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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Eu não gosto de Ronaldo:

E não preciso de gostar para reconhecer que foi um jogador extraordinário.
Teve uma capacidade de trabalho brutal, uma ambição enorme e construiu uma carreira que ficará na história do futebol. Reconheço isso sem dificuldade.
Mas Ronaldo não é maior do que ninguém. Não é maior do que eu, nem do que tu. Muito menos maior do que Portugal.
Uma coisa é a grandeza de um jogador. Outra é a dimensão humana de uma pessoa.
Ronaldo tem uma obsessão enorme pelo sucesso, pelos números, pelos recordes, por ser o melhor, por continuar a ser o melhor. Essa ambição foi uma das forças que o levou tão longe. Mas também faz parte daquilo que eu critico nele: esta necessidade permanente de afirmação, de reconhecimento, de estar no centro.
Há ainda outra dimensão que não separo da figura pública que se tornou: a do milionário, do luxo, da excentricidade, das escolhas e das companhias que fazem parte desse mundo.
Mas o que mais me incomoda é a forma como nós próprios construímos os ídolos.
Olhamos para quem venceu, para quem chegou ao topo, para quem acumulou dinheiro, fama e reconhecimento, e começamos a colocá-lo acima dos outros.
E quando alguém rompe essa unanimidade, a crítica deixa de ser discutida e passa a ser desvalorizada, rebaixada, com meia dúzia de rótulos.
Passamos a invejosos, ressabiados, com dor de cotovelo.
É uma forma cómoda de proteger o ídolo, mas extremamente ofensiva para quem recebe esses rótulos.
Eu não tenho inveja de Ronaldo. Não quero o dinheiro dele, a fama dele, os carros dele, o avião privado dele, as casas dele ou a vida dele.
Podem pensar o que quiserem, podem desconfiar de mim, mas detesto essa ostentação, essa forma de estar na vida.
Não gostar de alguém não é inveja.
E reconhecer um grande jogador não me obriga a admirar o homem.
Ronaldo pode ter sido um dos maiores jogadores da história, mas não está imune à crítica. É uma pessoa como qualquer outra.
É isso que me parece tão difícil de aceitar quando se transforma alguém num ídolo: começamos a confundir admiração com fidelidade.
Olhamos para os vencedores como se fossem maiores.
Quem tem mais dinheiro parece valer mais. Quem tem mais títulos parece valer mais. Quem tem mais fama parece valer mais.
Mais. Muito. Cada vez mais.
Eu não aceito essa medida de valor.
Porque Ronaldo não fez tudo sozinho. Ninguém faz.
Houve colegas, treinadores, equipas, família, profissionais, adversários. Houve uma Seleção. Houve Portugal.
O talento era dele. O trabalho era dele. A carreira era dele.
Mas a história não foi feita por ele sozinho.
E isso não lhe tira grandeza nenhuma.
Para mim, a verdadeira grandeza está em reconhecer os outros. Em saber que precisamos dos outros. Em não confundir sucesso com superioridade.
Para mim, os verdadeiros heróis são, particularmente, estes:
Aquela mulher que acorda às sete da manhã, prepara os filhos, vai trabalhar, os leva ou vai buscar à creche, chega a casa cansada, faz o jantar, trata da roupa e no dia seguinte começa tudo outra vez.
Aquele homem que trabalha uma vida inteira sem nunca ter uma fotografia num jornal.
A enfermeira, o professor, o operário, o motorista, o agricultor, o médico, o bombeiro.
Gente que não tem milhões, troféus ou estádios a gritar o seu nome.
Mas que todos os dias segura uma parte da vida dos outros.
Essa gente não vale menos.
Ronaldo foi enorme no futebol.
Mas não é maior do que eu.
Não é maior do que tu.

E muito menos é maior do que Portugal.

Fernando Marques  

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