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sexta-feira, 27 de março de 2026

"O CHEGA É O PARTIDO DOS PEDÓFILOS":

"A avaliar pelo número de abusadores de menores que são encontrados nas fileiras do partido Chega, se um líder de um qualquer outro partido quisesse utilizar os métodos de André Ventura, podia desatar a dizer na praça pública isto: "O Chega é o partido dos pedófilos".
Não vai acontecer. Nenhum outro partido parlamentar atacaria o Chega desta forma. A decência que ainda se encontra no resto do sistema travaria uma declaração como esta – "O Chega é o partido dos pedófilos".
E, no entanto, André Ventura faria esta declaração sem qualquer pudor, no caso de ser outro partido a ter o mesmo número (ou até menos) de casos de militantes e candidatos acusados de abuso de menores como tem o Chega, e chamaria a isto "liberdade de expressão".
Rui Cristina, o presidente da Câmara de Albufeira que arranjou um "tacho" para a irmã (o Chega hoje está impossibilitado de atacar os "tachos", como se viu também na Câmara de Lisboa com o caso da namorada do vereador que tem o apoio de Ventura), fez um discurso xenófobo, durante uma reunião da Assembleia Municipal a 26 de Novembro do ano passado, contra a comunidade cigana.
A frase de Cristina é clara: "Eu não vou gastar dinheiro com a etnia cigana enquanto tenho albufeirenses com necessidade de casa. Podem chamar-me xenófobo ou o que quiserem. Primeiro, estamos nós que pagamos impostos e depois estas comunidades. É tão simples como estou a dizer e é assim que vai ser".
Rui Cristina tem várias denúncias contra si junto da justiça, uma delas de uma deputada municipal do PSD por causa destas declarações de discriminação racial e outras sobre a contratação da irmã. Esta semana foi alvo de buscas da Polícia Judiciária.
E o que fez Ventura, o homem que queria "prender" toda a gente ainda na recente campanha presidencial? Chorou-se e vitimizou-se. Agora, é vítima de uma cabala, de "judicialização de um país pacífico" e prevê, com estas investigações do Ministério Público e da Polícia Judiciária, maior "conflitualidade civil".
Condenando a intervenção judicial, Ventura considerou que a justiça está a atacar os votos que teve nas urnas. Ou seja, a justiça "não está a respeitar os eleitores" quando abre um inquérito a declarações obviamente xenófobas do presidente da Câmara.
André Ventura não repetiu as declarações de Rui Cristina. Embrulhou-as de forma diferente das que foram, efectivamente, pronunciadas, dizendo que o presidente da Câmara de Albufeira "apenas" não queria favorecer as pessoas de etnia cigana.
Está montada a cabala do Chega contra a justiça (uma novidade, apesar de tudo), que acusa de "perseguir quem está à direita", e de preparar "o fim da democracia". Os polícias que eram sempre bonzinhos, até aqui, deixaram de ser.
A vitimização de André Ventura é uma técnica política que já existia antes de Portugal ter um partido de direita radical e geralmente é bem-sucedida. Uma parte do seu eleitorado vai concordar, outra parte será capaz de comover-se com as lágrimas de liderar um partido "perseguido" pela justiça. Ninguém garante, porque nada disto é governado pela razão mas sim pela emoção, que o resultado não venha a ser favorável a Ventura.
O ataque ao poder judicial é uma coisa típica da direita populista. Às vezes não corre bem: Giorgia Meloni, primeira-ministra italiana, foi esta semana derrotada num referendo sobre uma reforma da justiça que, segundo os partidos da oposição, atentava contra o Estado de direito, tal como faz Órban, o aliado de Trump, na Hungria.
O estranho caso de Eva Cruzeiro
É óbvio que os militantes do Chega defensores da liberdade de expressão defendem a liberdade de expressão às segundas, quartas e sextas. No resto dos dias, são contra ou fecham os neurónios para descanso do pessoal.
Esta semana, soube-se que a deputada socialista Eva Cruzeiro tinha sido "condenada" pela Comissão de Transparência por "desrespeitar os deveres fundamentais dos deputados" quando chamou "racistas e xenófobos" aos parlamentares do Chega, em consequência do deputado do Chega Filipe Melo ter dito "vai para a tua terra".
A conduta de Filipe Melo já tinha sido censurada antes e de uma forma bastante vigorosa, mas agora chegou a vez de Eva Cruzeiro ser censurada "pelo comportamento inadequado e inaceitável" ao responder ao "vai para a tua terra". O relator, o deputado social-democrata Hugo Carneiro, deve ter tido em conta as queixas do deputado do Chega Filipe Melo: "Não se diga que esta conduta da senhora deputada Eva Cruzeiro é desculpável – ou que assume menor gravidade – pelo facto de ter constituído uma reacção aos gestos e às declarações proferidas pelo senhor deputado Filipe Melo".
Portanto, quando um deputado do Chega manda alguém para a sua terra – um dito racista que acontece muitas vezes na praça pública – a pessoa visada tem que comer e calar. Segundo o relator, era o que a deputada socialista devia ter feito. Ouvia uma "provocação" racista e sorria, eventualmente. E continua Hugo Carneiro: "Os deputados têm o dever de se conterem, controlando as suas acções dentro dos limites do que é razoável, perante provocações políticas lançadas por deputados das outras bancadas".
Dizer a alguém, no Parlamento, "vai para a tua terra" passou a ser uma "provocação política". Se se juntar a este episódio o facto de, por engano, o PS ter votado a favor do relatório e quando pediu para corrigir o erro, PSD e Chega terem recusado a correcção, assunto que vai agora ser discutido pelos líderes parlamentares, podemos dizer que o Parlamento português já está a viver numa realidade paralela.
Vou ali reler um bocadinho de Orwell e já venho."

Ana Sá Lopes, Público, 26/03/2026

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