1.
Morreu Luís Represas. Conheci-o em criança, em casa do meu pai, ao piano. Ele e todos os Trovante. Eram miúdos, no final da adolescência ou no início da vida adulta, estavam a preparar o seu primeiro álbum “Chão Nosso”. O Luís, e o João Gil e Manuel Faria, ainda não eram ídolos, mas foram-no. Mais do que qualquer músico em Portugal na década de 1980 e em metade da década de 1990. Foram eles a fazer a transição dos grandes músicos de intervenção para um novo mundo – eles próprios fizeram-na entre o segundo e o terceiro álbum. Não interessa.
2.
Luís era a estrela. A sua voz, presença, magnetismo e inteligência mudaram a face da música popular. E não temos de o chorar. Ele viveu uma vida cheia. Cumpriu-se, ficou na história e vamos cantá-lo até ao fim dos tempos. E Deus – ou alguém por E’le ofereceu-lhe a possibilidade de se despedir do público com quatro concertos que foram absolutamente mágicos. Já estava muito doente, mas eu não sabia. Mas já estava. E na sua cabeça era mesmo a despedida, a sua ultima vez. Impressionante a maneira como o fez. Sem alardes, sem chorinhos, sem nada que não tivesse feito se lhe estivessem destinados cem anos de vida.
3.
Agora percebo o título dos últimos espetáculos – “Viver tudo numa Noite”.
Os mais novos talvez não imaginem do que estou a falar, certamente que lhes é difícil entender que existia mundo antes deles, que existia música antes da música que ouvem, que os seus pais ou avós tenham sido jovens como eles. É-lhes difícil, quase impossível, saberem o que Trovante representou na cultura portuguesa, na construção da democracia, na capacidade de a música ser a prova de que qualquer coisa estava a acontecer de novo em Portugal.
4.
Lá estive para os ouvir, para ouvir o Luís. Ameaçaram viver tudo numa noite e cumpriram. Ou em quatro. Mas eu, querido Luís, enquanto por aqui estiver, continuarei desperto com algumas daquelas canções que nunca deixaram de tocar em mim, que me ajudaram a ser o que sou, que me fizeram chorar, desejar, amar, dançar, pensar, ser futuro e respeitar o passado.
5.
Trovante é a banda da minha vida. É memória de manhãs, tardes, noites e madrugadas. Sei as músicas de cor, apaixonei-me por quem as cantou comigo, adormeci todos os meus filhos com aquelas canções, lamentei as mortes e as perdas a ouvir a guitarra do João, a voz do Luís e o piano do Manuel. O meu pai já o deve ter reencontrado. E eu canto Molinera.
LO

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