Um conto para a Páscoa, que aconteceu há 50 anos.
Maximiliano era um jovem português, sacerdote católico e… comunista! O seu nome rapidamente passou a ser apenas Max, um quase Marx, tão inusitado como improvável para um religioso. Ou não.
Corria o período pós-revolucionário em Portugal, fortemente agitado pela abertura democrática e diferentes visões do que deveria ser o país novo, aquele que sucederia o Estado Novo.
O padre Max era um cristão militante de esquerda, com uma forte identificação aos ideais socialistas e marxistas.
Acreditava que o sacerdócio deveria servir o povo e não "servir-se" dele, alinhado com a Teologia da Libertação, uma corrente que combina a doutrina cristã com a análise social de esquerda.
Por isso, foi um dos fundadores do UDP (União Democrática Popular), um partido de inspiração marxista-leninista. O Padre Max era um forte candidato à deputado nas eleições legislativas de 1976, até o momento em que foi assassinado.
Na noite de 2 de abril, militantes radicais de direita do CDS, na sua ala mais extremista, mandaram pôr uma bomba no seu carro, matando-o e também tirando a vida de Maria de Lurdes, uma jovem que o acompanhava.
Do outro lado da trincheira política, estava o raivoso Cónego Melo (Eduardo Melo Peixoto), apontado como o mentor moral ou operacional na morte do Padre Max.
O padre Melo já tinha, à época, mais de 50 anos de idade. Ele tinha crescido à sombra de Salazar, admirava o ditador e era a face mais feroz e visível do ultra-conservadorismo católico. Como anticomunista ferrenho, amigo do fascismo, ele estava muito incomodado pelos ventos de mudança, durante o período pós-25 de Abril.
Militante radical, Melo associou-se ao MDLP (Movimento Democrático de Libertação de Portugal), uma organização violenta, política e militar, clandestina e de extrema-direita, que atuou em Portugal entre 1975 e 1976.
Dom Melo, junto com os adeptos de uma Igreja mais rígida e reacionária, abençoou as mãos que puseram bombas, mas houve excessos de violência dos dois lados ideológicos. Uma guerra triste, que trocou o vermelho dos cravos pelo do sangue.
Maximiliano morreu. O Padre Melo escapou da condenação, entre omissões, anistias e outras situações sinuosas. Ele ainda permaneceu na sua Igreja, mas também já o comeu a terra, em 2008, velho e envergonhado pela verdade histórica. A maior parte das personagens deste triste evento já partiram. Se houver Céu e Inferno, terão muitas explicações a dar…
Qual foi, afinal, o crime do padre Max, pelo qual pagou com a vida?
Vejamos:
- Desafiou as elites religiosas, amigas do poder ditatorial, que usavam a lei para oprimir o povo;
- Denunciou a corrupção, afirmando que a religião servia para oprimir em vez de libertar;
- Não prometeu a justiça e a recompensa no céu, antes lutou por ela nas ruas e nos campos de Vila Real;
- Foi executado por forças políticas e religiosas da época, por ser considerado um subversivo e um agitador.
Enfim, Max aprendeu as lições de Marx, mas também seguiu criteriosamente os ensinamentos e a vida de Jesus Cristo…
E morreu por nós.

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