
É injusto culpar a unipessoal André Ventura pelo surgimento de um movimento de instrumentalização político ancorado no fanatismo religioso, alegadamente criado por mulheres conservadoras. Também lá estão fundamentalistas do PSD e do CDS a ajudar os respectivos partidos a cavar a sua sepultura. Cada partido tem o necrófago que merece.
É bom deixar algo muito claro desde já: quem defende e celebra um genocídio, quem defende o ódio contra outros povos ou religiões e quem defende corruptos que encornam a mulher com prostitutas e actrizes porno está desde logo apresentado. Usam Deus em vão e incorrem em pecado mortal. Dito por outras palavras, são uma fraude. Ou, quiçá, são um estratagema do Diabo para encaminhar o rebanho para o fogo do inferno.
São, em toda a linha, a negação dos ensinamentos de Jesus que dizem defender.
Adiante.
Para que serve, então, um movimento destes?
Serve, sobretudo, para normalizar a dar suporte a agenda de submissão da mulher, defendida pela direita radical e pela extrema-direita.
Porquê?
Porque as mulheres, nos países desenvolvidos, tendem a votar à esquerda do espectro fascista. Seja em partidos de esquerda, seja em conservadores moderados, seja em partidos de direita liberal cujo liberalismo não se esgota numa agenda de extinção de impostos e privatizações em toda a linha.
E isto constitui um problema para os novos fascistas, em países onde o voto é livre.
Solução?
Retirar o voto às mulheres.
E se isto te parece do domínio da conspiração, sugiro que dediques alguns minutos a pesquisar sobre o que se está a passar nos EUA, onde começam todas as modas que cá chegam com uns anos de atraso.
Vê o caso da aliança entre neofascistas e evangélicos que pretende retirar o voto às mulheres e substituí-lo pelo “voto do lar”, eufemismo fofo para “o homem decide, a mulher cala a boca e vai para a cozinha”. O pastor de Pete Hegseth, que já dá palestras no Pentágono, é um dos seus mais empenhados proponentes. Pesquisa Doug Wilson e vê com os teus olhos.
Este movimento, parece-me, será uma versão portuguesa das trad wifes americanas, uma seita financiada por algumas das maiores fortunas americanas para promover a submissão das mulheres, o abandono de carreiras profissionais em detrimento da família – porque o homem é limitado e incapaz de fazer a sua parte em casa – e a redução ao papel de cozinheira, jardineira, trocadora de fraldas e carregadora de chinelos e cervejas no percurso fogão-sofá.
Poderás estar a pensar: mas estas mulheres têm carreiras e cargos políticos. Como podem estar a defender políticas que as podem prejudicar?
Simples: todos os movimentos de opressão tiveram os seus idiotas úteis. Negros que serviam esclavagistas ou judeus que serviram no exército da Alemanha nazi são dois bons exemplos disso mesmo. Por isso não será da admirar que existam mulheres a defender que se retirem direitos às mulheres. Por convicção, por estupidez ou por dinheiro. A história está repleta de traidores de classe.
Veremos no que isto dá. Se isto é só uma fotocópia dos fundamentalismos religiosos paridos nos EUA e Brasil, ou se estamos perante uma luso-singularidade. Uma coisa parece-me certa? Sinto-me mais ameaçado por este tipo de sharia do que por todos os muçulmanos que residem em Portugal.
De longe.
15/08/2026 by
Do blogue Aventar
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