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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

A POLÍTICA DO FUTEBOL:

Longos são os dias que se preenchem na comunicação social, nas redes sociais e na imprensa com aquilo a que me apeteceria chamar, sem grande esforço de imaginação, o triângulo da mesquinhez: de um lado, o seleccionador; do outro, Cristiano Ronaldo; e, a completar a figura geométrica desta pequena tragédia nacional, o presidente da Federação Portuguesa de Futebol. Um triângulo que, sendo matematicamente perfeito, parece ter encontrado na realidade portuguesa uma geometria muito particular: quanto mais se aproxima o vértice do interesse público, mais se afasta a base daquilo que verdadeiramente deveria interessar ao país.
A propósito do afastamento de Cristiano Ronaldo da Selecção, desencadeou-se uma dessas tempestades mediáticas que, em Portugal, possuem a extraordinária faculdade de transformar uma questão desportiva numa questão de Estado, uma declaração numa tese política, uma divergência numa guerra de trincheiras e um futebolista num assunto de interesse nacional superior ao preço da electricidade, ao estado das urgências hospitalares ou à qualidade da escola onde os nossos filhos aprendem a ser cidadãos.
É curioso este país.
Onde está a nobreza de carácter?
A empatia em situações que exigem grandeza?
Parece sossobrar, na minha modesta opinião, a visão limitada ou a falta dela, a mediocridade em acções e pensamento.
Temos hospitais onde se espera horas nas urgências, escolas onde faltam recursos, famílias que fazem contas ao que podem gastar no supermercado como quem resolve uma equação de terceiro grau, jovens que descobrem que o futuro é uma palavra muito bonita e elegante quando pronunciada por quem já o tem garantido e idosos que aprenderam a contar os euros antes de comprar os medicamentos. Mas basta uma polémica futebolística para que o país inteiro encontre tempo, voz, indignação, especialistas, comentadores, constitucionalistas de ocasião, psicólogos de bancada, moralistas de café e uma legião inteira de cidadãos dispostos a defender aquilo que, ainda na véspera, provavelmente nem sequer lhes dizia respeito.
E então aparecem os habituais pavões coloridos, cada qual cuidadosamente empenhado em abrir a cauda diante das câmaras, numa esgrima de galhardetes em que já ninguém parece interessado em esclarecer coisa alguma, mas todos parecem profundamente interessados em ser vistos a esclarecer alguma coisa.
Há qualquer coisa de cómico neste espectáculo.
Mais parece um aviário de galos depenados, cada um deles convencido de que ainda possui a majestade da plumagem, enquanto o país, lá fora, vai apanhando as penas que caem e perguntando discretamente quem há-de pagar a conta.
O problema não está em discutir futebol. O futebol faz parte da nossa cultura, da nossa memória colectiva, da nossa identidade e, para milhões de pessoas, constitui uma das poucas formas contemporâneas de emoção partilhada. O problema começa quando o futebol deixa de ser futebol e passa a ser uma espécie de religião civil, com sacerdotes televisivos, mártires ocasionais, pecadores públicos, heróis fabricados e uma liturgia diária de indignação.
E quando essa liturgia invade o poder político, então temos a confirmação de que alguma coisa se desarranjou na hierarquia das prioridades.
Chegou-se ao ponto de o primeiro-ministro se envolver na acareação da contenda, acrescentando ao episódio uma dimensão política que talvez diga mais sobre a importância social atribuída ao futebol do que sobre a verdadeira importância do assunto. Não porque os políticos não possam falar de futebol — podem, evidentemente — mas porque é sempre legítimo perguntar se o país não mereceria, de vez em quando, semelhante fervor institucional para discutir a qualidade da educação, a degradação de determinados serviços públicos, os salários que não acompanham o custo de vida, a habitação que se tornou um luxo e a pobreza que continua a ser tratada como uma inconveniência estatística.
Ah, mas isso não dá tanta audiência.
Uma fila de espera hospitalar não corre tão depressa nas redes sociais como uma polémica entre celebridades. Uma sala de aula sem condições não produz tantos comentários como uma frase de Ronaldo. Uma factura de electricidade não possui o mesmo glamour televisivo que uma conferência de imprensa. E uma família que não sabe como fazer chegar o ordenado ao fim do mês não dispõe de assessoria de comunicação.
O futebol, esse, tem tudo.
Tem milhões, tem câmaras, tem camisolas, tem heróis, tem vilões, tem lágrimas, tem dinheiro, tem publicidade e, sobretudo, tem uma coisa que a política contemporânea descobriu há muito: tem audiência.
E a audiência, nesta nossa época de espectacularização permanente, parece ter adquirido uma importância superior à verdade.
O futebol moderno tornou-se, assim, uma curiosa metáfora da sociedade moderna: meninos milionários correm atrás de uma bola enquanto milhões de adultos correm atrás do salário.
Uns discutem prémios, contratos, transferências, estatuto, protagonismo e lugares de destaque; outros discutem rendas, prestações, combustíveis, electricidade, gás e o preço do pão. Uns entram no estádio sob aplausos; outros entram no supermercado já com a calculadora mental ligada. Uns têm empresários; outros têm apenas o recibo do ordenado.
E ainda há quem diga que todos vivemos a mesma realidade.
Vivemos, pois.
Uns vivem no relvado.
Outros vivem na erva debaixo da ponte — porque já não conseguem pagar o tecto.
Mas há uma subtileza ainda mais interessante nesta história: o povo, que tantas vezes é acusado de não se interessar por política, interessa-se apaixonadamente pela política do futebol. Discute tácticas como se discutisse sistemas de governação, escolhe heróis com a mesma convicção com que outros escolhem candidatos, condena pessoas sem julgamento, absolve outras sem defesa e constrói, em cada programa televisivo, uma pequena República das Emoções.
Talvez porque o futebol ofereça uma coisa que a política deixou de oferecer com a mesma intensidade: a ilusão de pertença.
Quando a Selecção joga, o indivíduo sente-se parte de alguma coisa. Durante noventa minutos, desaparecem as diferenças, pelo menos aparentemente. O pobre veste a mesma camisola do rico. O trabalhador vibra ao lado do empresário. O desempregado grita o mesmo golo que o banqueiro. E durante aquele breve intervalo, Portugal parece finalmente caber dentro de um estádio.
É por isso que o futebol é tão poderoso.
Mas precisamente por ser poderoso, deveria exigir dos seus protagonistas uma responsabilidade proporcional à influência que exercem.
A ética profissional não pode ser uma camisola que se veste apenas quando dá jeito. A integridade não pode depender da conveniência do momento. E a dignidade institucional não pode ser sacrificada no altar da audiência.
Quando homens e instituições transformam divergências em espectáculos públicos, o problema já deixou de ser exclusivamente desportivo. Passa a ser um problema de cultura institucional, de responsabilidade e de exemplo.
Porque os milhões de espectadores não assistem apenas a um jogo.
Assistimos também à forma como os adultos resolvem os seus conflitos. E é essa a parte mais preocupante.
Enquanto os protagonistas disputam versões, os comentadores disputam microfones, os políticos disputam protagonismo e as redes sociais disputam indignações, há um país silencioso que continua a trabalhar, a esperar, a pagar e a envelhecer.
Um país que não tem tempo para discutir quem disse o quê porque precisa de saber quanto vai pagar amanhã.
Um país que talvez já não consiga pagar a conta da luz, mas continua a ter energia suficiente para discutir durante horas a vida dos milionários.
Um país que vê aumentar o gás, a electricidade, a habitação e o custo de viver, enquanto a televisão lhe oferece diariamente a anestesia perfeita: um novo episódio da novela futebolística nacional.
Talvez seja esta a verdadeira política do futebol. Não aquela que se joga dentro das quatro linhas, mas aquela que se joga fora delas, onde a atenção pública é o troféu mais cobiçado.
Quando um país passa mais tempo a discutir quem deve vestir a camisola da Selecção do que quem deve cuidar da escola pública; quando se conhece melhor o salário de um futebolista do que o vencimento de um professor; quando se debate durante semanas uma polémica desportiva enquanto milhares de famílias fazem contas para pagar a casa, então talvez o problema já não esteja apenas no futebol.
Talvez esteja em nós.
Talvez tenhamos permitido que o espectáculo ocupasse o lugar da realidade.
E é então que o velho Zé Povinho, sentado no seu pequeno trono de plástico, diante de uma televisão cada vez mais luminosa e de uma carteira cada vez mais vazia, olha para o ecrã, suspira, bebe o seu café e pergunta, com a resignação filosófica de quem já viu quase tudo:
— Então, afinal, quem ganhou?
Ninguém lhe responde.
Porque, nesta partida, talvez todos estejam demasiado ocupados a jogar para si próprios.
E o país, esse, continua no banco.
À espera de entrar em campo.
— António Manuel Palhinha

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António Manuel Palhinha 

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