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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

O Rebanho das Ronaldetes e a Constelação dos Ignorados:

Há países que constroem a sua identidade colectiva à volta da ciência, da literatura, da música, da investigação ou de qualquer outra actividade que implique usar o cérebro para alguma coisa útil. Portugal, com o seu habitual desassombro estratégico, escolheu outro caminho.
Nós preferimos fundar a identidade nacional à volta de homens feitos que correm atrás de uma bola e que, de vez em quando, amuam e param de correr porque não gostaram da maneira como o treinador olhou para eles.
É uma opção civilizacional como outra qualquer.
Enquanto o resto do planeta perde tempo a discutir inteligência artificial, alterações climáticas, biotecnologia ou o destino da espécie, nós interrompemos tudo. Aqui na parvalheira abrem-se os telejornais em directo para acompanhar o drama existencial de Cristiano Ronaldo, o nosso messias de calções. O país real parou, em suspenso, para descobrir se o capitão tinha ficado suficientemente melindrado por não ter entrado contra a Noruega.
E ficou. Tão chateado que bateu com a porta do estágio em Copenhaga, fez as malas e pariu um comunicado de cinco páginas com a sua versão dos factos.
A coisa incluía uma lista cirúrgica com oito pontos que, segundo as exigências da sua real majestade, Jorge Jesus deveria ter lido palavra por palavra na sala de imprensa. O guião exigia uma loa pública ao narcisista 7, uma vénia colectiva à estrela do Instagram.
Isto já não é futebol. É a gestão da parvoeira emocional de um povo.
Jesus, que pelos vistos desenvolveu uma paciência zen com a idade, leu o testamento e respondeu com uma economia de meios brilhante, comunicando às centenas de microfones que o perseguiam, que não tinha mais nada a dizer e preferia focar-se na equipa. Um homem percebeu, finalmente, que há discussões infantis que não se resolvem com argumentos, mas sim com uma quantidade industrial de silêncio.
Mas vá-se lá pedir silêncio às Ronaldetes. A infantaria digital entrou em combustão espontânea nas redes sociais, insultando tudo o que se mexia. É uma seita fascinante esta que aparece sempre que alguém ousa lembrar que o rapaz, embora tenha passado a vida a marcar golos, não é simultaneamente jogador, treinador, seleccionador, presidente da Federação, ministro dos Negócios Estrangeiros e proprietário moral da República Portuguesa.
O amuo assumiu proporções de tal forma bíblicas que o próprio primeiro-ministro, Luís Montenegro, sentiu necessidade de intervir. Ligou individualmente ao Pedro Proença, ao Jorge Jesus e ao Ronaldo.
Há obviamente uma solenidade profundamente saloia nisto. Um país atolado em problemas, com os serviços públicos a rebentar pelas costuras, consegue mobilizar o chefe do Governo porque um homem de 41 anos fez um beicinho por ficar sentado no banco de suplentes.
Mas falemos dos outros. Aqueles que ninguém conhece.
Aqueles que são o verdadeiro assunto desta crónica.
Os portugueses que trabalham no mais absoluto anonimato mediático para perceber o Universo, estudar a origem da vida e colocar tecnologia no espaço. Esses não abandonam estágios de rompante. Não fazem manifestos de queixumes. Não precisam de ser fotografados à saída do hotel com seguranças a empurrar jornalistas. Trabalham, simplesmente.
Vítor Cardoso, por exemplo. É um dos nomes internacionais mais relevantes na investigação de buracos negros e ondas gravitacionais. Tem mais de 300 artigos publicados e dá cartas no Niels Bohr Institute. Estuda buracos negros. O que deixa de ser uma ironia cósmica quando percebemos que o comentador televisivo da Medialivre passa o dia a demonstrar que também possui um buraco negro, embora localizado num sítio anatomicamente diferente e de onde saem opiniões sobre o patrão.
Temos a Zita Martins a fazer de olheira no espaço, a investigar cometas e cosmoquímica para perceber a origem da vida, e a Marta Cortesão na microbiologia espacial, a estudar como microorganismos resistem a condições extremas na Lua ou em Marte.
Mas quem é que quer saber de Marte? Marte não vende pacotes de televisão Premium, Marte não tem cláusula de rescisão, Marte não dá patrocínios de cuecas.
O Pedro Mota Machado estuda atmosferas de outros mundos e a Clara Sousa Silva caça bioassinaturas em planetas distantes. Ou seja, há cientistas portugueses a tentar descobrir se existe vida inteligente no universo enquanto o resto da pátria gasta mais de uma semana da sua vida a tentar perceber se existe vida inteligente na opinião pública portuguesa.
O ridículo atinge o seu auge com David Sobral. Em 2015, este astrofísico liderou a descoberta de uma das galáxias mais brilhantes do Universo primordial. Num diagnóstico clínico perfeito sobre o saloísmo do seu próprio povo, baptizou a galáxia de CR7. Foi uma jogada de génio. Ele sabia perfeitamente que, se lhe chamasse Galáxia da Ciência, por exemplo, os directores de informação ignoravam-no e as Ronaldetes achavam que era uma marca de detergente. Foi preciso meter a sigla do boneco da bola do Instagram nas estrelas para que a astronomia nacional merecesse trinta segundos de antena entre o penálti do fim-de-semana e a micose do apanha-bolas.
Cá em baixo, homens como Ivo Vieira constroem o futuro que nós teimamos em adiar. O co-fundador da LusoSpace lidera o projecto da constelação Lusíada, uma rede de satélites portugueses baptizados com nomes de escritores como Camões, Pessoa, Saramago e Agustina Bessa-Luís, desenhados para monitorizar os nossos oceanos.
É quase hilariante. Uns portugueses põem Camões no espaço profundo. Outros põem o Cristiano Ronaldo em tudo o que é caneca, painel publicitário e conversa de café.
A questão aqui nem é o futebol. Pode-se gostar do jogo e admirar o atleta. O problema é a indigência mental de uma sociedade que transforma a birra de um quarentão mimado num assunto de interesse nacional e, em simultâneo, trata cientistas, investigadores e professores como se fossem figuras menores.
A ciência não tem comentadores aos gritos, não tem câmaras na pista do aeroporto, não vende camisolas oficiais a cem euros. E, acima de tudo, não tem o talento extraordinário de paralisar um país inteiro porque alguém ficou zangado por não jogar trinta minutos contra a Noruega.
Quando estes cérebros se cansam do nosso paroquialismo e decidem bater as asas, não apanham jactos privados para as arábias com uma comitiva de bajuladores. Levam uma mochila às costas, um computador portátil e uma carreira que foi construída apesar das condições que o país lhes deu, nunca por causa delas. Vão de Ryanair, a rezar para que a mala de cabine não ultrapasse as medidas da companhia aérea.
Nós ficamos cá. Orgulhosamente totós. A discutir o comunicado. O comunicado do comunicado. A resposta ao comunicado.
E a ver se o homem volta a saltar com as pernas abertas neste deserto de indigentes mentais...
SIIIIIUUUUUUUU e até à próxima...
Referências consultadas:

https://www.portugalglobal.pt/.../waze-of-the-oceans.../

Luís Rocha 

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