Desde o início da guerra na Ucrânia, o debate público tem-se concentrado sobretudo nas suas dimensões militares, diplomáticas e humanitárias. No entanto, há quem defenda que existe uma outra guerra em curso: uma guerra económica cuja principal vítima poderá ser a própria Europa.
Antes de 2022, a União Europeia dependia significativamente das importações russas para satisfazer as suas necessidades energéticas e industriais. Entre os produtos mais relevantes encontravam-se o carvão, o gás natural, o petróleo, os fertilizantes, o níquel, o paládio, a alumina e vários metais fundamentais para a produção industrial. Em alguns casos, a Rússia fornecia cerca de metade das necessidades europeias destes recursos.
Com a implementação das sanções económicas e a redução das relações comerciais diretas entre a Europa e a Rússia, o objetivo era diminuir a dependência europeia e pressionar economicamente Moscovo. Contudo, segundo os críticos desta estratégia, o resultado prático foi diferente do esperado.
O papel dos intermediários
Um dos argumentos frequentemente apresentados é que muitos dos recursos que anteriormente eram comprados diretamente à Rússia continuam a chegar ao mercado europeu através de países terceiros. China, Índia, Arábia Saudita e outros mercados assumiram o papel de intermediários, adquirindo matérias-primas russas para posteriormente as revenderem à Europa.
Neste cenário, a Europa continua a consumir grande parte dos mesmos produtos, mas a preços substancialmente mais elevados. O exemplo do Gás Natural Liquefeito (GNL) é frequentemente citado: antes das sanções, os preços situavam-se entre 15 e 20 euros por megawatt-hora, enquanto atualmente os custos podem ser várias vezes superiores.
Os defensores desta análise argumentam que esta nova cadeia de abastecimento beneficia simultaneamente a Rússia, que encontra novos compradores, e os intermediários, que obtêm margens significativas na revenda. O custo acrescido recai, em última análise, sobre consumidores e empresas europeias.
Consequências para a indústria europeia
O aumento dos custos energéticos e das matérias-primas tem tido repercussões na competitividade industrial da Europa. Sectores intensivos em energia, como a produção de alumínio, aço, fertilizantes e químicos, enfrentam desafios particularmente difíceis.
Quando a energia elétrica e as matérias-primas se tornam mais caras do que noutras regiões do mundo, a produção industrial europeia perde competitividade. Algumas empresas reduzem a produção, outras transferem operações para países com custos mais baixos, enquanto outras encerram definitivamente.
Esta realidade é frequentemente apontada como uma das razões para o enfraquecimento relativo da capacidade industrial europeia nos últimos anos.
A ascensão dos concorrentes globais
Paralelamente, economias como a China beneficiam de custos energéticos mais reduzidos e de acesso privilegiado a matérias-primas provenientes da Rússia. Esta combinação permite às empresas chinesas produzir a preços mais competitivos e conquistar mercados internacionais onde tradicionalmente a Europa tinha uma posição forte.
Segundo esta perspetiva, a questão deixa de ser apenas a guerra na Ucrânia. O verdadeiro desafio passa a ser a disputa pela competitividade económica global, pela capacidade de produção industrial e pelo controlo das cadeias de abastecimento estratégicas.
Quem suporta os custos?
Os críticos da atual política europeia argumentam que os cidadãos da União Europeia estão a suportar uma dupla fatura. Por um lado, financiam o apoio económico e militar à Ucrânia. Por outro, continuam a adquirir recursos cuja origem remonta, direta ou indiretamente, à Rússia, contribuindo para a manutenção das receitas da economia russa.
Independentemente da validade desta interpretação, o debate levanta questões relevantes sobre a eficácia das sanções económicas, a autonomia estratégica europeia e a necessidade de reforçar a produção interna de energia e matérias-primas.
Conclusão
A guerra na Ucrânia continua a ser um dos acontecimentos mais marcantes do século XXI. No entanto, para muitos observadores, existe uma dimensão menos visível mas igualmente decisiva: a batalha pela competitividade económica global.
Nesta leitura, a questão central não é apenas quem vence ou perde no campo de batalha, mas também quem controla as fontes de energia, as matérias-primas e a capacidade industrial necessária para sustentar o crescimento económico no longo prazo. A verdadeira guerra, defendem alguns analistas, poderá estar a ser travada nos mercados, nas fábricas e nas cadeias de abastecimento internacionais, com consequências que se farão sentir muito para além do conflito militar.
Major General Raul Luis Cunha
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