Há notícias que, mais do que informar, parecem querer preparar o leitor para uma conclusão previamente escrita. A mais recente diz que Putin "continua sem conseguir recuperar nas sondagens" e sublinha que a sua aprovação ronda agora os 66%, muito abaixo dos cerca de 80% que lhe eram atribuídos há alguns meses. A palavra-chave é "queda". O objetivo parece evidente: transmitir a ideia de que a liderança do Presidente russo está em declínio.
Mas vale a pena olhar para os números antes de aceitar a narrativa.
Depois de mais de quatro anos de guerra, de sucessivos pacotes de sanções económicas, de uma campanha mediática internacional sem paralelo, de previsões de colapso económico, de anúncios sobre o alegado esgotamento militar russo e de sucessivas notícias antecipando o fim político - e até físico - de Putin, o que resta da realidade?
Segundo a própria notícia, um líder que atravessou tudo isto continua a reunir cerca de dois terços da aprovação popular. É difícil encontrar, no mundo ocidental, muitos governantes que resistissem durante tanto tempo a uma conjuntura semelhante conservando índices de aprovação comparáveis.
Durante anos, uma parte da comunicação social ocidental construiu a imagem de um dirigente isolado, contestado internamente, enfraquecido e permanentemente à beira da queda. Houve quem anunciasse doenças terminais, cancros, Parkinson, utilização de duplos, golpes palacianos iminentes e até a incapacidade do Estado russo para continuar a funcionar. Outras análises garantiam que as sanções destruiriam rapidamente a economia, que a indústria militar entraria em colapso e que o descontentamento popular provocaria inevitavelmente uma mudança de regime.
O tempo passou. Nenhuma dessas previsões se confirmou. A Rússia continua a funcionar, a sua economia adaptou-se, o sistema político permanece estável e o homem que tantas vezes foi dado como politicamente acabado continua a liderar o país e a apresentar níveis de apoio que muitos líderes europeus dificilmente alcançam em tempos de paz.
Isso significa que Putin não possa ser criticado? Naturalmente que não. Significa, isso sim, que uma análise séria deve distinguir entre opinião, desejo e realidade. Quando um dirigente mantém níveis elevados de aprovação ao fim de vários anos de guerra, talvez a questão não seja explicar porque perdeu alguns pontos percentuais. Talvez a verdadeira pergunta seja outra: porque continua a conservar um apoio tão elevado apesar de todas as previsões em sentido contrário?
É legítimo questionar metodologias, tanto de sondagens russas como ocidentais. É igualmente legítimo discutir o funcionamento das instituições russas. O que deixa de ser legítimo é transformar cada pequena variação estatística numa prova de um alegado fim político que, ano após ano, nunca chega.
Uma redução de cerca de 80% para cerca de 66% pode representar desgaste. Seria estranho que não o representasse, após um conflito prolongado e um contexto económico exigente. Mas transformar esse valor numa demonstração de perda de legitimidade ignora um dado simples: a maioria dos governantes europeus dificilmente sobreviveria politicamente a quatro anos de guerra, sanções, pressão internacional e dificuldades económicas conservando níveis de aprovação semelhantes.
Os factos, por vezes, têm o incómodo hábito de contrariar as narrativas. E talvez seja precisamente isso que explica porque continuam a surgir notícias que insistem em anunciar o enfraquecimento de Putin: não tanto porque os números o demonstrem de forma inequívoca, mas porque essa continua a ser a conclusão que muitos desejam encontrar.

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