Rádio Freamunde

https://radiofreamunde.pt/

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O Gigante Egoísta e os seus 55 jardins:

Quem tem 55 propriedades, entre imóveis e terrenos rústicos, tem o dever moral de se afastar da bolha de privilégio em que vive e conhecer como, hoje, não é apenas impossível chegar ao fim do mês. Tornou-se, impossível, para muitos, planear o início do mês com autonomia

Quem se lembra do conto do Gigante Egoísta, de Oscar Wilde, sabe que havia um homem que tinha um jardim onde as crianças gostavam de brincar e que, por egoísmo, esse gigante fechou os muros, expulsando as crianças. A partir desse momento, nada floriu e só quando as crianças voltaram é que voltou a haver primavera e alegria. Lembrei-me deste conto a propósito das infelizes declarações de Luís Montenegro sobre as manifestações que têm acontecido pelo direito à habitação.

Não sobram hoje dúvidas de que a carga policial sobre os manifestantes foi gratuita e injustificada. Às versões contraditórias sobrepõem-se as imagens mostradas pela RTP, que mostram a polícia a avançar quando os manifestantes já se iam embora. Este escalar desnecessário de tensão por parte de quem deve garantir que o direito à manifestação se cumpre vai correr mal. Gera aproveitamentos por quem quer viver da desordem e do caos. Noutros lugares, de que França é o melhor exemplo, a infiltração nas manifestações daqueles que apenas querem destruir alimenta as narrativas da extrema-direita, que se apresentará como securitária, garante da ordem e acusando os promotores das manifestações daquilo que escapou ao seu controlo por via dos infiltrados (que, como aconteceu com os coletes amarelos, muitas vezes apenas estão a seguir as ordens da própria extrema-direita). Quem ache que não há aproveitamentos está a enganar-se a si próprio.

É há demasiado tempo evidente que a crise de habitação explodiria na Europa. O que se passa com o mercado de rendas e de venda de casas é o exemplo mais claro do que o ideário neoliberal desprotege os mais vulneráveis, esmaga a classe média e retira esperança aos mais jovens. Por toda a Europa, a mão invisível do mercado, entregue a si própria, sem qualquer regulação por nenhum governo, gerou as impossibilidades que hoje esmagam quem não consegue pagar uma casa. E quem não consegue pagar uma casa é praticamente a totalidade da população jovem, dos que trabalham e recebem o salário médio. Nenhum jovem em início de vida consegue encontrar uma casa como a que os seus pais, há 20 anos, tinham. O impacto disto na esperança e, sobretudo, na valorização do estado social e da educação é devastador. Estamos, pela primeira vez, na generalidade dos países, perante uma geração que estudou mais do que os seus pais e vai viver pior. E não nos iludamos: isto deve-se, em primeiro lugar, ao preço da habitação. Pensando apenas nas profissões do setor público que, tradicionalmente, tinham melhores remunerações, seria impensável, há dez anos, que um jovem médico ou um professor universitário não pudessem encontrar onde morar em Lisboa, Coimbra ou Porto no início das suas carreiras, ou que tivessem de se alojar num quarto como quando eram estudantes. A normalização disto é a rejeição da dignidade mínima.

Falar do egoísmo de quem se manifesta, como fez Luís Montenegro, é a expressão plena da falta de empatia a que nos tem habituado. Espera-se de um primeiro-ministro o máximo de compreensão sobre como vivem os cidadãos. Quem tem 55 propriedades, entre imóveis e terrenos rústicos, tem o dever moral de se afastar da bolha de privilégio em que vive e conhecer como, hoje, não é apenas impossível chegar ao fim do mês. Tornou-se, impossível, para muitos, planear o início do mês com autonomia. Não foi apenas em Espanha que uma idosa foi despejada sem alternativas. Também em Portugal temos relatos de pessoas que, na fase mais avançada da sua vida, veem os seus contratos de arrendamento chegar ao fim e apenas encontram no mercado apartamentos mais pequenos do que aqueles em que viviam, mas agora pelo dobro ou triplo do que pagavam. Quando os dados mostram que o preço de um aluguer corresponde a 116% do salário ultrapassámos tudo o que é aceitável.

Este é um problema de uma complexidade enorme, porque se arrastou, não foi regulado, porque se confiou num mercado que não merece confiança. Gerou-se a tempestade perfeita: não houve construção, houve guerra e inflação nos custos de construção, não se resolveu o problema das casas vazias, desregulou-se o alojamento local, não se alterou nada sobre os residentes não habituais para quem cidades no sul da Europa se tornaram a versão barata da sua aposentação ou um sítio para investir e especular, os salários cresceram muito menos do que os preços. As políticas para a habitação não tiveram medidas firmes contra a especulação imobiliária. As respostas simplistas para esta complexidade só vão favorecer os populistas e corroer as democracias.

Há, contudo, políticas que só agravam o problema. A legislação proposta pelo Governo, apoiada pelo Chega, faz tudo o que é possível para o aumentar, desprotegendo ainda mais os mais vulneráveis. A resposta de habitação pública continua a ser insuficiente e é preciso perceber, de uma vez por todas, que este é um problema não apenas dos mais pobres, mas a principal causa de uma destruição da classe média, fundamental para a sustentabilidade dos valores democráticos.

Revertamos o argumentário do egoísmo. Será egoísta quem, na rua, pede um maior compromisso da classe política com o problema da habitação ou quem está tão distante da vida das pessoas que acha que uma renda de 2300 euros é moderada? Será mais egoísta quem não sabe como se vai autonomizar no início da vida adulta ou quem vive dos rendimentos de mais de 50 imóveis? Será mais egoísta quem vive na angústia de não saber que valor lhe vai ser apresentado quando o seu contrato de arrendamento terminar ou quem faz legislação para facilitar despejos, aumentos ou exigir cauções e adiantamentos de renda incomportáveis para o cidadão comum? Será mais egoísta o cidadão que trabalha e não consegue pagar onde morar ou a agenda neoliberal do lucro pelo lucro?

Não é egoísmo. É desespero e falta de futuro. Ninguém em Portugal é detentor de 55 imóveis por mérito do seu esforço ou por via dos rendimentos do seu trabalho. Apenas por herança ou sorte, nunca por mérito. Egoísmo é olhar para a sua própria vida e não ter a humildade de entender isto, senhor Primeiro-Ministro, colocando-se no lugar do Gigante Egoísta, que não percebeu que as crianças que iam para o seu quintal eram quem, verdadeiramente, lhe dava vida. Não eram elas o problema.

Opinião

João Costa

Professor universitário, ex-ministro da Educação

 Expresso

Sem comentários:

Enviar um comentário