Enquanto Portugal enfrenta uma crise habitacional que empurra cada vez mais pessoas para a rua, enquanto há famílias que não conseguem pagar uma renda, trabalhadores que perdem o emprego, doentes que esperam interminavelmente por uma consulta e idosos que vivem sem o apoio de que precisam, o Presidente da República, António José Seguro, encontra tempo para discutir com Zelensky a possibilidade de produção conjunta de armamento.
Há uma questão que merece ser colocada: onde ficam as prioridades de um país quando os seus próprios problemas sociais parecem ficar sempre para depois? Portugal precisa de casas, de um Serviço Nacional de Saúde capaz de responder às necessidades da população, de melhores condições para os trabalhadores, de estruturas de apoio aos idosos e de uma política séria de combate à corrupção e aos interesses instalados.
Precisa também de uma voz institucional que não alimente a escalada militar, que defenda a diplomacia e que faça da paz um objectivo político, em vez de aceitar que a Europa se habitue à guerra como se esta fosse uma inevitabilidade.
O Presidente da República não governa, é verdade. Mas tem influência, tem voz e tem responsabilidades na defesa dos interesses nacionais. E seria desejável que essa influência fosse usada também para chamar a atenção do Governo para aquilo que está a falhar dentro das nossas próprias fronteiras. Quando se senta á mesa com Zelensky - que apenas mantêm o cargo porque usa a Lei Marcial para não realizar eleições - qual a mensagem que Seguro passa à população portuguesa?
Essa mensagem é: "tudo o que nos interessa é fazer armas e gastar dinheiro com a guerra dos outros e tudo o que de errado está presente em Portugal não interessa resolver".
Que verbas imensas seriam destinadas à consolidação de maior poder industrial de armamento - fosse pelas oficinas do Estado, fosse pela apoio financeiro (habitual) a privados da industria portuguesa de armamento? Porque se querem investir centenas de milhões de euros numa industria de morte, quando as necessidades de melhor vida são evidentes?
Afinal, para que servem tantos discursos sobre segurança europeia se continuamos incapazes de garantir segurança social a quem vive em Portugal? Antes de pensar em fabricar mais armas, talvez fosse altura de pensar em construir mais casas, proteger quem trabalha, cuidar de quem envelhece e devolver alguma esperança a quem já perdeu quase tudo.
Essas, sim, são prioridades portuguesas.

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