Foi Ventura quem desarrumou o seu gabinete, ou mandou alguém fazer isso, ou fizeram sem lhe pedir licença e depois contaram-lhe e ele aceitou alinhar na coisa? Não sei, não tenho qualquer forma de saber, obviamente. Mas sei isto: Ventura é o principal suspeito de um crime que pode levar a 1 ano de prisão como pena transitada em julgado. Ou seja, e não aparecendo novas informações que ponham em causa o que foi tornado público, Ventura obrigatoriamente terá de ser constituído arguido, e terá de ser acusado, e terá de ser levado a tribunal. Inevitável.
É um caso de indícios criminais esplendorosos, fornecidos livre e intencionalmente pelos suspeitos. O vídeo de Francisco Gomes mostra uma situação de desordem aparentemente absurda, mas ao mesmo tempo a peça tem um guião. Ele filma a partir da porta, vai percorrendo o espaço e chega ao lado oposto, perto da janela, onde encontra uma primeira Nossa Senhora e um terço pelo chão, continuando a circular, passa por um galhardete (monárquico?) derrubado, até que encontra outra Nossa Senhora em posição indigna. Absurdo anterior: já lá estando a GNR a guardar o local, quem o autorizou a contaminar um cenário de crime? Nisto tudo, o homem aparecer na Assembleia da República às sete da manhã, depois dos empregados da limpeza terem dado o alarme mas a tempo de poder entrar na sala para filmar, pode bem ser um sinal da divina providência em acção. Porque o seu filme não deixa muitas dúvidas a respeito da autoria do espectáculo.
Imaginemos que o furto dos documentos referidos se tinha realmente dado e nas condições que o vídeo registou. Sendo Ventura o mais histriónico dos dirigentes políticos em actividade, existindo real devassa e dano ao seu partido e à sua pessoa de líder, qual a probabilidade de aparecer horas depois aos jornalistas sereníssimo, monocórdico, a dar pausadamente conta do que se tinha passado? Qual a probabilidade de nesse primeiro relato estar mais preocupado em justificar a verosimilhança do absurdo publicado, e em aceitar que não se venha a ter identificação dos culpados, do que em exigir que se virasse a Assembleia ao contrário para encontrar pistas e punir homericamente os historicamente inauditos criminosos?
A sua declaração inicial, sem carência de acrescentar seja o que for que os dias seguintes trouxeram (e trouxeram), é um paradigmático desempenho de controlo narrativo incongruente com a situação descrita. Está pejada de afirmações ambivalentes e curto-circuitos lógicos – como esta maravilha: «O que me foi informado, mas também não temos essa informação, é que não há câmaras de videovigilância na Zona Nobre aqui do Parlamento, eventualmente é uma coisa que tem que ser melhorada e que temos que garantir para o futuro.». Portanto, um assunto que é do conhecimento de todos os deputados, que andava a ser discutido por um grupo de especialistas na Assembleia da República desde o ano passado com conhecimento de todas as bancadas, surge de repente como uma novidade para este anjinho que noutro passo da conferência de imprensa reclama já lhe terem metido anonimamente ameaças no gabinete. Porquê este número circense? Porque não haver câmaras é fundamental para o desfecho que ele está (ou esteve) convencido de ter no papo, o arquivamento rápido do episódio pelos seus amigos no MP.
Contudo, tal como no vídeo do gabinete, o inteligentíssimo vígaro levou aos jornalistas um guião espectacular: Luís Neves e/ou Luís Montenegro estavam na origem do alegado furto. Assim, Ventura cumpriu o que parece ser mais um corriqueiro plano político. Deu-se um acontecimento tornado público onde o Chega reclama ser vítima, onde o Ventura declara ser o alvo, e horas depois, embrulhado com o reconhecimento de que ainda não tinha tido oportunidade para verificar o que realmente teria desaparecido, o homem está tranquilamente a despachar uma teoria da conspiração para épater les burgessos. A sua temperatura emocional só subiu quando o último jornalista o leva a meter as patas pelos cascos, provocando a sua fuga de cena.
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Do que gosto mais
na mise-en-scène chegana é do evento cadeireiro. Só há duas hipóteses: ou a cadeira foi
colocada naquela posição com cuidado, amparando-se a sua descida, ou ela sofreu
um súbito embate com a força necessária para deslocar uns quilos valentes de
madeirame em direcção ao soalho. Como a imagem mostra, tal alteração na
decoração do gabinete não alarmou o gatuno, o qual continuou a mandar cenas ao
chão, duas delas indo encontrar encosto na desamparada cadeira. Vamos esquecer
a parte incontornável da acústica, o estrondo que derrubar uma cadeira
daquelas, naquele tipo de chão sem cobertura, iria provocar numa Assembleia da
República só com a GNR a fazer rondas no silêncio da noite ou madrugada. O que
me interessa mais investigar é a sucessão de acontecimentos que terão levado a que
aquela cadeira tivesse sido objecto do castigo registado. Como é que alguém
teve a habilidade de a atingir com energia pujante sem com isso ter afectado a
circular composição livresca da mesa onde a tal cadeira fazia conjunto com as
suas irmãs? Foi a pontapé, ou num golpe de anca, ou a soco? Como a mesa está
com os seus pertences intactos, e as outras cadeiras aparentam não ter sido
deslocadas nem meio milímetro, a alternativa mais plausível para a psico-física
do acidente é aquela em que o larápio está entretido no meio do gabinete,
concentradíssimo na missão de espalhar papelada aqui e ali, e nisto, em
alvoroço místico, vira-se para a mesa e pensa “Olha, cadeiras… E se mandasse uma ao chão?…“. Estica o braço e puxa-a para trás com um esgar de ódio, sem piedade.
Pumba, toma que já levaste.
4 Agosto 2026 às 9:29 por Valupi
Do blogue Aspirina B


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