abandonar o padrão-ouro e a sua moeda corria o risco de virar pó. O que é que eles fizeram? Fecharam um acordo blindado com a família real saudita. Os americanos garantiam proteção militar absoluta ao reino e, em troca, a Arábia Saudita comprometia-se a vender o seu petróleo, o sangue que faz bater o coração de toda a economia mundial, exclusivamente em dólares. Foi uma jogada brutal. De um dia para o outro, se qualquer país do mundo quisesse acender uma luz, abastecer um camião ou operar uma fábrica, precisava de comprar dólares. Os Estados Unidos criaram uma procura artificial e infinita pela sua própria moeda de papel. Isso permitiu a Washington fazer algo que nenhuma outra nação pode fazer: imprimir triliões a partir do nada, financiar défices astronómicos, construir centenas de bases militares ao redor do globo e exportar a sua inflação para os países mais pobres. O mundo inteiro foi obrigado a financiar o conforto e a máquina de guerra do império, simplesmente porque precisava de comprar o ouro negro.

Mas a cartada que a Arábia Saudita está a dar agora é, sem qualquer margem para dúvidas, o xeque-mate que o establishment ocidental, na sua arrogância cega, nunca acreditou que aconteceria. Com a expiração dos prazos implícitos desse pacto de meio século, Riade olhou para o tabuleiro global e percebeu que o mundo unipolar está morto. A liderança saudita atual não tem qualquer interesse em afundar com o navio americano. Ao oficializar a sua entrada nos BRICS e ao abrir publicamente a porta para aceitar o Yuan chinês, a Rupia indiana e outras moedas locais no comércio de petróleo, a Arábia Saudita está a cortar o tubo de oxigénio financeiro que mantinha o império vivo. Não se trata apenas de uma diversificação de portefólio; trata-se de um realinhamento geopolítico brutal. Os sauditas estão a olhar diretamente nos olhos da Casa Branca e a dizer que a proteção militar de Washington já não é necessária, nem temida, e que o futuro do comércio asiático e eurasiático será feito com as regras de quem produz a riqueza real. Quando o maior exportador de petróleo do planeta aceita liquidar os seus barris fora do sistema financeiro ocidental, a mensagem enviada a todo o Sul Global é clara: a obrigatoriedade de se curvar perante a nota verde acabou de ser revogada.
E quais são as consequências materiais, práticas e devastadoras desta morte anunciada para o império? O colapso daquilo que os economistas chamam de "privilégio exorbitante". Durante décadas, os Estados Unidos nunca precisaram de se preocupar com as suas dívidas impagáveis, porque sabiam que o resto do mundo seria sempre forçado a comprar títulos do Tesouro americano para ter dólares suficientes para importar energia. No momento em que o petróleo passa a ser transacionado noutras moedas, essa procura artificial desmorona. Aqueles triliões de dólares impressos que circulavam pelo mundo vão começar a regressar a casa. O resultado interno para os americanos será uma inflação avassaladora e impossível de controlar, uma crise da dívida soberana e a perda dramática do poder de compra da sua população. O padrão de vida americano, que foi artificialmente sustentado pelo suor e pela submissão financeira do mundo em desenvolvimento, vai sofrer um abalo sísmico. A impressora de dinheiro do Banco Central americano (Fed) deixará de ser uma varinha mágica que financia o luxo imperial e passará a ser uma bomba-relógio inflacionária dentro das suas próprias fronteiras.
No teatro das operações geopolíticas e militares, o fim do monopólio do petrodólar significa a aniquilação absoluta da principal arma de destruição em massa de Washington: a chantagem das sanções. Até agora, o império usava o sistema SWIFT e o dólar como um garrote. Se um país se recusasse a obedecer às ordens da Casa Branca, era banido do sistema dólar e, consequentemente, não podia comprar petróleo, levando a sua economia à fome e ao colapso. Mas se agora uma nação pode comprar a energia saudita, russa ou iraniana usando as suas próprias moedas locais ou redes financeiras alternativas estruturadas pelos BRICS, as sanções americanas passam a valer tanto quanto papel higiénico. É o desarmamento financeiro dos Estados Unidos em praça pública. Sem o petrodólar, o império perde a capacidade de asfixiar os seus adversários, perde a capacidade de financiar a sua própria expansão militar infinita e é finalmente forçado a descer do pedestal para competir num mundo onde as regras do jogo já não são ditadas exclusivamente pelo idioma de Wall Street. A Nova Ordem Multipolar já não é uma teoria num papel; ela está a ser cimentada, barril a barril, perante o desespero paralisante do velho mundo.

AFINAL, QUEM É QUE ESTÁ EM GUERRA?

Há uma coisa extraordinária nas guerras modernas: uns combatem, outros discursam e outros pagam.
E, nesta guerra, o cidadão europeu parece ter recebido uma missão estratégica particularmente importante: chegar à bomba de combustível, meter o cartão, pegar na pistola e ser ele o assaltado, fechar os olhos e contribuir para a geopolítica.
É a guerra por procuração transformada em débito directo.
Desde 2022, venderam-nos uma narrativa extraordinariamente simples para uma realidade extraordinariamente complexa: era preciso sancionar, cortar, proibir, substituir, financiar e armar. Tudo teria um preço, naturalmente, mas seria o preço necessário para enfraquecer a Rússia.
Passaram quatro anos.
Talvez esteja na altura de fazer aquela coisa inconveniente que estraga tantas narrativas políticas: olhar para a factura.
A própria Comissão Europeia reconhece que a UE reduziu a participação do gás russo nas suas importações de cerca de 45% para 12% em 2025. O petróleo russo passou de 27% das importações europeias no início de 2022 para cerca de 2%. O carvão russo foi eliminado. (Energy⁠)
Missão cumprida?
Depende da definição de missão.
Porque a energia que deixou de vir da Rússia não desapareceu por intervenção divina. Teve de ser substituída.
E aqui começa uma das grandes ironias desta epopeia.
A Europa reduziu drasticamente o gás russo transportado por gasoduto e lançou-se sobre o mercado mundial de LNG. Segundo a Agência Internacional de Energia, em 2022 as importações europeias de LNG aumentaram mais de 60%, cerca de 64 mil milhões de metros cúbicos. O problema é que a oferta mundial adicional nesse mesmo período foi de apenas cerca de 25 mil milhões. Resultado: a Europa passou a disputar no mercado internacional carregamentos anteriormente destinados à Ásia e a outros compradores, muitos deles a nos revender mais caro o que compraram eles à Rússia. (IEA⁠)
Não eliminámos a necessidade energética.
Mudámos o fornecedor, a rota, a logística e o preço.
É aquilo a que a política moderna chama independência.
E quem apareceu providencialmente do outro lado do Atlântico?
Os Estados Unidos.
A própria Comissão Europeia informa que, em 2025, a UE importou um recorde de 76 mil milhões de metros cúbicos de LNG norte-americano, no contexto de uma parceria energética UE-EUA enormemente reforçada depois do conflito militar na Ucrânia. (Energy⁠)
Que coincidência comercial extraordinariamente conveniente.
A Europa corta uma das suas principais relações energéticas terrestres, reduz brutalmente as compras à Rússia e aumenta a dependência de LNG transportado por navio.
E depois congratula-se por ter conquistado a sua “independência energética”.
É como vender a casa para deixar de dever dinheiro ao banco e celebrar a independência enquanto se assina o contrato de arrendamento.
A SANÇÃO É PARA QUEM?
A lógica anunciada era simples: tornar a energia russa economicamente tóxica, reduzir as receitas de Moscovo e aumentar o custo da guerra para a Rússia. E comprar mais caro aos EUA e a outros países que compram à Rússia.
Mas existe outra pergunta, bastante menos popular:
qual foi o custo para nós?
A Agência Internacional de Energia concluiu que a perda maciça do gás russo por gasoduto tornou estruturalmente mais frágil o mercado europeu e aumentou a dependência da flexibilidade do LNG. (IEA⁠)
E a própria Comissão admite hoje uma realidade ainda mais incómoda: mais de metade da energia consumida na União continua a provir de combustíveis fósseis importados; mais de 80% do gás e mais de 95% do petróleo são importados. Em 2025, a factura europeia de importação de produtos energéticos foi de 336,7 mil milhões de euros. (Energy⁠)
Portanto, conseguimos uma proeza digna de estudo.
Continuamos dependentes.
Só que agora estamos dependentes de outros.
Excelente.
E CHEGAMOS AO GASÓLEO
O automobilista europeu não precisa de estudar geopolítica.
Tem um pequeno seminário sobre relações internacionais instalado no posto de combustível.
Quando vê dois euros ou mais por litro, está perante uma aula prática.
E em Setembro de 2026 a situação tornou-se ainda mais caricata: os mercados europeus enfrentam novamente preços elevados da energia e a Comissão Europeia alerta para a vulnerabilidade decorrente da dependência das importações. A UE importa aproximadamente 80% do gás que consome. (Reuters⁠)
Entretanto, o mercado europeu do gasóleo está suficientemente dependente do exterior para Bruxelas estar preocupada com a possibilidade de os próprios Estados Unidos restringirem as suas exportações de diesel. A Reuters relata que a UE iniciou contactos de alto nível com Washington precisamente devido a essa possibilidade. (Reuters⁠)
Isto merece contemplação.
Primeiro reduzimos a dependência energética da Rússia em nome da segurança.
Depois aumentamos a dependência de outros fornecedores.
Depois um desses fornecedores pondera restringir as exportações.
E Bruxelas fica preocupada.
Independência energética europeia, versão 2026.
MAIS SANÇÕES!
Quando uma política produz custos inesperados, existem normalmente duas possibilidades.
A primeira é reconsiderá-la.
A segunda é anunciar mais da mesma política com uma conferência de imprensa maior.
A Europa parece fascinada pela segunda.
Mais sanções.
Mais armamento.
Mais financiamento.
Mais declarações solenes.
Mais reuniões extraordinárias.
Mais fotografias.
Mais discursos sobre autonomia estratégica.
E, evidentemente, mais uma ida do cidadão ao posto de combustível para financiar involuntariamente a experiência.
Entretanto, a Comissão já transformou em lei a eliminação gradual das importações de gás russo: o LNG russo deverá desaparecer até ao final de 2026 e o gás russo por gasoduto até, no máximo, 30 de Novembro de 2027. (Energy⁠)
Pode defender-se politicamente esta escolha.
O que não se deve fazer é fingir que ela é economicamente gratuita.
E OS ESTADOS UNIDOS?
Existe ainda o elefante gigantesco sentado no meio da sala europeia.
Na leitura geopolítica que defendo, Washington não é um espectador inocente que apareceu casualmente em Fevereiro de 2022. E mais tarde manda explodir o Northstream II
Os EUA têm interesses estratégicos próprios na Europa, na NATO, na relação da Europa com a Rússia, na indústria de defesa e, evidentemente, na energia.
Isso só per si explica o financiamento de mais de 5 mil milhões de Dollars no golpe de estado na Ucrânia em 2014 denominado por Euromaidam e automaticamente todas as decisões de Washington numa guerra por procuração contra o seu adversário Rússia.
Obrigando os seus vassalos europeus através da Igreja Universal do Reino dos Mirdia a aceitar a versão infantil segundo a qual a história começou em fevereiro de 2022 e tudo aquilo que aconteceu anteriormente deve ser apagado.
Há décadas de expansão da NATO, disputas sobre a arquitectura de segurança europeia, 2014, Crimeia, Donbass, Minsk, interesses russos, americanos, europeus e ucranianos.
A origem e responsabilidade pelo conflito são objecto de interpretações profundamente divergentes. O facto incontroverso é que a Rússia tomou a decisão de lançar a Operação Especial Militar simplificada por muitos como uma simples invasão, tudo em grande escala em 2022. Outra questão, diferente, é discutir o processo geopolítico que conduziu até ela e o papel desempenhado pelas várias potências.
É precisamente essa discussão que uma sociedade intelectualmente adulta deveria conseguir fazer.
A EUROPA DESCOBRIU A SOBERANIA — COM A FACTURA EM DÓLARES
O mais extraordinário é ouvir falar incessantemente de “autonomia estratégica europeia”.
Autonomia?
Militarmente dependemos profundamente dos Estados Unidos através da NATO.
Energeticamente substituímos uma parcela enorme da dependência russa por outros fornecedores, incluindo uma presença americana muito maior no LNG. Mas muito mais cara.
Politicamente acompanhámos Washington em sucessivos pacotes de sanções.
Industrialmente, a energia cara tornou-se uma preocupação permanente para sectores europeus intensivos em energia.
Mas somos soberanos porque Bruxelas publicou um regulamento a dizer que somos soberanos.
Magnífico.
Falta apenas convencer a física, a economia e a conta bancária.
QUEM ESTÁ, AFINAL, EM GUERRA?
A pergunta é deliberadamente provocatória.
Porque talvez seja necessário olhar menos para os discursos e mais para as consequências.
O cidadão russo está num país efectivamente em guerra. Em Guerra com 47 países, com a NATO, vassalos do seu adversário EUA, mas com procuração passada ao regime de Kiev que custou mais de 5 mil milhões de dólares essa procuração, mas valeu apena esse investimento, não sou eu que digo, foi Victoria Nuland que disse.
O cidadão ucraniano está num país devastado pela guerra e paga incomparavelmente o preço humano mais terrível deste conflito, que é com o seu sangue.
Mas o cidadão europeu, que não declarou guerra à Rússia, descobriu que também lhe cabe uma função:
pagar.
Paga energia.
Paga combustível.
Paga apoio financeiro.
Paga armamento através dos impostos.
Paga os efeitos económicos das decisões dos seus governos.
E, quando pergunta se todas essas decisões produziram exactamente os resultados prometidos, aparece imediatamente alguém para explicar que a solução é…
mais sanções.
Mais armamento.
Mais dinheiro.
E talvez seja essa a grande ironia europeia desta década.
Tentámos demonstrar que conseguimos viver sem a energia russa.
Descobrimos que continuamos a precisar de energia.
Tentámos demonstrar autonomia estratégica.
Descobrimos novos fornecedores dos quais dependemos.
Tentámos utilizar a economia como arma geopolítica.
E descobrimos que uma arma económica também tem recuo.
No fim, sobra a pergunta que nenhum slogan resolve:
se quatro anos depois continuamos a pagar energia cara, continuamos dependentes do exterior, continuamos a financiar uma guerra sem solução política à vista e continuamos a responder a cada consequência com uma nova dose da mesma estratégia, estamos realmente a conduzir a política, ou limitamo-nos a pagar por ela?
Mais sanções.
Mais armamento.
Mais dinheiro.
Slava Ukraini.
E não se esqueça de guardar o recibo quando abastecer.
É o comprovativo da nossa autonomia estratégica.
Autor:

João Ferreira  

PODE O CHEGA EXISTIR? A PERGUNTA QUE NINGUÉM QUER RESPONDER A SÉRIO …:

Há uma frase escondida no preâmbulo da Constituição que a maioria dos portugueses nunca leu, mas que devia ser ensinada nas escolas com o mesmo cuidado com que se ensina a tabuada: a 25 de abril de 1974, as Forças Armadas derrubaram “o regime fascista”. Não “autoritário”. Não “ditatorial”. Fascista, sem aspas, sem hesitação, gravado a ferro e fogo no texto fundador da democracia portuguesa. E, mais à frente, no artigo 46º, a mesma Constituição proíbe expressamente organizações que professem essa ideologia. É uma frase incómoda, porque obriga a perguntar, sempre que um novo partido bate à porta da política com um discurso que ecoa aquele passado: então e agora, o que fazemos?
Convém dizer, antes de mais, que a própria palavra “fascismo” é um campo minado academicamente.
Há quem defenda, com argumentos sólidos, que o salazarismo foi antes um autoritarismo conservador — um regime que chegou a perseguir os seus próprios fascistas mais fervorosos (os "camisas azuis" liderados por Francisco Rolão Preto), os que sonhavam com um poder totalitário ao estilo italiano.
Outros insistem que foi, sim, fascismo: um fascismo à portuguesa, com sotaque católico e colonial, de partido único, com censura, repressão moral e social, com polícia política, uso da violência, prisões e campos de concentração para os seus opositores, talvez mais brando ou dissimulado, mas da mesma família ideológica dos regimes que incendiaram a Europa.
A distinção entre autoritarismo e totalitarismo, que a filosofia e a ciência política nos legaram, atravessa até a Itália de Mussolini, vista por alguns pensadores, pelo menos até 1938, como uma ditadura nacionalista comum e não como um totalitarismo pleno. Este debate, longe de ser uma curiosidade de seminário universitário, ressurgiu com força na Alemanha, onde a ascensão eleitoral da extrema-direita obrigou o país a perguntar, sem grande conforto, se a palavra “fascismo” continua a servir para descrever o presente ou se ficou irremediavelmente presa ao século passado.
Em Portugal, a lei de 1978 tentou fechar esta porta com uma definição objetiva: são fascistas as organizações que difundam os valores, os métodos e as instituições dos regimes que a História regista como tal, nomeadamente o colonialismo e o corporativismo. Bonito, no papel. Na prática, um juiz do Tribunal Constitucional não tem o luxo de andar a debater Hannah Arendt quando lhe chega à mesa um pedido de extinção de um partido — e foi precisamente isso que aconteceu há não muito tempo, quando um advogado voltou a pedir ao Ministério Público que acionasse os mecanismos para extinguir o Chega, alegando a sua natureza “racista e fascista”. Uma juíza conselheira do próprio Tribunal, questionada sobre o assunto, resumiu o impasse com uma honestidade rara: é muito difícil provar em tribunal que um partido é fascista. Bastará uma saudação de braço no ar? Um cartaz? Um discurso? Onde está a linha entre a retórica inflamada, típica de qualquer populismo, e a ideologia que a Constituição quis mesmo proibir?
E é aqui que a teoria tem de se sujar as mãos com factos. Porque não faltam, infelizmente, casos concretos para pôr em cima da mesa. Há os cartazes de campanha com frases sobre uma comunidade estrangeira que um tribunal obrigou a retirar. Há as queixas-crime apresentadas por associações antirracistas, acusando o partido de incitamento ao ódio contra comunidades ciganas e imigrantes. Há a deputada que, em plena Assembleia da República, relatou ter sido chamada de “vaca” e ouvido mugidos nos corredores, dirigidos a colegas por serem mulheres ou por serem homossexuais. Há a proposta de cortar apoios a associações ligadas à identidade de género, apresentada como se os direitos humanos fossem uma questão de gosto pessoal. Há discursos que atribuem a violações de mulheres portuguesas uma origem quase exclusivamente estrangeira, num exercício retórico que confunde perigosamente segurança pública com xenofobia. Nenhum destes episódios, isoladamente, chega para um tribunal decretar a extinção de um partido. Todos juntos, formam um padrão que seria ingénuo fingir não ver.
E se antes este tipo de discurso vivia escondido, (murmurado num café, tolerado como a excentricidade rabugenta de um tio mais velho), hoje tem palco garantido, instantâneo e sem filtro. As redes sociais funcionam como um barómetro cruelmente honesto daquilo que uma parte da sociedade sempre pensou, mas que o simples pudor, o medo do julgamento alheio, mantinha em silêncio. Bastou um partido dar cobertura política a esse sentimento para que ele saísse do armário com uma desenvoltura assustadora, e bastaram as redes para lhe multiplicar o alcance sem que ninguém tivesse de pagar qualquer preço social por isso. Já não é preciso enfrentar o olhar reprovador do vizinho: basta um telemóvel.

Fico, confesso, do lado de quem hesita em pedir a extinção de partidos por via judicial. Não por simpatia ideológica — nenhuma —, mas porque há algo de perigosamente paradoxal em usar os instrumentos da democracia para calar quem foi legitimamente votado por mais de um milhão de portugueses. É o velho paradoxo: uma democracia que se defende demasiado depressa corre o risco de deixar de ser democracia; uma que não se defende nunca corre o risco de deixar de existir. Entre estes dois abismos, a Constituição não nos dá uma resposta fácil — dá-nos, isso sim, uma obrigação: a de continuar a fazer a pergunta, em vez de a varrer para debaixo do tapete só porque incomoda. Talvez seja esse, afinal, o verdadeiro teste da nossa democracia: não o de saber se conseguimos proibir o Chega, mas o de sermos capazes de o escrutinar sem medo e sem cumplicidade, todos os dias, com a mesma persistência com que ele próprio ocupa os nossos ecrãs.

Paulo Marques