E antes de começar, deixem-se de obsessões partidárias e de impulsos para comentar sem antes pensar. Veio hoje Sebastião Bugalho, porta-voz do PSD, dizer que o líder parlamentar do PS extravasou os limites ao classificar o ministro da Educação como candidato a pior ministro desde o 25 de Abril. Ficou estarrecido, diz ele. Estarrecido. Bonita palavra
. Tem de haver limites, diz ele.
Vamos lá então falar de limites, mas dos que interessam.
Estamos em setembro de 2026, o ano letivo a arrancar, e há centenas de alunos sem colocação no ensino público. No ensino obrigatório. Obrigatório significa que o Estado é obrigado a garanti-lo. Não é um favor nem uma opção. É uma obrigação constitucional.
Já há pais a avançar com um processo contra o Ministério da Educação porque os filhos não têm escola. E a resposta do ministro foi a do costume, de não assumir nada e mandar investigar as escolas, os diretores e os professores... e talvez as próprias crianças e jovens. Sempre os outros. Nunca ele. E isto a seguir à barafunda dos exames, que ninguém esqueceu.
Este é que é o limite que foi extravasado. E não foi por ninguém do PS.
E agora reparem no que o "aprendiz da vida" Bugalho disse, sem dar por isso. Que espera que o PS peça desculpa ao ministro quando todos os alunos tiverem escola. Ou seja, admitiu ele próprio que hoje não têm. No meio da indignação toda, deu razão a quem estava a criticar.
E deixou-se aqui uma coisa extraordinária no ar, é que deixou de ser escândalo que centenas de crianças não tenham escola. O escândalo passou a ser dizê-lo em voz alta. Extraordinário.
Quanto ao pedido de desculpa, sejamos claros. Colocar todos os alunos não é proeza nenhuma. É o mínimo. É o que sempre aconteceu neste país, ano após ano, com governos de todas as cores. Houve sempre um caso ou outro, como é natural num sistema com mais de um milhão de alunos. O que nunca aconteceu foi isto. Não há desculpa a pedir a ninguém. Há uma obrigação a cumprir. E obrigações não se aplaudem, cumprem-se.
A pergunta que interessa é quando. Porque cada semana que passa é uma semana de aulas que uma criança perde e nunca mais recupera.
E aqui está a diferença entre quem conhece a vida e quem a comenta. O "aprendiz da vida" Bugalho fala de números. Eu falo de pessoas, porque são elas que me aparecem à frente.
Conheço um rapaz, aqui da minha zona, que saiu de um colégio e ia agora entrar para o décimo ano. Está prestes a começar o ano letivo e não tem escola atribuída. Não tem. Não é um dado estatístico, não é um processo, não é uma linha num relatório. É um miúdo de quinze anos que não sabe para onde vai na segunda-feira.
E não é só ele. São mães e pais que me param na rua, que me batem à porta da Junta, que me telefonam. Gente real, com nome, com cara, com um filho em casa sem saber o que lhe vai acontecer.
É esta a diferença. Uns conhecem o país por relatórios e por estúdios de televisão. Outros conhecem-no porque estão lá, todos os dias, a ouvir aquelas famílias.
E é por isso que a última nota tem de ser sobre quem veio hoje dar-nos lições.
Estamos a falar de um aprendiz de política e da vida, claro. De um menino que ainda mal viu a vida acontecer, que nunca geriu nada, nunca respondeu perante ninguém, nunca teve à sua frente uma mãe a perguntar-lhe onde é que o filho vai estudar. E que ainda assim se sente autorizado a distribuir lições a quem anda nisto há décadas. E mesmo que não ande, que tem o mais importante, a vivência, a relação de comunidade e de proximidade às pessoas.
Um "aprendiz" que construiu nome a comentar política do conforto de um estúdio, a apontar o dedo a toda a gente e a jurar que era isento. Isento, dizia ele. E depois, sem lhe terem sequer dado tempo de acabar de tirar as fraldas da vida de comentador, já lá estava agarrado a uma candidatura e a assinar a ficha de militante do partido que hoje representa.
Da isenção à cor do cachecol foi um pulo. E não foi um pulo de atleta. Foi um pulo de quem já sabia onde ia cair. Mas atenção, ser de um partido não tem mal nenhum, muito pelo contrário. Ao contrário da ideia que se instalou na sociedade, pertencer a um partido é um ato de disponibilidade para com o próximo, e das missões mais nobres que existem. Mal tem é andar a comentar política a jurar isenção e, no minuto seguinte, aparecer com a ficha de militante assinada. E mesmo com a ficha de militante assinada, conseguimos ser isentos e pensar pela própria cabeça e não pela cabeça do partido.
Meu caro Bugalho, limites são o que se respeita quando ninguém está a ver. Não é o que se invoca à pressa quando é o nosso lado que está a levar.
Eu não fico estarrecido com palavras. Fico estarrecido com um rapaz de quinze anos que não sabe para que escola vai na segunda-feira. E este é apenas um exemplo entre muitos que lhe podia dar. Mas o meu caro Bugalho não conhece nenhum, e não conhece porque não anda na rua, não atende ninguém, e a vida real só lhe chega depois de passar por um estúdio.
Isso é que devia estarrecer toda a gente. E devia estarrecer, sobretudo, quem tem o poder de o resolver.
Pensem pela vossa própria cabeça. Sempre.
Ricardo Lima

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