Rádio Freamunde

https://radiofreamunde.pt/

segunda-feira, 31 de março de 2025

Até tu, New York Times?

Uma extensa peça na edição de sábado do New York Times revela finalmente desde o lado oficialista que os EUA não só foram parte beligerante de uma guerra contra a Rússia desde 2022, como exerceram uma posição de comando na Ucrânia. Intitulada “The Partnership: The Secret History of the War in Ukraine“ (A Parceria: A história secreta da guerra na Ucrânia), a reportagem mereceria mais atenção entre o público europeu.
Baseado em mais de 300 entrevistas que realizou no terreno a altos responsáveis políticos e funcionários do Pentágono, dos serviços de informação e militares ucranianos e da NATO durante mais de um ano, Adam Entous expõe como é que os EUA sob Biden, estiveram envolvidos na guerra de uma forma muito mais íntima e alargada do que os grandes meios fizeram crer. Algo que já se conhecia no plano geral, mas o texto é enriquecedor pelos detalhes que revela.
Segundo o artigo, a parceria chegou mesmo a ser “a espinha dorsal das operações militares ucranianas” que, segundo os EUA, causaram 700.000 baixas russas durante estes três anos.
As tropas americanas entraram primeiramente no QG em Wiesbaden, no oeste da Alemanha,de onde emanou a estratégia de guerra, depois enviaram assessores a Kiev, e logo militares, que por último foram para a linha da frente, coordenados por operativos da CIA, já no terreno.
Washington disponibilizou quinhentos milhões de cartuchos de munições para armas ligeiras e granadas, 10 mil armas antiaéreas Javelin, 3 mil sistemas antiaéreos Stinger, 272 obuses, 76 tanques, 40 sistemas de foguetes de artilharia de alta mobilidade, 20 helicópteros Mi-17 e três baterias de defesa aérea Patriot.
Mas não o apoio não foi somente armamentista. A estratégia foi delineada quase exclusivamente por Washington, desde o QG europeu. Ali, os EUA planearam todas as acções ucranianas, incluindo a famosa “contra-ofensiva” falhada de 2023. A inteligência americana estudava o terreno, assinalava os objetivos, decidia os alvos, facultava as coordenadas das posições russas e dava a ordem para os militares ucranianos dispararem. Literalmente, este foi o modus operandi que o NYT agora deixa a descoberto.
A parceria acabou por se deteriorar graças às “rivalidades, ressentimentos e imperativos e agendas divergentes” que se geraram entre americanos e ucranianos. Os autóctones viam os americanos como paternalistas, prepotentes, quando não mesmo manipuladores. As discussões chegaram mesmo a vias de facto, com generais americanos a dar ordens aos berros aos seus súbditos. O mal-estar entre estes “sócios” improváveis foi se generalizando.
A peça revela ainda que em mais de uma ocasião Biden deu luz verde a operações clandestinas que tinha proibido anteriormente, como por exemplo nos primeiros ataques no interior da Rússia, sempre usando os ucranianos de forma puramente instrumental.
Para os EUA, a parceria foi também uma grande experiência de combate e recolha de inteligência para qualquer guerra futura. Assim, também usaram o território ucraniano para testar novos protótipos de drones destinados a combater um potencial ataque naval chinês a Taiwan.
Mas também os britânicos estiveram implicados nas operações, nomeadamente a nível político. A inegável influência de Londres sobre o grupo de Zelensky fica patente no episódio em que o ministro da Defesa britânico que pouco mais tarde se demitiu, Ben Wallace, se assessora do general americano Donahue sobre o general ucraniano Kovalchuk, que prudentemente se negou a a subordinar às ordens de avançar sobre o lado leste de Kherson. Após queixas do americano ao britânico, Wallace tratou do assunto à boa maneira britânica, com um telefonema, e assim o general foi retirado da sua função pelo regime vassalo de Kiev.
Finalmente os serviços de informação americanos terão entendido que os russos estavam a construir rapidamente novas brigadas e que o lado da americano e da NATO não poderia contrariar a potente base industrial militar russa. No artigo de Entous, fica claro que, como exemplo, o palco ucraniano estava a esgotar a reserva de ATACMS, caso os EUA os necessitassem eles mesmos.
Porque sai agora uma peça deste teor num meio tão conotado com Estado profundo que originou esta mesma guerra? Fazendo-se valer da condição que é de elo forte da aliança atlântica e ao mesmo tempo de claro perdedor de uma guerra contra a Rússia, os EUA vertem assim nos ucranianos, em particular na figura de Zelensky, todas as culpas da derrota. Se a marioneta de Kiev e sua tropa tivesse obedecido a todas as ordens de Washington, a guerra estaria ganha.

Ao reconhecer a implicação na guerra, mas arremeter a derrota para o seu aliado menor, também é um meio de exercer pressão sobre Trump no momento decisivo das negociações entre as duas potências militares. A convocação de eleições na Ucrânia este ano e o afastamento de Zelensky afiguram-se assim previsíveis.

Ricardo Nuno Costa 

Sem comentários:

Enviar um comentário