Se ninguém pode imaginar o que é ser Cristiano Ronaldo e, nesse sentido, o seu julgamento pode ser uma tarefa hercúlea e injusta, por outro lado o abandono do estágio da seleção após conferência de imprensa do selecionador apenas tem uma palavra: inconcebível.
Pergunta direta: será que Cristiano Ronaldo pensava que fazia a Jorge Jesus o mesmo que fazia a Roberto Martinez? Será que Cristiano Ronaldo acha mesmo que Jorge Jesus é o tipo de treinador que engole sapos e se deixar levar por este ou aquele frete? Será que Cristiano Ronaldo é parvo? Não, não é.
Se amuar sem razão acontece a todos e ninguém tem legitimidade para atirar a primeira pedra não sabendo o que é ser Cristiano Ronaldo no dia-a-dia, há limites para tudo. É que a reação de CR7 tem tudo de impulsiva e nada de premeditada. Tem tudo de birra e nada de critério. Tem tudo de disparatada e nada de harmoniosa, até pelo respeito que se deve ter em relação a alguém cuja dimensão desportiva, humana e social é inquestionável.
Porque tudo isto é verdade. Mas dá-se razão a Miguel Sousa Tavares. O Cristiano Ronaldo tem um ego imenso, que ultrapassa os próprios limites de uma seleção cujos intervenientes – selecionador e Rúben Dias – apareceram publicamente a defendê-lo minutos antes da irracional debandada. Sendo que também não se percebe parte da questão: então a célebre conversa entre Jorge Jesus; Pedro Proença e o próprio CR7 deixou de parte a mensagem principal: de que Cristiano Ronaldo não entraria de início diante da Dinamarca?
E, verdade seja dita, nada pode ser apontado a Jorge Jesus. Ao seu jeito gramaticalmente desleixado mas genuíno, o selecionador foi sempre coerente na descrição exata daquele que seria o papel de CR7 durante o seu legado: se tiver rendimento, joga; se não tiver, não joga. Ponto final. E se CR7 não aceita, azar. Não há exceções para ninguém, nem legados colocam este ou aquele a jogar. E até esteve bem no reconhecimento de um estatuto que lhe confere um determinado número der mordomias. Mas nenhuma mordomia pode ultrapassar o mais alto desígnio que representa vestir a camisola da seleção.
O impulso de Cristiano Ronaldo faz com que dificilmente volte à equipa nacional e, diga-se, o melhor mesmo é não voltar. O impulso de Cristiano Ronaldo ratifica que a melhor decisão teria sido o abandono após o final do mundial, obedecendo à premissa de que o tempo passa por todos e, desportivamente falando, o craque já não tem condições para ser titular, até porque as valências de Gonçalo Ramos – sobretudo pressão alta e reação à perda – são essenciais nesta altura de transição, em que o talento do miolo tem de ser potenciado e a equipa nacional ajustada à exponenciação do potencial que deverá ter a breve trecho.
E Cristiano não fica bem na fotografia também na mensagem publicada nas redes sociais: a seu tempo tudo se saberá. É certo que as reações a quente saem sempre enviesadas. Devem ser evitadas. O pensamento a frio é amigo da sensatez. Mas o comunicado foi o pior possível: agigantou ainda mais a nuvem de dúvidas existente, num conjunto de frases politicamente corretas, vazias, e com o único intuito de servirem de tampão muito giro enquanto não se encontra um argumento mais racional e que possa colocar a opinião pública do lado do craque. Se isso for possível. O que não parece.
A opinião pública, essa, fica refém da tal nuvem que se adensou. Que se agigantou. Se a gratidão e o reconhecimento são infindáveis, as atitudes birrentas tolhem tudo o que está para trás e mancham uma saída que deveria ser airosa e repleta de entusiasmo. É que a atitude de Cristiano Ronaldo colocou o povo numa situação complicada. Numa barricada onde ambos os lados têm razão e, ao mesmo, também não têm. Ou a razão não existe. E o melhor mesmo é fazermo-nos todos de parvos e fingir que nada vimos. Que nada sentimos. Lembrarmo-nos do CR7 de outrora, que sozinho eliminou a Suécia e nos levou ao Brasil. Ou que foi o astro-mor na conquista do europeu. Naquele 30 de setembro todos os portugueses foram inteligentemente parvos. Nada viram. Nada sentiram. Apenas aplaudiram o melhor jogador português de sempre enquanto este regressou á sua saudita carapaça milionária. Onde o seu ego dita leis.
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