É uma delícia seguir de longe a ópera bufa portuguesa da crise gritante da habitação. Mesmo assim, há um certo tipo de pessoas absolutamente inconscientes que prefere falar e dar protagonismo a um fulano extravagante de braguilha aberta que sobe para cima de uma estátua, ou a um maluquinho que aparece a pregar a ira divina com a bandeira de Israel numa manifestação que, estando ou não no meu campo político, teve a coragem de mobilizar a população e reivindicar a intervenção urgente para um tema que foi absolutamente esquecido pelos sucessivos governos ao longo de décadas.
Umas de maior importância que outras. Outrora assim acontecia. É por isso que gosto de as relatar para os mais novos saberem o que fizeram os seus antepassados. Conseguiram fazer de uma coutada, uma aldeia, depois uma vila e, hoje uma cidade, que em tempos primórdios se chamou Fredemundus. «(Frieden, Paz) (Munde, Protecção).» Mais tarde Freamunde. "Acarinhem-na. Ela vem dos pedregulhos e das lutas tribais, cansada do percurso e dos homens. Ela vem do tempo para vencer o Tempo."
Rádio Freamunde
https://radiofreamunde.pt/
quinta-feira, 22 de outubro de 2026
O país do escapismo:
Infelizmente, como seria de prever, dado não estar habituada a pensar, nem tão-pouco interessar-se pela questão portuguesa, mas sim por diversões, uma parte importante da direita não percebeu, nem quis perceber, o alcance desta crise da habitação. Uns limitaram-se a culpar os imigrantes, depois de terem dito que viviam 60 e 70 em cada apartamento. Outros, cultores do dogma sagrado da propriedade, acharam perfeitamente natural que Lisboa fosse evacuada ao longo de décadas de toda a sua população e substituída por nómadas digitais, por turistas e por milionários dos Golden Visa.
Finalmente, há uma atitude irreflectida que é uma constante desta gente que não quer pensar e não sabe pensar e fica exaltada quando vê a polícia de escudo e bastão em riste a atacar multidões. Como se, alguma vez, uma carga policial pudesse resolver o problema de um milhão e meio de portugueses que não têm casa e jamais terão dinheiro para pagar uma casa ao longo de uma vida inteira. Eu, que sou a favor dos impostos e da redistribuição, não posso deixar de reconhecer que não há força política alguma com capacidade e coragem para propor aquilo que há muito devia ter sido executado; ou seja, uma política intensiva de obras públicas destinadas àqueles que têm menores recursos e que são obrigados a pagar mensalmente a quase totalidade de um dos ordenados do agregado familiar para pagar a maldita casa, muitas vezes tugúrios infames nos subúrbios horripilantes de Lisboa.
Mas não. Para eles o que importa é o homem da braguilha aberta, o maluco evangélico e a carga policial. Assim, a direita não serve para nada.
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