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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Um Governo desesperado em busca da “subversão”:

 (Ana Sá Lopes, in newsletter do Público, 29/10/2026)

Cara leitora, caro leitor

O leitor quer uma subversão? Não quer, pois não? A esmagadora maioria das pessoas, nomeadamente quem se tem manifestado nas praças pelo direito à habitação, também não quer as suas cidades a ferro e fogo.

Quem viu a manifestação em frente à Assembleia da República percebeu que ninguém queria subversão nenhuma e se a “extrema-esquerda” valesse aquilo estaria representada com certeza na Assembleia da República a ocupar muitos gabinetes e cadeiras na sala do plenário.

O que sabemos é que o Governo quer a subversão. Está empenhado nisso, com a ajuda de algumas pessoas que não estão no Governo, de comentadores variados e de alguns militantes do PS agora úteis para engordarem a narrativa da subversão e que passaram a viver mentalmente no PREC.

Mário Soares, neste momento, saberia onde deveria estar. Sempre soube. Esteve contra a Terceira Via de Tony Blair (prevendo com muita antecedência a miséria que iria acontecer aos partidos socialistas na Europa) e esteve contra as políticas da troika que tratou a crise financeira como uma forma de humilhação dos países mais frágeis.

Se fosse vivo, Mário Soares teria saído da sede da sua fundação, mesmo em frente à Assembleia da República, e aparecia a saudar os manifestantes. Conheci muito bem Mário Soares para saber que era exactamente isso que ele faria. Quem o conheceu de perto sabe isto perfeitamente.

No estado em que as sondagens colocam o PSD, uma subversãozinha vinha a calhar. Se houver subversão, o Governo cumpre o papel da “ordem” e o povo vai, agradecido, dizer aos estudiosos de opinião que vai votar PSD nas próximas eleições.

Esta é a única explicação com o mínimo de lógica política, embora seja imoral e irresponsável, para a escalada do discurso contra os manifestantes feita pelo Governo e pelo PSD e que visa semear o ódio.

A estratégia do ódio tem imediato sucesso junto do Chega (veja-se o deputado que disse sobre os manifestantes “encostem-nos à parede”, entre uma quantidade enorme de ignomínias que vieram daquele lado). Só que o Chega não precisa do PSD e do CDS para espalhar ódio e se o PSD julga que vai buscar um voto ao Chega com isso está a viajar na maionese.

É provável que o eleitorado social-democrata que não se revê em discursos de demonização do outro pense numa alternativa — talvez o PS, que é mais próximo e que tem tido, globalmente e através da sua direcção política, uma atitude em defesa da democracia.

Talvez parte do eleitorado do PSD vá votar na Iniciativa Liberal, cuja líder, Mariana Leitão, mostrou que não é só defensora do liberalismo económico, mas também defensora do liberalismo político.

Mariana Leitão não está de acordo com todas as reivindicações dos manifestantes — uma é o chumbo da lei do arrendamento que a Iniciativa Liberal aprovou. Mas teve uma declaração de decência política na sequência da inominável carga policial que poderá fazer o eleitor mais à direita que não gosta de ver a polícia a dar “porrada” em pessoas pacíficas (na grande expressão de João Maria Jonet) a identificar-se com o seu partido: “A repressão não é aceitável nem resolve nada. A única solução de um Estado que falha em quase tudo, perante quem protesta o falhanço nas políticas públicas de habitação, não pode ser usar a sua força repressiva sob a forma de cassetete.” Estes discursos à direita têm feito falta.

Estamos numa situação grotesca em que um Governo está acossado, a morrer nas sondagens, e a desejar ardentemente uma “subversão” que o traga de volta à vida. Se calhar é a única coisa que resta a um Governo muito fragilizado. Se o caos não vier, como não veio até agora, resta-lhe a morte lenta.

A outra tentativa de explicação já entra no domínio da psicanálise, a pulsão de morte freudiana — o conceito é complexo, mas a auto-sabotagem é uma das formas em que se pode manifestar.

Neste debate do Orçamento, a táctica gizada pelo Governo teve um momento alto com um discurso radicalizado do primeiro-ministro que evitou ao máximo tentar apaziguar o ambiente político (só a guerra lhe interessa agora).

Leitão Amaro, o ministro que usou a palavra “subversão”, reconheceu, vá lá, que não se aplicava à maioria dos manifestantes. “Não confundimos quem discorda ou se manifesta pacificamente com os poucos que usam a subversão e incitam à violência”. Ora, onde existiu esse incitamento à violência? No vídeo propagandístico que a PSP pôs a circular depois do Presidente Seguro ter dito que “não gostou do que viu”, percebe-se que só depois da polícia de choque se ter atirado sobre os manifestantes houve reacções de violência. Foi depois, não foi antes.

Nuno Melo, o ministro que não quer pessoas com sotaque brasileiro nas manifestações, sonha com a revolução francesa e o PREC – Processo Revolucionário em Curso. Podemos percebê-lo, a nostalgia é uma coisa tramada. Nas eleições legislativas de 1976, o CDS teve quase 16% dos votos e elegeu 42 deputados. A diferença é que agora não há PREC nenhum nem CDS quase nenhum.

Nuno Melo acha que a Praça de D. Pedro IV, em Lisboa, e a Praça D. João I, no Porto, são agora cenários para a “tomada da Bastilha” — “Há quem queira a praça D. João I no Porto ou o Rossio em Lisboa transformados na Bastilha em Paris e nós queremos Portugal poupado à loucura”. “Não faltou quem ali não queira outra coisa que não seja a democracia popular, com a turba a decidir em assembleias de rua à volta de jargões trotskistas”, disse ainda Nuno Melo. Que Nuno Melo diga estas coisas é compreensível. Agora, ver uma quantidade enorme de pessoas com vendas nos olhos, algumas delas inteligentes, a achar que as “assembleias populares” das manifestações significam que o “poder popular” do PREC está quase a tomar o poder em Portugal mostra que já há muitos cidadãos deste país a viver numa realidade paralela.

Se calhar, tal como Nuno Melo, também têm genuínas saudades do PREC, não pelo processo em si, mas pelo que significou na época, politicamente, nas suas vidas, ainda que fossem crianças. Mesmo entre os cidadãos à direita dos “revolucionários” de 1975, o PREC pode também ter sido um “sonho lindo que acabou”, como cantava José Mário Branco. A nostalgia, mesmo do que não se gosta, pode levar-nos a compulsões esquisitas.

E acabei de entrar na psicocracia…

Aqui há dias, no festival Fólio de Óbidos, gravei um episódio isolado do podcast do PÚBLICO O que fazer quando tudo arde com José Manuel dos Santos, director da revista Electra. O José Manuel dos Santos é um dos homens mais inteligentes e cultos que conheço, antigo assessor cultural dos Presidentes Mário Soares e Jorge Sampaio, e nunca quis ser ministro da Cultura, apesar de ter sido convidado, para nosso mal (e bem dele provavelmente).

Um dos últimos números da Electra é dedicado à “psicocracia” e a conversa andou sobre o crescente abandono de conceitos de classe, de bem e de mal, para concepções psicológicas. Dizer “Trump é louco” não tem o mesmo valor político de “Trump é malvado”. A conversa está disponível no site do PÚBLICO, em áudio e em vídeo, e pode ser ouvida nas plataformas habituais de podcasts.

Falo disto aqui porque nesta newsletter, parcialmente, alinhei na psicocracia para descrever o comportamento de alguns actores políticos. Talvez, de facto, nos devamos ficar pela distinção entre o bem e o mal.

Obrigada por me ler! Até para a semana.

Do Blogue Estátua de Sal

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