Imaginem que ele entra na sala. Sem pressa, sem ruído. Senta-se. Olha-nos um a um. E sorri — aquele sorriso sério de quem sabe que a luta continua.
«Camaradas», começa. «Não venho falar do passado. Venho falar do que nos estão a fazer hoje.»
A voz é firme. Não se quebra.
«Conquistámos Abril. Mas alguém acredita que somos livres? Livres com salários de miséria? Livres a ver os nossos filhos partir para França, para a Suíça, para o Canadá? Livres a entregar a energia, a banca, os transportes, a saúde, a quem só quer lucro?»
Faz uma pausa. Olha-nos nos olhos.
«A liberdade sem soberania é uma jaula com a porta aberta — mas com o chão minado. E nós estamos a andar nesse chão há demasiado tempo.»
Fala da classe trabalhadora. Não como abstração — como gente. Os que fazem turnos, os que entregam refeições, os que limpam escritórios, os que cuidam dos nossos velhos. «São eles que sustentam isto tudo. E são eles que continuam a ser tratados como números.»
Sobre a extrema-direita, não perde tempo com panos quentes. «O Chega não caiu do céu. Alimentaram-no o PS e o PSD, com a austeridade, com a miséria, com a mentira. A burguesia, quando já não lhe serve a democracia, saca do autoritarismo. Já o vimos antes. Não nos apanharão a dormir outra vez.»
Sobre a UE e a NATO, é fogo puro. «Não temos voz. Não temos voto. Somos quintal. Somos base militar. Somos carne para canhão de guerras que não são nossas. E ainda nos pedem para agradecer. Basta. Rompemos. Ou continuamos a ser colónia de nós mesmos?»
E depois, como sempre, aponta o caminho. Sem hesitar.
«Ruptura com a NATO e com a UE. Nacionalização do que é estratégico. Salários e pensões que deem dignidade. Serviços públicos nas mãos do povo. Reforma agrária. Solidariedade com quem luta — na Palestina, em África, na América Latina. E o socialismo, camaradas. Sem medo da palavra. Sem pedir licença.»
Silencia-se. E depois, mais baixo, quase íntimo:
«Aos jovens, digo-vos: não fujam. Lutem. Este país também é vosso. Aos trabalhadores: organizem-se. A força está na união. Aos comunistas: não se vendam. A fidelidade aos princípios não é teimosia — é a única forma de não trairmos o povo.»
E termina, como quem deixa uma chama acesa:
«O futuro não está escrito. Será o que soubermos conquistar.»
Nota: Este texto é uma reconstituição imaginária, da minha autoria, inspirada no pensamento e nos ensinamentos de Álvaro Cunhal. Não é um texto dele, nem do PCP. É um exercício de imaginação política: o que diria ele se estivesse aqui, em 2025, a olhar para Portugal.)

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