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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

A volta completa; O CASO IRENEU:

Eu lembro-me como começou a moda das fake news nas redes sociais. Com um tom de humor, de engraçadismo, tipo "imprensa falsa" ou, mal comparado, o "Inimigo Público". Se não aconteceu podia ter acontecido, ah ah ah. Ah. E a moda do ‘jornalista-cidadão’: olhe aqui este site tão bonito, escreva o que quiser, seja o verdadeiro ‘jornalista independente’! Rapidamente se percebeu o perigo que se agigantava. Não faltou muito até que essas notícias falsas, ou manipuladoras, com agenda, sempre imitando o melhor possível o layout das verdadeiras notícias feitas por jornalistas profissionais, se espalhassem, provocassem debate e comentários entendidas por muita gente como verdadeiras, chegassem a marcar agendas e perceções. Criaram-se sites especializados no assunto. Os Bannons/Trumps desta vida viram o grande potencial desses conteúdos nesta poderosa ferramenta das redes.
Esse ambiente tóxico e pútrido (bem resumido na palavra sempre usada pelos que passaram a confiar mais nesses conteúdos do que no jornalismo: Jornalixo!) fez o seu caminho, como sabemos, e... chegou aos media tradicionais, os tais que têm jornalistas profissionais, com regras, com um estatuto e um código deontológico a defender.
Ireneu Teixeira é um excelente exemplo desse fenómeno. De repente ali estava ele, diariamente, quase uma hora, sem contraditório. "Recebi este vídeo no wattsapp...", dizia. "Não tive tempo de confirmar se era verdadeiro...", desculpava-se, depois, quando era confrontado com as mentiras e falsidades que espalhava no seu "comentário".
-"Está aqui este vídeo do que se está a passar agora em Ceuta!", gritava, alarmista. O vídeo era de Toulouse, há uns anos.
-"Esta mulher, esta cantora, foi enforcada no Irão!". Afinal, a cantora estava viva.
-"Judeu que entre no Irão é um homem morto!" (esta ouvi eu). Esquece-se que há no Irão muito antigas comunidades judaicas, e nesta estúpida guerra até foi destruída uma sinagoga num ataque israelo-americano.
-"No Mercadona os imigrantes andam a comprar ingredientes para fazerem bombas!". Disparate logo desmentido.
-"Este vídeo é sobre a Rússia de Putin". Era de 2014, sobre o Estado Islâmico...
-"Os Filipes que estiveram cá até serem corridos pela Padeira...". Mas qual padeira? A de Aljubarrota, em 1640?! Sem comentários.
-"O jornalismo está dominado pela extrema esquerda!"
E mais, mais, mais...
É um subproduto, com praticamente nada de jornalístico, a chegar a um canal noticioso - há uns anos não aconteceria, pelo menos com esta extensão. Diariamente. Sem contraditório. O canal Now até devia ainda explicar porque é que isso aconteceu, porque é óbvio que aquele homem, que deve ter jeito para algumas coisas, não tem as mínimas competências para analista político internacional, e até se atrapalha a dizer "multiculturalismo" e outras palavras com mais de três sílabas.
Acredito que porque tudo isto já estava a ser uma vergonha gritante para o Now, o canal resolveu terminar com essa presença diária (mas manteve um comentário de Ireneu aos domingos...).
E o que aconteceu? Aquelas tais redes que se alimentam de fakes, conspirações, manipulações, semiverdades e preconceitos (muitas delas com nomes a querer fingir credibilidade, tipo "Diário Expresso" e coisas assim) vieram, em uníssono, numa campanha orquestrada, e com muitos bots nos comentários, clamar pela grave censura do afastamento de Ireneu, o único jornalista que "dizia as verdades!", o "melhor de todos", aquele que, claro, incomodava "o sistema" e teve que ser calado! O Now passou a ser um canal esquerdalho que todos deviam cancelar!

Assim estamos. A coisa deu a volta completa, passando pelo ponto de partida. Temo pelo dia, que até me parece possível (vejam-se as eleições que fizeram Trump voltar à Casa Branca...), em que a maioria das pessoas vai preferir (à esquerda e à direita), ou vai só receber, graças ao todo-poderoso algoritmo, as fontes de informação cheias de falsidades que lhes alimentam uma visão do mundo e os seus preconceitos e vai desconfiar do jornalismo profissional - que aí anda, ainda, em jornais, documentários, rádio, online, com grande qualidade e com regras - tipo... não mentir deliberadamente.

Pedro Dias de Almeida 

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