Episódio I
Esta história não começou há cinco anos, nem em nenhum tribunal. Começou em 2016, num campo de futebol, e só pegou fogo em 2017, depois de uma reunião no Hotel Altis a que eu chamo a Santa Aliança. Foi ali que o FC Porto e o Sporting se sentaram à mesma mesa com um único objetivo, destruir o Benfica. Que comovente, dois rivais de morte a darem as mãos. Faltou a vela e a foto de família. Eu fui só um dos que levaram por arrasto, a porta de serviço para chegar a um alvo muito maior do que eu. A partir daí deixei de ser pessoa e passei a personagem. Escreveram a minha história por mim, em manchetes, em estúdios de televisão, em bocas de gente que nunca me olhou nos olhos. Hoje começo a escrever a minha. E aviso já, isto vai dar um livro. Daqueles que ficam, porque conta o que muitos rezavam para que morresse comigo.
Começo pelo princípio, que é como as histórias honestas se contam.
Fui condenado por corrupção desportiva. Lê-se bem, soa a filme, vende jornais. O que não venderam com a mesma pressa foi o epílogo. Que o Tribunal da Relação do Porto pegou na tal condenação e suspendeu-a. Mandou repetir o julgamento. Porquê? Porque na primeira instância ouviram os jogadores e mais ninguém. Testemunhas sérias, ignoradas e recusadas. Prova relevante, indeferida. Condenaram-me com meia história e tiveram a lata de lhe chamar justiça.
Imaginem serem julgados num jogo em que só o adversário pode marcar, o árbitro é da claque contrária e o VAR está desligado. Foi mais ou menos isto, mas sem o conforto do relvado.
Agora joga-se com as duas balizas abertas. E mal abriram a minha, aconteceu a tragédia que tanto temiam, a verdade abriu a boca. A primeira testemunha que a Relação obrigou a ouvir foi o presidente do Rio Ave à data dos factos. O homem que, segundo o guião, sabia de tudo. Sabem o que disse, sob juramento? Que só soube pela comunicação social. Que perguntou aos jogadores um a um e que lhe disseram que era mentira, que eu nunca tinha falado com eles. E ainda rematou com uma frase para emoldurar, se aquilo fosse verdade e lho tivessem contado na altura, a primeira coisa que faria era ir à polícia. Não foi. Porque não havia aonde ir, nem o que dizer. Detalhezinho que os argumentistas esqueceram.
E já que falamos de produções, recordo-vos uma das grandes obras da época. Lembram-se daqueles jogadores que apareceram na televisão de cara tapada e voz de robô a jurar que eu os tinha tentado aliciar? Que elenco. Que dramaturgia. Encapuçados a acusar, voz distorcida a dar audiências, e a verdade marcada para nunca. Curioso, sempre achei que quem diz a verdade mostra a cara. Mas pronto, talvez fosse poupança de maquilhagem. Foi assim que se montou o monstro, com fumo, máscaras e um guião. Faltou só o genérico no fim a agradecer aos figurantes e ao patrocínio.
Entretanto, no presente, há quem continue a arranjar tempo para falar de mim em palcos de cimeira. O doutor Frederico Varandas levantou-se diante de todo o futebol português para perguntar quem era o César Boaventura e responder à própria pergunta, chamando-me condenado por corrupção. Comovente. Um médico a passar atestados de culpa antes de ver o doente. Doutor, a isto chama-se presunção de inocência, vem logo nas primeiras páginas, antes mesmo do índice. Eu sei que o seu forte é diagnosticar campeonatos à distância, mas talvez ajudasse abrir o livro antes de subir ao palanque. E confesso, comove-me a obsessão. Tanto tempo a falar de mim, com tão pouco para mostrar. Ou é distração para esconder o que se passa em casa, ou é saudade do protagonismo que o relvado já não lhe dá.
Quanto ao FC Porto, esses nem precisam de cimeira. Inventaram uma newsletter para chorar todos os dias, agora até veem santas alianças contra eles por todo o lado. Engraçado, de aliança a sério percebem eles um bocadinho, que a montaram num hotel em 2017. Cada um fala do que sabe.
E depois há a casa que mais me dói, a minha. Há quem se sente na cadeira de uma instituição grande, A seu tempo vou falar.
Cinco anos a carregar isto às costas. Cinco anos em que a minha família pagou uma conta que nunca foi dela. Vi os meus a ler sobre mim coisas que não se desejam a um inimigo. Vi-os a fingir que estavam bem só para eu não os ver mal. Essa dor não há acórdão que a devolva, e há muita gente que ainda vai ter de olhar para ela com vergonha. A honra da minha família defendo-a capítulo a capítulo, e essa, garanto, não se tapa nem se distorce com voz de robô.
Dia 23 o julgamento continua, com mais uma testemunha que a Relação mandou ouvir. Eu vou estar onde sempre estive, de pé, de cara levantada, sem máscara e sem distorção de voz. A defender o meu nome, a minha honra, a dignidade da minha família e o nome de um clube que arrastaram para a lama sem ele nunca ter tido arte nem parte nisto.
Chamaram-me o julgado na praça pública. Pois é na praça pública que vão agora ouvir os factos, um a um, até ao fim. Este foi só o primeiro episódio. Há muitos mais. E o último, esse, escrevo-o eu.
Sempre disse e digo, confio na JUSTIÇA
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