Muito se tem falado e escrito sobre saúde mental, suicídio, culpa, solidão e desespero. As agendas mediáticas são assim, totalitárias na sua volatilidade – os assuntos duram até que o público se farte ou um outro tema substitua as atenções.
2.
Volto a ele por ser um assunto decisivo.
Nunca como hoje tanto se venderam antidepressivos. E nunca como hoje tantas consultas psiquiátricas são marcadas.
Mas entre todas as ramificações deste poço (para muitos) sem fundo à vista, um tema é constantemente esquecido: o drama e sentimento de culpa de quem fica.
A culpa dos que não foram capazes de compreender. Dos que sentem que não fizeram tudo o que era possível para ajudar. Dos filhos, dos que com a pessoa vivem, dos pais e dos amigos.
3.
Já me aconteceu.
Senti já essa culpa.
E muitos de nós certamente que já o viveram.
4.
Para quem fica pode ser tão doloroso como para a pessoa que partiu. E nada do que possa ser dito faz sentido quando a cabeça nos diz o contrário.
Não vale a pena dizer – “não tiveste culpa”. Não vale a pena abraçar e dizer – “não tiveste culpa porque ele (ou ela) estava por sua conta e ninguém a poderia impedir mesmo que tentasse”.
Não vale a pena, mas vale a pena…
Porque a maioria dos que ficam não tiveram culpa.
Porque a doença mental e o desespero (estejam ligados ou não) é inclemente e invencível. É como se o corpo de quem sofre tivesse sido tomado por ervas daninhas e negro; por muitos holofotes que se apontem, a essência de quem sofre dificilmente conseguirá ver a luz.
Não vale a pena, mas vale a pena, percebes?
Se o viveste, se carregas essa culpa, se vives nesse purgatório, vale a pena dizer-te que não tens culpa. É mesmo assim, há pessoas a quem já não podemos salvar.
Mas se vives com alguém que começa a ser invadido pelas sombras, vai e abraça-a. E diz-lhe que há muito caminho para ser caminhado e pessoas que podem ajudar.
LO
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