Rádio Freamunde

https://radiofreamunde.pt/

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

O elfo de Espinho e o milagre dos pães imobiliários:

(Luís Rocha, in Facebook, 04/11/2026, Revisão da Estátua)

Tinha eu reservado o postalinho de hoje para dar uns calduços valentes naquele agrobeto militante do Coiso, criatura espampanante que sonhava ser bombista nas horas vagas, mas eis que o Elfo de Espinho resolveu ocupar o horário nobre das televisões. Há prioridades que não se escolhem, meus caros. E quando o primeiro-ministro decide de repente falar à nação, até o agrobeto do Coiso pode esperar mais um bocadinho na gaveta das insignificâncias.

Lá apareceu o homem no ecrã, com aquele ar enfatuado de quem vem explicar aos portugueses que a culpa da desgraça habitacional é exclusivamente deles, mas que o Governo está a trabalhar arduamente para lhes tornar a existência ainda mais interessante. ~

Foi uma comunicação penosa, cheia de números mágicos, promessas piedosas e daquela segurança muito própria de quem confunde a nobre arte de governar um país com a apresentação de uma lista de cantores pimba para abrilhantar o magusto de São Martinho.

Montenegro falou de habitação, de jovens, de casas, de rendas e de tudo o que o seu executivo tem feito para resolver um problema que, caprichosamente, continua a crescer a olhos vistos mesmo debaixo do seu nariz.

Anunciou cento e trinta mil jovens apoiados na compra da primeira casa, quarenta mil com financiamento a cem por cento, dezenas de milhares de habitações entregues ou previstas no papel, apoios às rendas e um aumento exponencial das licenças de construção. Uma autêntica fartura estatística. Só faltou mesmo explicar em que partes do país estão escondidas essas casas, e em que planeta remoto vivem os jovens que ganham o suficiente para conseguir comprá-las.

O problema da habitação, pelos vistos, está praticamente resolvido nos delírios do ministério.

Na vida real, há quem trabalhe que nem um mouro, pague impostos escandinavos e simplesmente não consiga arrendar um quarto digno sem entregar metade do seu ordenado líquido. Mas isso, claro, deve ser uma mera questão de falta de otimismo crónico da populaça.

Talvez o Governo esteja a preparar um apoio psicológico gratuito para quem insiste na loucura de procurar casa com os preços simpáticos do mercado.

Depois veio a habitual conversa fiada sobre a reforma da lei do arrendamento. O Governo quer mexer, simplificar, dinamizar, libertar o mercado e outras palavras fofas que costumam aparecer quando alguém pretende facilitar a vida a quem já tem a vida bastante facilitada. Os inquilinos que se preparem e comecem a rezar aos santinhos. A solução milagrosa para a crise da habitação continua a ser dar mais confiança aos proprietários, como se a confiança herdada fosse uma chave mestra e o mercado imobiliário um senhorio simpático que só precisasse de um pequeno incentivo fiscal para baixar voluntariamente a renda ao pessoal.

E Montenegro não recuou um milímetro. Nem pediu desculpa pelos falhanços. Nem pareceu particularmente preocupado com a contestação social que tomou conta das ruas das grandes cidades. Pelo contrário, manteve aquele tom de professor zangado e altivo que está convencido de que a turma não percebe a matéria porque é burra e não estudou o suficiente. O país tem uma crise habitacional galopante, mas o primeiro-ministro parece ter apenas uma profunda falta de noção e de leitura da sala.

Também não houve grande esclarecimento sobre a atuação musculada da polícia nas acampadas de Lisboa e do Porto. Houve apenas conversa política de conveniência, encontros anunciados e uma disponibilidade repentina e comovente para falar com o PS e com o Coiso. O que é sempre reconfortante para o cidadão comum.

Quando a contestação social aperta nas ruas, o Governo descobre subitamente que o diálogo é uma coisa muito bonita, desde que seja feito com os partidos certos, à hora marcada e sem povo a estorvar.

A reação dos partidos da oposição também não trouxe propriamente uma surpresa ao panorama. O PS criticou por desporto, o Coiso aproveitou para fazer o seu habitual número de circo, a IL tratou de defender a sua cartilha liberal patética e os restantes partidos apontaram as insuficiências gritantes de uma política que continua a não responder à real dimensão do problema.

Cada um fez o seu papel coreografado. A diferença entre eles é que há quem esteja a discutir a vida das pessoas comuns e há quem pareça estar apenas a discutir a melhor maneira de as convencer de que vivem muito melhor do que aquilo que julgam.

Mas o mais espantoso de isto tudo é a persistência na alucinação. Montenegro fala ao país como se estivesse a apresentar resultados extraordinários de uma multinacional de sucesso, enquanto milhares de pessoas continuam sem conseguir encontrar uma nesga de casa que possam pagar com os seus salários de miséria. A cada intervenção pública, surgem mais números. A cada número atirado aos olhos, mais uma promessa.

E a cada promessa, impõe-se a mesma pergunta. Se está tudo a correr tão bem na propaganda, por que raio é que continua tudo tão mal na realidade?

Este personagem arrisca-se seriamente a ficar para a História como o pior primeiro-ministro de sempre, ultrapassando com distinção até Santana Lopes, que já tinha deixado a fasquia da anedota política num patamar bastante respeitável.

As declarações de ontem estiveram ao nível de uma conferência de imprensa de Roberto Martínez. Muito discurso formatado, muita convicção artificial, uma quantidade impressionante de palavras ocas e, no fim, a nítida sensação de que ninguém percebeu exatamente o que acabou de ouvir, mas fomos todos aldrabados com um sorriso no rosto.

É uma chatice monumental termos de voltar sempre à estaca zero quando o país precisa desesperadamente de avançar.

Mas não podemos continuar a perder tempo precioso.

Esta tralha governativa tem de sair rapidamente, porque não há um único ministro que se aproveite naquela bancada e o país não pode ficar eternamente à espera que o Elfo acabe de contar as casas que ainda não existem em lado nenhum.

Ontem foi mais uma noite na vida do Elfo de Espinho. Falou à nação, apresentou os seus números virtuais, distribuiu promessas gasosas e foi dormir de consciência tranquila.

Os portugueses ficaram com a parte mais difícil e fustigante do costume. Tentar encontrar uma casa para morar que consigam pagar, antes da próxima comunicação oficial do regime.

Beijinhos e até à próxima…

Referências consultadas

https://www.portugal.gov.pt/…/habitacao-governo-reforca…

https://www.rtp.pt/…/montenegro-chama-ps-e-chega-para…

https://www.dn.pt/…/montenegro-anuncia-reunies-com…

https://www.noticiasaominuto.com/…/ao-minuto-luis…

https://eco.sapo.pt/…/montenegro-fala-ao-pais-sobre…

Do Blogue Estátua de Sal 

Sem comentários:

Enviar um comentário