O próprio Guterres reconhece agora que as instituições internacionais continuam a reflectir uma realidade de poder criada há décadas. E há poucos dias, na cimeira dos BRICS, foi ainda mais claro: estamos a caminhar para um mundo multipolar e as instituições têm de reflectir essa realidade.
Pois é. Mas esse mundo multipolar não nasceu ontem. E aqui fica o sabor a limão e fel destes dez anos: Guterres termina o mandato com o diagnóstico praticamente feito, mas sem ter conseguido mudar a doença.
Não é justo atribuir-lhe sozinho essa responsabilidade. A ONU não é propriedade do secretário-geral e reformas como a do Conselho de Segurança dependem dos Estados-membros, sobretudo das grandes potências. Mas é impossível não reconhecer a contradição: durante dois mandatos, Guterres presidiu à organização que mais precisava de se adaptar ao novo equilíbrio mundial e sai quando essa reforma continua por fazer.
A ONU continua instalada em Nova Iorque, dentro de uma arquitectura política desenhada em 1945, quando o mapa do poder mundial era outro. Hoje existem China, Índia, Rússia, BRICS, África a exigir representação, América Latina, Ásia e um Sul Global que já não aceita facilmente que o mundo seja explicado apenas a partir do Ocidente. E a questão não é expulsar os Estados Unidos da ONU. É tirar a ONU da lógica de que o mundo continua a ter um centro e uma periferia.
A ONU precisa de ser "reciclada": mais representativa, mais equilibrada, mais democrática e capaz de ouvir tendências políticas e interesses que não cabem na velha divisão entre vencedores e vencidos de 1945. Guterres deixa-nos uma ONU cansada, financeiramente pressionada e politicamente bloqueada. Deixa também uma advertência certeira: as “fendas” do mundo estão a transformar-se em abismos.
Fica então a pergunta: Se até o secretário-geral termina dez anos a pedir a reforma da ONU, quem é que, afinal, conseguiu reformá-la?
Guterres sai.
A ONU fica.
E o mundo - esse - já está muito mais à frente.

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