Assim estamos. A coisa deu a volta completa, passando pelo ponto de partida. Temo pelo dia, que até me parece possível (vejam-se as eleições que fizeram Trump voltar à Casa Branca...), em que a maioria das pessoas vai preferir (à esquerda e à direita), ou vai só receber, graças ao todo-poderoso algoritmo, as fontes de informação cheias de falsidades que lhes alimentam uma visão do mundo e os seus preconceitos e vai desconfiar do jornalismo profissional - que aí anda, ainda, em jornais, documentários, rádio, online, com grande qualidade e com regras - tipo... não mentir deliberadamente.
Umas de maior importância que outras. Outrora assim acontecia. É por isso que gosto de as relatar para os mais novos saberem o que fizeram os seus antepassados. Conseguiram fazer de uma coutada, uma aldeia, depois uma vila e, hoje uma cidade, que em tempos primórdios se chamou Fredemundus. «(Frieden, Paz) (Munde, Protecção).» Mais tarde Freamunde. "Acarinhem-na. Ela vem dos pedregulhos e das lutas tribais, cansada do percurso e dos homens. Ela vem do tempo para vencer o Tempo."
Rádio Freamunde
https://radiofreamunde.pt/
segunda-feira, 14 de setembro de 2026
A volta completa; O CASO IRENEU:
Eu lembro-me como começou a moda das fake news nas redes sociais. Com um tom de humor, de engraçadismo, tipo "imprensa falsa" ou, mal comparado, o "Inimigo Público". Se não aconteceu podia ter acontecido, ah ah ah. Ah. E a moda do ‘jornalista-cidadão’: olhe aqui este site tão bonito, escreva o que quiser, seja o verdadeiro ‘jornalista independente’! Rapidamente se percebeu o perigo que se agigantava. Não faltou muito até que essas notícias falsas, ou manipuladoras, com agenda, sempre imitando o melhor possível o layout das verdadeiras notícias feitas por jornalistas profissionais, se espalhassem, provocassem debate e comentários entendidas por muita gente como verdadeiras, chegassem a marcar agendas e perceções. Criaram-se sites especializados no assunto. Os Bannons/Trumps desta vida viram o grande potencial desses conteúdos nesta poderosa ferramenta das redes.
Esse ambiente tóxico e pútrido (bem resumido na palavra sempre usada pelos que passaram a confiar mais nesses conteúdos do que no jornalismo: Jornalixo!) fez o seu caminho, como sabemos, e... chegou aos media tradicionais, os tais que têm jornalistas profissionais, com regras, com um estatuto e um código deontológico a defender.
Ireneu Teixeira é um excelente exemplo desse fenómeno. De repente ali estava ele, diariamente, quase uma hora, sem contraditório. "Recebi este vídeo no wattsapp...", dizia. "Não tive tempo de confirmar se era verdadeiro...", desculpava-se, depois, quando era confrontado com as mentiras e falsidades que espalhava no seu "comentário".
-"Está aqui este vídeo do que se está a passar agora em Ceuta!", gritava, alarmista. O vídeo era de Toulouse, há uns anos.
-"Esta mulher, esta cantora, foi enforcada no Irão!". Afinal, a cantora estava viva.
-"Judeu que entre no Irão é um homem morto!" (esta ouvi eu). Esquece-se que há no Irão muito antigas comunidades judaicas, e nesta estúpida guerra até foi destruída uma sinagoga num ataque israelo-americano.
-"No Mercadona os imigrantes andam a comprar ingredientes para fazerem bombas!". Disparate logo desmentido.
-"Este vídeo é sobre a Rússia de Putin". Era de 2014, sobre o Estado Islâmico...
-"Os Filipes que estiveram cá até serem corridos pela Padeira...". Mas qual padeira? A de Aljubarrota, em 1640?! Sem comentários.
-"O jornalismo está dominado pela extrema esquerda!"
E mais, mais, mais...
É um subproduto, com praticamente nada de jornalístico, a chegar a um canal noticioso - há uns anos não aconteceria, pelo menos com esta extensão. Diariamente. Sem contraditório. O canal Now até devia ainda explicar porque é que isso aconteceu, porque é óbvio que aquele homem, que deve ter jeito para algumas coisas, não tem as mínimas competências para analista político internacional, e até se atrapalha a dizer "multiculturalismo" e outras palavras com mais de três sílabas.
Acredito que porque tudo isto já estava a ser uma vergonha gritante para o Now, o canal resolveu terminar com essa presença diária (mas manteve um comentário de Ireneu aos domingos...).
E o que aconteceu? Aquelas tais redes que se alimentam de fakes, conspirações, manipulações, semiverdades e preconceitos (muitas delas com nomes a querer fingir credibilidade, tipo "Diário Expresso" e coisas assim) vieram, em uníssono, numa campanha orquestrada, e com muitos bots nos comentários, clamar pela grave censura do afastamento de Ireneu, o único jornalista que "dizia as verdades!", o "melhor de todos", aquele que, claro, incomodava "o sistema" e teve que ser calado! O Now passou a ser um canal esquerdalho que todos deviam cancelar!
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