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terça-feira, 22 de setembro de 2026

GUTERRES: UM SABOR A LIMÃO E FEL:

António Guterres fez hoje a sua última Assembleia Geral da ONU. Dez anos, dois mandatos. Dez anos de guerras, pandemia, Gaza, Ucrânia, crises humanitárias, alterações climáticas e, sobretudo, de uma coisa que já ninguém consegue esconder: o mundo mudou e a ONU ficou para trás.
O próprio Guterres reconhece agora que as instituições internacionais continuam a reflectir uma realidade de poder criada há décadas. E há poucos dias, na cimeira dos BRICS, foi ainda mais claro: estamos a caminhar para um mundo multipolar e as instituições têm de reflectir essa realidade.
Pois é. Mas esse mundo multipolar não nasceu ontem. E aqui fica o sabor a limão e fel destes dez anos: Guterres termina o mandato com o diagnóstico praticamente feito, mas sem ter conseguido mudar a doença.
Não é justo atribuir-lhe sozinho essa responsabilidade. A ONU não é propriedade do secretário-geral e reformas como a do Conselho de Segurança dependem dos Estados-membros, sobretudo das grandes potências. Mas é impossível não reconhecer a contradição: durante dois mandatos, Guterres presidiu à organização que mais precisava de se adaptar ao novo equilíbrio mundial e sai quando essa reforma continua por fazer.
A ONU continua instalada em Nova Iorque, dentro de uma arquitectura política desenhada em 1945, quando o mapa do poder mundial era outro. Hoje existem China, Índia, Rússia, BRICS, África a exigir representação, América Latina, Ásia e um Sul Global que já não aceita facilmente que o mundo seja explicado apenas a partir do Ocidente. E a questão não é expulsar os Estados Unidos da ONU. É tirar a ONU da lógica de que o mundo continua a ter um centro e uma periferia.
A ONU precisa de ser "reciclada": mais representativa, mais equilibrada, mais democrática e capaz de ouvir tendências políticas e interesses que não cabem na velha divisão entre vencedores e vencidos de 1945. Guterres deixa-nos uma ONU cansada, financeiramente pressionada e politicamente bloqueada. Deixa também uma advertência certeira: as “fendas” do mundo estão a transformar-se em abismos.
Fica então a pergunta: Se até o secretário-geral termina dez anos a pedir a reforma da ONU, quem é que, afinal, conseguiu reformá-la?
Guterres sai.
A ONU fica.
E o mundo - esse - já está muito mais à frente.

João Gomes  

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