Rádio Freamunde

https://radiofreamunde.pt/

terça-feira, 22 de setembro de 2026

O melhor texto de homenagem a Jorge Palma que li por aqui. Foi o Mário Gonçalves que o escreveu :

"Querido Jorge,
Há pessoas que morrem e deixam um silêncio.
Tu deixas canções.
E talvez seja essa a estranha consolação desta noite, saber que, por mais definitiva que seja a morte, não conseguiu levar-te por inteiro.
Ficaste.
Ficaste naquele piano que parecia conhecer-te melhor do que muita gente. Ficaste nessa voz imperfeita, rouca, vivida, tão humana que nunca precisou de ser bonita para ser absolutamente bela. Ficaste nas palavras que escreveste para ti e que, sem pedirem licença, acabaram por contar pedaços da vida de todos nós.
Durante tantos anos, cantaste aquilo que muitas vezes não sabíamos dizer.
Cantaste os amores que chegaram tarde. Os que partiram cedo. As noites demasiado compridas. Os encontros e os desencontros. A solidão no meio da multidão. A esperança dos que já tinham poucas razões para acreditar. E essa nossa maneira tão portuguesa de continuar, mesmo quando não sabemos exatamente para onde.
Nunca pareceste querer ser um herói.
Talvez por isso tenhas sido tão importante.
Eras humano à nossa frente. Com as tuas fragilidades, os teus excessos, as tuas sombras e essa liberdade que sempre pareceu maior do que qualquer convenção. Nunca nos deste uma vida perfeita. Deste-nos uma vida verdadeira.
E nós reconhecemo-nos nela.
Houve quem te ouvisse num quarto, sozinho. Quem te levasse no carro por estradas intermináveis. Quem se apaixonasse ao som das tuas músicas. Quem chorasse contigo sem que alguma vez soubesses. Quem encontrasse numa frase tua as palavras que naquele dia não conseguia encontrar em mais lado nenhum.
Essa é uma das coisas mais bonitas da música, passamos a vida acompanhados por pessoas que nunca conhecemos.
E tu estiveste ao lado de tanta gente.
Sem saberes.
Talvez nunca seja possível explicar inteiramente o que um músico deixa quando parte. Não são apenas discos, concertos ou fotografias antigas.
Deixa momentos.
Deixa uma canção que, daqui a vinte anos, começa a tocar e faz alguém regressar imediatamente a uma noite, a uma pessoa, a um beijo, a uma casa que já não existe.
Deixa juventudes inteiras guardadas em três ou quatro minutos de música.
Deixa saudade antes mesmo de acabar a última nota.
Hoje Portugal fica um pouco mais silencioso.
Mas amanhã alguém há de sentar-se ao piano.
Alguém há de voltar a pôr um disco teu.
E alguém, talvez muito novo, vai descobrir pela primeira vez aquilo que tantos de nós já sabíamos, que houve um homem chamado Jorge Palma que escrevia canções como quem deixava a porta aberta para podermos entrar.
E nesse instante estarás vivo outra vez.
Talvez seja esse o privilégio dos músicos.
Nós despedimo-nos do homem.
Mas não conseguimos despedir-nos da voz.
Por isso, não te digo adeus.
Obrigado, Jorge.
Obrigado pelas noites. Pelas palavras. Pelo piano. Pela imperfeição. Pela liberdade. Pela companhia.
Obrigado por teres transformado tanto daquilo que dói em qualquer coisa que podíamos cantar.
E obrigado, sobretudo, por teres deixado um pedaço de ti em tantos pedaços de nós.
Hoje despedimo-nos de Jorge Palma.
Mas há homens que, depois de passarem pela música e pela vida de tanta gente, já não conseguem partir completamente.
Até sempre, Jorge.
E talvez a despedida só pudesse ser feita com palavras tuas…
“Encosta-te a mim. Nós já vivemos cem mil anos.”

Mário Gonçalves 

Sem comentários:

Enviar um comentário