Reuniu hoje a Comissão Permanente para tratar de um assunto seríssimo, o do descalabro dos exames nacionais, que atirou milhares de alunos e famílias para a angústia e já chegou aos tribunais. E o que fez o birrento do André Ventura? Foi a uma comissão sobre educação falar de outra coisa. De um tema que nem sequer estava agendado.
E já ninguém se admira, porque todos percebemos o jogo. Onde há um microfone e uma câmara, lá está ele a puxar tudo para a novela do momento, nem que para isso tenha de atropelar os alunos, as famílias e o próprio assunto que levou o Parlamento a reunir extraordinariamente. Transformou o debate dos exames numa tribuna sobre o caso Luís Neves, e ainda tentou furar a grelha de intervenções aprovada por todos os líderes, para roubar mais uns minutos de palco. Foi travado, e ainda bem. Nem as regras da casa da democracia lhe servem, quando atrapalham o espetáculo.
E isto não é opinião minha, é o retrato de um método. Saiu esta semana mais um estudo académico, que se junta a dezenas de outros, nacionais e internacionais, a concluir o mesmo, que a desinformação é um elemento estrutural, a espinha dorsal, da estratégia do Chega. Outro estudo, da Universidade da Beira Interior com a ERC, tinha já apurado que 81% de toda a desinformação nas últimas legislativas teve origem num só partido, o dele. Não é um deslize. É o modelo. Um partido nascido da birra de quem foi uma quarta linha no PSD, e que fez da mentira e do menino-birrento profissão. Só o fanatismo é que impede de ver o que é já uma evidência científica. E é por isso que o Chega não é, nem de perto, a escolha da larga maioria dos portugueses, são mais de 80% dos portugueses que rejeitam isto.
Mas não me esqueço, ao contrário dele, do tema que hoje ali devia mandar. Os exames são uma vergonha nacional. Já há um jovem, aluno com necessidades específicas, que teve de ir a tribunal porque lhe desapareceram dois terços da prova e lhe deram uns humilhantes 4,6 valores. O tribunal deu-lhe razão. E a Ordem dos Advogados avisa que podem ser centenas os casos. Era disto que se devia falar hoje.
E que fique claro, porque me conhecem, não sou contra reformas, muito pelo contrário. Sou a favor de modernizar o que tem de mudar. O que não aceito é que, em nome de uma reforma, se avance com esta imprudência e esta irresponsabilidade. Isto não foi uma reforma. Foi uma anti-reforma, uma trapalhada montada à pressa, sem condições, que em vez de melhorar o sistema o atirou para o caos e levou os alunos para os tribunais.
Quanto ao Ventura e às suas causas, digo o que sempre disse, vamos esperar para ver. Mas há novidades a cair, e nem todas do jeito que lhe convém. Sobre o alegado assalto ao seu gabinete, vão surgindo informações que não encaixam na versão inicial, a porta que não foi forçada, o gabinete sem câmaras, o crucifixo pousado com jeitinho no meio do caos. Aguardemos a PJ, mas o que se sabe cheira cada vez mais a encenação do que a assalto.
E que não se equivoquem, o caso Luís Neves é grave, e também o quero investigado até ao osso, já o disse e repito. Mas isso não apaga o que se segue, tão sério como o resto. Ventura admitiu, da sua boca, que recebeu documentos vindos de dentro da Polícia Judiciária. E a pergunta gravíssima que fica é sobre ele é se recebeu-os, e depois fez o quê? Entregou-os ao Ministério Público, como tinha o dever legal de fazer, enquanto deputado e enquanto cidadão? Ou guardou-os para os usar como arma? Porque, se não os entregou, o problema deixa de ser só de quem os passou. Passa a ser dele.
E reparem no essencial, para alimentar mais um episódio da novela, Ventura atirou lama sobre uma das instituições que mais temos o dever de proteger, a polícia que investiga os crimes deste país. Pôs em causa a credibilidade do que devia ser inatacável, sem apresentar uma única prova a quem de direito. Isto não é combater a corrupção. É brincar com o fogo que sustenta o Estado de direito.
Havemos de desmontar tudo isto, peça a peça, à medida que a verdade aparecer. Mas hoje já ficou claro para quem quis ver, que enquanto os alunos esperavam respostas, houve quem transformasse a sua angústia em mais um número de circo. E isso retrata um homem por inteiro.
E aos que vêm para aqui defender o birrento do Ventura, façam-me um favor, bloqueiem o meu perfil. Poupem-nos a ambos o tempo. Porque quem, perante tudo isto, ainda consegue defendê-lo, já não está a discutir factos, está numa fé. E contra a fé cega não há argumento, prova nem evidência que valha. Eu escrevo para quem ainda pensa. Esses, os outros, já entregaram a cabeça à porta.
Pensem pela vossa própria cabeça. Sempre.
E boas férias, para quem é o caso. Eu, mesmo de férias, continuo a ler. E a pensar. Isso não tira folgas.
Ricardo Lima

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