A nossa casa foi um dos apoios clandestinos da longa madrugada.
Eu, embrulhado num cobertor, era muitas vezes entregue, a meio da noite, na morada da avó materna para que a minha segurança nunca estivesse em causa.
Tu e a mãe deram-me ao longo a vida exemplos maiores de abnegação e integridade que são farol para os meus dias. A memória molda-nos, os princípios são semente.
Há 31 anos, neste dia, demasiado cedo, deixaste um vazio que jamais será preenchido.
Não apenas pelo teu exemplo de entrega aos outros, mas pelo mapa de afetos, vontades e valores que me legaste.
Só tu para, num último suspiro, com as poucas forças que já te restavam, escreveres uma carta ao médico - com a mais bela letra que conheci - a agradeceres o que fizera por ti ao longo de um tempo de sofrimento.
Hoje, no País que foi teu, há gente que luta pela decência, a possibilidade e o sonho de uma vida digna. Sem favores, por direitos. Há na minha memória de ti o velho poema do Sena que está nas paredes desta casa. Leio-o e ouço-o por dentro de mim, tantas vezes, como se habitasses nele com um desejo incontido de humanidade e por "um simples mundo, onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém de nada haver que não seja simples e natural. Um mundo em que tudo seja permitido, conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer, o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós".
Há 31 anos que não estás aqui, mas sinto-te na praça D. João I, no Rossio, em todos os locais onde serias tu, de novo, se pudesses. Não podendo ouvir um conselho teu, sentir o teu abraço, o teu mimo, as tuas palavras gritadas em muitas lutas e estafetas da vida em nome dos outros, sinto-te nas vozes de tantas e tantos que reclamam, pelo menos, uma faísca da promessa de Abril nos dias que correm.
Em cada praça ou avenida floresce algo que não precisa ser enquadrado política ou ideologicamente à pressa. Floresce, de novo, a ideia de um País que seja de todos e para todos, sem consensos de estufa e com divergências sãs, onde o chão da possibilidade seja firme, justo e feito de dias de cabeça levantada.
Ver-te, pressentir-te, adivinhar-te nas vozes e nas palavras dos que pouco dormem e lutam, enquanto trabalham e amam, é o alento que preciso. É sentir, nestes dias em que sempre entristeço, que esse País que sonhaste, e de onde partiste aos 47 anos, não esteja irremediavelmente perdido para um pesadelo repetido.
Saudades, pai.


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