Publiquei ontem uma crónica com mentiras do líder da seita. Não as minhas opiniões, não ironias de difícil descodificação: mentiras, com data, citação. Onde o líder disse A e os factos disseram B, escrevi A e B, um ao lado do outro, com a clareza pedagógica de um exercício da primeira classe.
Esperei um adversário, alguém que quisesse debater ou discutir ideias. Apareceu um rebanho, neste caso foi mais uma manada que um rebanho.
Vieram por turnos, como numa eucaristia, e nenhum desmentiu um único facto nem nenhum fingiu sequer ter lido o texto, o que aqui entre nós ao menos revela uma honestidade involuntária quase comovente. Apareceram com duas munições: o insulto e o slogan. O insulto vinha numa ortografia que faria um corrector automático pedir a demissão ou apresentar erro de sistema, e no que dependia da delicadeza não haveria sabao azul suficiente para lavarem a boca. O slogan vinha em maiúsculas, porque quem não domina a vírgula compensa com o volume.
Contei quarenta e sete comentários. Ideias ou tentativas de debate, encontrei poucas e todas emprestadas. Verbos bem conjugados, três, e por acidente, creio. Havia ainda uma frase que começava com sujeito, acabava com sujeito e no meio não tinha nada, uma sanduíche de ar.
Cheguei a preocupar-me com o fascismo, a xenofobia, o racismo, a homofobia. Durou pouco tempo, percebi que, afinal, o que verdadeiramente me preocupava era a ignorância, o analfabetismo, e sem melhor palavra para tal e sem querer ofender o quadrúpede, a burrice. O fascismo tem história, doutrina e, nos melhores dias, vocabulário; é uma doença antiga e conhecida, e como tal trata-se.
O que me tira o sono é outra coisa. A ignorância deixou de ter vergonha.
Antigamente o bronco inculto calava-se, e era um serviço público. Hoje ostenta a burrice como medalha, pede aplauso e organiza convívios. Orgulha-se de não ler, de não ter o conhecimento, de não escrever, e faz da falta de educação uma identidade, com bandeira, hino e grupo de WhatsApp onde os mesmo erros ortográficos circulam e ninguém o corrige.
Há nisto uma lógica perfeita. Para perceber que foi aldrabado, o adepto teria de ler, compreender e sentir vergonha, três exercícios de que a seita dispensa logo na inscrição. Um adepto que lê perde-se; um adepto que zurra fica garantido. O líder agradece. Um eleitorado que não confere factos é o sonho de qualquer mentiroso compulsivo: nunca se queixa da oferta, não pede o livro de reclamações e ainda faz publicidade gratuita, com os erros de concordância incluídos sem custos adicionais.
Aos meus comentadores, um sincero obrigado. Provaram a minha tese melhor do que eu próprio teria conseguido, além disso, o algoritmo agradece a vossa participação para a difusão das minhas crónicas. Se algum dia aprenderem a escrever uma frase com sujeito, verbo e um fio de ideia, voltem cá, que respondo com gosto. Até lá, continuem a zurrar: nesse idioma, ao menos, não há erros de ortografia

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